terça-feira, 29 de julho de 2008

Metáfora

Por Simone Couto


Verdade maior: estou longe de atingir exatidão ou até mesmo harmonia na relação do meu corpo com o espaço, do meu eu com a vida. Ontem abri uma porta para pegar minhas cartas, ela se fechou antes que eu movesse adiante. Mais tarde, abri outra, esta também se cerrou antecipadamente. "Darling, você não consegue nunca abrir ou fechar uma porta sem se machucar", conclui meu marido. Sim, não consigo, nunca consegui. Cada porta que abro, deixo para trás finas fatias arrancadas de mim. E assim, perambulo por aí, exibindo marcas na pele que só eu sei onde estão. Abrir portas sempre foi uma dor.


(julho de 2008)

sábado, 10 de maio de 2008

A Physis - cá entre nós
por Aline Yasmin
“E aí queridona? Chove em sampa torrencialmente. Delícia de chuva. Não inundasse a casa de milhares e eu diria que amo quando isso ocorre. Mas não vou mentir pra você! Gosto muito. De madrugada a chuva com raios e trovões fez o prédio inteiro olhar pela janela. A minha cabeça com olhos sonados era só mais uma em meio a tantas. Será que o mundo acabaria? Se tivesse acabado naquele momento, eu morreria feliz e leve, viraria chuva. Vez em quando, penso que a morte não é um fim, é um começo, vamos virar vento, fazer furacões, virar água, fazer tempestade, virar mar, virar terra, virar ar...” vini

...

“...Querido, não devo esconder que a chuva também me invade. Às vezes me culpo pelo meu prazer e desprazer de tantos. Mas, é sempre assim - não? Sim, eu sei como uma filha de Iansã, rainha dos ventos e das tempestades, que somos fluidos, somos o que não se pode conter. Ventamos, nevamos, explodimos em calor e energia. O céu, o cosmos, o mar que às vezes se zanga e escurece e outras sorri, azul - tão azul, que penso estar na lua...”yasmin

sábado, 3 de maio de 2008

Hace Tiempo

de Bruno Vaks
(Não sei ao certo se é uma cronica, um conto ou um desabafo)

Tenho a dizer que fazia tempo que não escutava uma simples noticia dela. Só me lembro de nós dois na lavanderia, sentados em cima de algumas máquinas de lavar vazias enquanto esperávamos nossas roupas serem lavadas. Estávamos num lugar estranho, para ambos. E neste lugar estranho é que contávamos alguns de nossos sentimentos mais sinceros.

Naquela noite de Janeiro no Hemisferio Norte, fazia bastante frio, fumávamos cigarros contando de nossas experiencias de vida no começo dos vinte. Achávamos que tudo estava indo a favor da corrente, mas muitas coisas nos angustiávamos e era necessário falar. Para quem, não sabiamos? Só tomamos conta das revelações e sentimentos desprendidos quando voltei do telefone publico com a noticia que tinha conseguido ligar para aquela menina que tanto me atormentava desde o momento que nos cruzamos sem querer numa esquina da cidade. Para ir atrás dela, passei por diversos obstaculos, e com o numero na mão ja estava há dois dias, sem a coragem necessaria para um simples alô. E se ela respondesse com um OK, ou com um não obrigada? Isso, passados dez anos, ainda não tive a certeza. Do seu rosto tambem não tenho a certeza, ele se evaporou juntamente com outras centenas de coisas que acontecem diariamente em nossas vidas.

E essa menina qe estava fumando cigarros comigo numa lavanderia nunca mais saiu da minha cabeça. Se nutri uma paixão platônica por ela, nunca saberei porque com ela nunca mais encontrei. Ainda divago por ai, querendo saber o que ocorreu com ela para afastar-se de todos. Ainda me pergunto o que leva uma pessoa a escapar, a fugir, a começar uma nova vida, com uma nova identidade mesmo sendo ela mesma. Pois sua cara não mudará, seus pensamentos ainda serao aqueles que conversávamos. Com certeza mais maduros como os meus.

Eu agradeço a ela pela força que me passou naquele momento, em que uma simples frase ou quem sabe, um conjunto de frases, me ajudou a romper uma barreira absurda no fazer e não fazer. Essa historia me marcou profundamente. Me lembro de ficar olhando as pessoas, na maioria, imigrantes no novo pais, passando por mim, cada um com sua diversidade, mal sabendo que naquele momento rolava um cumplicidade entre duas pessoas que se gostavam como gente.

Ainda hoje me pego perguntando para as pessoas que um dia foram proximas a ela, como eu fui, seu paradeiro. Muitas não sabem, o que faz minha angustia aumentar. Muitas tentam o contato e são rechaçadas. Me parece que tudo aquilo que ela viveu está guardado embaixo do tapete, juntando os cacos de alguma emoção equivocada ou sentimento desiludido. Ainda acredito que um dia não poderá mais ter lugar para guardar tanta coisa lá e isso transbordará. Nesse instante eu imagino que ela irá procurar alguem. Não a mim que estou longe, mas alguem mais proximo que olhará em seus olhos com ternura e a desculpará pela reclusão imposta pela vida.

A beleza de seus trejeitos será novamente observada por nós e o encontro será bueníssimo ( como dizem alguns). A vontade de saber o que passou em sua cabeça ao longo desses longos anos será desmistificada e daremos risadas juntamente com os outros sentados em alguma paisagem magnifica que o tempo nos trará.

Ontem escutei uma noticia dela. Não vejo sua cara desde então. Não sei o que o tempo fez com ela, porem começo a descobrir o que ele fez comigo. Ela casou e esperava um filho. O presente foi adiado, meu coração apertou e de novo me imaginei sentado naquele mesmo lugar com ela como a dez anos .Porem ao invés de acender um cigarro e comemorar um feito em conjunto, a abraçaria. Forte, para pensar toda a deliciosa alegria de saber que ela de alguma forma, ainda faz parte da minha vida. E que estarei com ela onde estiver.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bocas e Sinais

Por Aline Yasmin

Sinal vermelho. A massa atravessa observada pelos olhares atentos a espera. Um homem não. Fica, silencioso escorado no poste do semáforo. Coloca suas mãos coladas aos ouvidos, primeiro o esquerdo, depois o direito. Segue. A mulher esbarra com sua bolsa metálica em outra que tropeça - enquanto tenta manter a forçosa elegância. Dois homens - deselegantes fixam-se nos andares femininos, mais propriamente nas partes baixas: coxas, pernas e nádegas – acompanham olhares vívidos e cúmplices – sorriem - primeiro olham, indicam com a cabeça repetidamente até o outro concordar – sorriem continuamente, e falam alto – ê bundão! Gargalhada na seqüência. Só outro homem do lado esquerdo da calçada acompanha e entende. Uma mulher abaixa a cabeça e parece se envergonhar, tímida. A outra parece gostar e caminha mais rebolativa. Do outro lado da rua, rente à praça duas senhoras reúnem-se afobadas a um grupo que evoca a ira de Deus – e a pena dos seus Deuses furiosos contra aqueles que se rebelam – inclusive os dois rapazes que guardam suas presas indiferentes ao grupo. Um senhor de óculos, aro preto, vidros garrafais aparenta 45. Acena para a multidão enfileirada sob a faixa pedestre e diz: - venham para a salvação....uma senhora vira curiosa e pára, de longe. É provável que pelo olhar teso e triste pensa nos seus pecados, ...tanto tempo – agora talvez já redimidos, mas não demora muito e segue ajeitando o cabelo que cai sobre o rosto. Uma jovem, com ares de intelectual passa com uma bolsa preta couro legítimo arqueada em saltos finíssimos – advogada em dia de audiência, diria o senso comum. Com pressa, ignora a praça. Não tem tempo para a metafísica em dias pragmáticos. Surge um rapaz com boné de lado, calça jeans e bolsa de tecido cru, atravessada. Esse observa. Ri um pouco e propõe uma fala no microfone no palanque improvisado. - Quer dar seu testemunho? Pergunta a moça. Ele diz que quer só umas palavras. Certamente não deve ser seu testemunho e fica na fila a espera do espetáculo. A platéia se agita. Um cachorro deita ao lado da árvore - mais alta e fresca. O dia ferve – quente – primavera de verão, todos dizem entre os preguiçosos passos largos: dia quente, dia quente. Credo! Quem se diverte é o vendedor de picolé, e o também da água de côco. Os botecos mais próximos já servem uma gelada. Um senhor de mais ou menos 60 e outro de quase isso trocam cartas e fumam desde cedo - é a aposentadoria, dizem e riem, mas sem felicidade no rosto, um riso cínico, descrente, daqueles que – enquanto sorriem - uma sobrancelha sobe e a boca repuxa pelo músculo no canto até ficar curvada, e ao rirem, os olhos tornam-se para baixo - a gargalhada sobe da garganta, com o esforço de quase um pigarro. Um carro atravessa direto pela faixa cidadã. Revolta. Rapidamente umas cinco pessoas gritam para o homem que pára logo na frente pra se desculpar. Tô atrasado! – grita, tentando se justificar e seguir apressado. No mesmo instante tudo se desfaz – nada. Qualquer coisa é motivo e ao mesmo tempo se perde no movimento convulsivo de agrupamentos involuntários. Um casal caminha alheio com uma criança no colo, contorcendo-se em volta da mesa disposta na calçada para os senhores, uma barata atravessa o caminho e o homem a mata com a ponta do sapato, sem dor. A mulher suspira aliviada, a criançada que saia da escola faz festa com uma caixa de sapato, uma moça com pálpebras de pintura azul e boca vermelha manchada surge numa sacada – Vê a rua, a praça, a calçada, a gente toda que passa – e triste - sorri, fecha a cortina e sai.

domingo, 23 de março de 2008

Para rever e sonhar
Por Aline Yasmin


A memória traz os vivos e os mortos - é uma grande centrífuga que nos forja e pouco resta a fazer – contra e com isso. Os mortos vivos são nossos fantasmas. Creio que há um certo tempo de esquecer e de lembrar. Esquecer para não perder a ternura e lembrar pelo mesmo motivo.
Há exatos 3 meses quando lutava para esquecer encontrei um amigo que não via desde meus 9 anos de idade. Leandro, irmão de Frederico e de Carolina. Nos perdemos no tempo até que novamente nos tocamos. Ficamos ali parados relembrando o olhar infantil no horizonte, corpos escorados pela pedra, oito pés diminutos pendurados numa pequena praia que frequentávamos. Quatro crianças que sonhavam juntas. Frederico com seus olhos verdes folha e Leandro com uma indefectível pinta escura sobre o a maçã rósea do rosto, ambos cabelos pretos que escorriam sobre a pele alva - e nós, as gêmeas. Nos reencontramos 30 anos depois. O tempo congelou naquele espaço. Lembrávamos desse dia. Frederico de um pouco mais. Como um hiato, nossa vida – esse vão que nos distanciou, desapareceu. Fomos sentimento puro. Memória maciça de crianças emocionadas que se abraçaram como se não houvesse nada, como se a dor e as conquistas do passado nada representassem, a ternura nos comoveu, mais do que a nossa vida. Que seja esse tempo, seleto, guardado- feliz, nosso bálsamo, nosso presente mais precioso, um saco de coisas boas - do frescor que cessa enquanto caminhamos na estrada dura. Que seja esse o passado, o lembrar criança, a pureza horizonte, o sorriso espontâneo, pés soltos no ar.

Que enterremos nossos fantasmas, nossos medos, nossos sonhos desfeitos – e façamos outros.


terça-feira, 11 de março de 2008

Amputados
por Aline Yasmin

eram pra ser dois. parte um, parte outro. não eram. eram um corpo só. um pedaço de olho que se integrava numa bacia, dedos perdidos na boca - outra, pele colada pé sobre pé. movimentos que se fundiam tais quais liquidificados. únicos. uníssonos. palavras que se completavam - frases inteiras. o corpo se desintegrou. não o corpo, partes deles - agora dois, deslocados, partes descoladas. a mão que não mais se coloca e os pés completamente tortos - seguem rumos distantes. dizem que se perdem eventualmente e podem ser vistos ziguezagueando madrugadas afora - tentando achar nos escombros o resto do próprio dorso.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Santa Teresa Por Ele e Ela

Por Simone Couto-Versão Revisada)

Ele: Homem não chora. Quem chora é ela, Santa Teresa. Só ela. Eu vi. Eu, perdido entre foliões. O bloco das Carmelitas passando. A Ladeira derramou um rio de lágrimas minutos antes dela chegar. Tanta chuva, tanta dor.

Eu me arrumei todo. Olha que não sou de vaidade. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria encontrá-la com a cara limpa. Não usei brilhantina no cabelo nem minha camisa branca de linho. Aparei de leve a barba. Me enchi de esperança.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a birita e o jogo de cartas com a turma do Bar do Zé, despachei a empregada e dei-lhe uma gorjeta generosa. Desci e fui até a esquina. Comprei um maço de cigarros. De volta à casa, dispus o pacote e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

“Anita não é flor que se cheire”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar escassas pétalas de um rosa pálido nos galhos das árvores. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Fui generoso novamente na segunda gorjeta do dia.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro. Parece que foi ontem quando fugimos da multidão e das serpentinas, para trocarmos beijos extasiados e juras de amor.

19:20, ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Acendi um cigarro. Deixei o tempo passar.

Minha alegria desfaleceu-se aos poucos. O porvir foi assim, eu conto: dose de cachaça descendo quente pela garganta, o pandeiro tocando desafinado, "você manhã de tudo meu, você que cedo entardeceu, Você de quem a vida eu sou, E sem mais eu serei... Você um beijo bom de sal, você de cada tarde vã, Virá sorrindo, de manhã..."

No “Boteco do Mineiro” o músico passou o chapéu. Desta vez fui miserável. Paguei só a conta e economizei na gorjeta. Caminhei rua abaixo por entre os trilhos e confetes. Matutei com os meus botões, “ô mulher ingrata. Vá pro diabo que te carregue.”



Ela: Eu chorei . Derramei um rio de lágrimas. Ele não viu. Também não compreenderia.

Eu me aprontei toda e acabei mudando de idéia. Queria encontrá-lo como realmente sou. Não prendi meus cabelos, não usei batom vermelho. Não vesti aquela fantasia de cigana que ele gostava tanto. Só me preenchi de coragem.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a manicure das 11:00 horas e liberei a empregada. Fui até a esquina. Comprei um ramalhete de dálias alaranjadas. De volta à casa, dispus uma por uma no vaso e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, por favor informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência.

“Osmar é traiçoeiro”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar árvores crescendo em solo frágil. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Paguei o que devia. Desci.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro.

19:10. ainda tenho vinte minutos. Quis acender um cigarro mas não tinha fósforo. Levantei-me e fui embora.

Meu choro ninguém viu. O porvir foi assim, eu conto: Sentei-me no meio-fio, tirei um livro de Freud de dentro da bolsa. Senti-me estúpida lendo Freud em plena terça-feira de carnaval. O abri em uma página qualquer. Li: Quando amam não desejam; e quando desejam, não podem amar. (Cap. IV, II,2).

“Meses sem notícias e agora quer me encontrar? Esquece!”, pensei. Desci a ladeira caminhando com passos tortos por entre os trilhos e confetes. “Todo caso de amor fulminante, mais cedo ou mais tarde passa. Dói mais passa”, suspirei aliviada.

Cinzas, só as da quarta-feira.


sábado, 1 de março de 2008

gira-sol
por Aline Yasmin

hoje me chamaram atenção duas flores no jardim: girassóis. grandes e valentes com suas caras redondas amareladas voltadas para o mar. pareciam felizes. moveram-se durante o dia e procuraram como se poderia esperar, o sol. ele veio confuso, alternadamente brigando com as nuvens. pareciam duas mocinhas singelas contando causos na janela. se eu fosse um pintor - dali, talvez as retratasse ainda melhor do que celebrou
van gogh e as faria certamente duas jovenzinhas cúmplices e desencucadas se fazendo companhia. Não pude deixar de sorrir.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A Chuva

Por Simone Couto
Todos os dias, antes do menino dormir, eles seguiam o mesmo ritual---a mãe escovava-lhe os dentes. Ela sentava-se na borda da banheira e puxava a criança pelos braços magros até esta se encaixar com precisão em suas pernas roxas de varizes. A mãe deitava-lhe a cabeça no colo. Com a boca escancarada, ela escovava dente por dente. Entre uma cuspida e outra do menino, ela aproveitava e olhava-se no espelho resmungando para si mesma sobre os poros entupidos e as rugas precoces.

No quarto, ela vestia a criança em pijamas. “Como pode este já está pequeno se o comprei outro dia mesmo?”, pensou ela. O filho crescia aos seus olhos. Ela nem sempre se dava conta disto e este pensamento era uma alfinetada em sua condição de mãe.

Cada um escolhia um livro na estante ao lado da cama. Após a leitura, o menino deitava-se e aguardava o afago, não sem antes relembrá-la de deixar a porta entreaberta ao sair.

A rotina era esta, com pouquíssimas variações. Todos lhe diziam que aquele menino era um menino fácil. E era mesmo. O menino era tão maleável quanto água. Como ela só tinha aquele ali, não confiava plenamente nos comentários alheios. Inevitavelmente, se sentia exausta das nove horas diárias passadas ouvindo reclamações na companhia de telemarking onde trabalhava, além das obrigações domésticas intermináveis.

A rotina era assim até o dia em que o menino notou pela primeira vez a chuva caindo do outro lado da janela. Estupefato, ele declarou triunfante, “-Está chovendo, mamãe!”

A mãe teve o ímpeto de dizer, “-Sossega, menino, vai dormir e deixa esta estória de chuva para depois!”

Todavia uma bondade inesperada lhe brotou no peito. Esta nascida de quase um ódio máximo, onde a mãe, a ponto de perder-se na própria falta de paciência, se dá conta que ali encontra-se um menino, nada mais do que um mero menino.

“-Levanta então e vai ver a chuva.”, diz ela a ele.

“-A chuva está caindo nos carros! Eu juro. Sabia, mamãe, que a chuva é feita de água?”, ele revela com lágrimas nos olhos minúsculos.

As noites e os dias, depois daquela chuva, jamais seriam os mesmos. A mulher uma vez mais beijou-lhe a testa, desta vez satisfeita por não ter destruído um momento de descoberta do filho.



sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Significado das Coisas

Por Simone Couto

algo é o nome do homem

coisa é o nome do homem...
Arnaldo Antunes


O marido chega em casa com uma braçada de flores. Está contente. É quinta feira, véspera de Natal. A sua frente haverá três dias de folga do trabalho exaustivo.

O filho mais velho de três anos, que está aprendendo a planejar seus pensamentos coerentemente, pergunta:

“Mamãe, o que são estas flores?”

“São tulipas, meu filho,” diz a mãe colocando-as já na água antes que elas minguem.

“O que são tulipas?”, continua o menino ainda não satisfeito com a resposta.

“São flores que encantam os olhos.”

“Mas o que é “que encantam os olhos?”

“- As tulipas, meu filho.”

E assim o menino satisfez-se e calou-se.

2004

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Vamos nos falando.....não hoje, Obrigado!

De Bruno Vaks

Ora Bolas, me pergunto a noite. Se já passamos por diversas dificuldades ao longo da semana, com trabalho, com transito, com famílias e com nós mesmo, vamos ainda nos preocupar com o nosso flerte?
Como seria interessante se tudo fosse como Romeu e Julieta ou qualquer outra peça de Shakespeare Aquela adrenalina toda, aquela pulsação extrema de ambas as partes. A metade da laranja que muitos procuram eternamente e nunca se satisfazem, porque o bagaço é simplesmente o bagaço.
Mas nós, Cariocas, acredito que subestimamos o poderio das palavras, em relação ao flerte. Quando ouvir alguém falar para você na despedida de um casual encontro, o famoso “ Vou te ligar! Vamos marcar”? , voice sabe que a chance que isso aconteça é bem pequena. Até o escritor que vos escreve é adepto. A única frase que não deixa nenhum das contrapartes feridas. Considero saudável essa afirmação. Ao mesmo tempo que é otimo, confesso que angustia. Pois muitas vezes a expectativa de esperar o retorno é o começo de uma nova etapa. Acho que não preciso explicar, cada um interprete de sua maneira. Agora a frase “vamos nos falando” tem outro teor. É uma frase dificil de se interpretar, são diversos significados que você pode conjecturar. Primeiro, você pode escutar de uma maneira tenra, de alegria e de disposição da outra pessoa em seguir conversando com você. Já tem aqueles que escutam com um certo desdem do outro. Ora se vamos nos falando, quando exatamente será o ato de falar? Será o “vamos nos falando” uma forma do outro te colocar como coringa debaixo da manga para retirar de forma triunfante quando não tiver mais cartas no baralho?
Pode ser que sim. Imagino na época da Guerra Fria onde EUA e URSS viviam as turras da iminência de uma Guerra nuclear. Quando se encontravam, faziam pompa e tudo para o mundo e sempre terminavam com um apoteótico vamos nos falando para resolver as questoes capitalistas x socialistas. Um outro exemplo de nosso governo, o pedido de verbas urgenciais para Saude, com um plano bem elaborado por politicos honestos é subvalorizado pelos superiores que elogiam o projeto e dizem que vão examinar e no final soltam aquele belo verbete: Vamos nos falando.
Ou mesmo uma menina que espera ansiosa o retorno do menino, que ao invés de ser taxativo nas respostas enrola-se todo com proverbios, ditongos e palavras difíceis e claro, no final, da um beijo e diz: Vamos nos falando. 
Hoje no almoço me questionaram de uma forma não tão direta em relação a isso. Foram dialogos e mais dialogos, que no final pude chegar a essa famigerada frase, que sinceramente, não diz nada. Diz sim, diz uma falta de respeito pelo outro. Uma falta de desleixo com o outro e é claro, enrolação. O que por sinal, pode achar que seja essa crIonica. Um modo para se perceber a carência da escrita e a insegurança de perder o leitor, jogando de forma maquiavélica um sentido diferente para o “Vamos nos falando”. 
Fale, ou senao deixe rolar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Estudo Sobre Maçãs

Por Simone Couto

O inverno engrandece-se nas notas das quatros estações de Verdi. É austero com o homem. São pequenos golpes perfurando o osso oco e alastrando-se consistentemente. O inverno chega no jardim por trás do muro que separa a minha casa de 120 anos da dos Palmers. Lá há macieiras de folhas permutáveis. Notas de outono. Rubro-laranja-qualquer coisa entre, assim sei que o tempo é mestre diligente. Nem todas as frutas são colhidas. As últimas apodrecerem no pé. Um desperdício que não dói e sim reflete a natureza crua e bela, escolhida para não ser modificada pelas mãos do homem. Lá estão elas, as maçãs, enrrugadas, penduradas. Galho estéril. Eu daqui, do lado de cá do muro, aprisionada no compasso silencioso e transitório dos meus dias, encontro beleza na velhice das maçãs. Como elas, seco uma vez por ano sem dor.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Sobre Desejo e Luto
Por Aline Yasmin

Há aproximadamente 3 meses li espantada o trecho do delicioso livro presenteado por minha querida aflipta, Simone. Li em voz alta pra que pudesse compartilhar o quanto deveria ser interessante sobre o que entendemos a respeito de nossas relações e mais ainda, sobre o desejo:

“...Amar outra pessoa consiste em investir nela a libido originalmente concentrada no ego. O outro se torna ideal do ego. Deste modo, em caso de morte ou de separação do ser amado, o ego, como que esvaziado do seu ser e da sua substância, se identifica com o objeto perdido no luto...Existe aqui sofrimento, mas também pelo fato de uma descarga afetiva, um gozo masoquista. O suicídio do ego é sem dúvida uma metáfora, dado que o ser do objeto substitui o ser do sujeito... "(Camille Dumoulié, O desejo)

Não poderia supor que em tão pouco tempo poderia experimentar o que de fato concordara.

Viver o desejo talvez seja o próprio enigma da esfinge. Aquele a que todos julgamos enfrentar e que muitas vezes custa-nos a própria vida.

Concuspicência? Potência em movimento? Ego? Vontade? Liberdade?

Muito se fala desde que o homem resolveu abandonar sua caverninha pra entender um pouco dos ruídos que extrapolavam seus sentidos. Daí pra se comunicar e pra buscar o logos, foi um pulo. Poucos séculos diante da eternidade. Bastou que se racionalizasse a questão, organizassem a sociedade em métodos e artífices, para que daí surgissem os dogmas, os preceitos e doutrinas incorporadas às culturas específicas. O homem se distribuiu em credos, dividiu-se em cores, etnias, em espaços e linguagens. Cada um estabelece o que é e o que faz – de acordo com suas crenças – que na verdade, poucas são verdadeiramente suas, consensadas arbitrariamente (parece e é – incoerente).

Saímos do estágio animal – inferior, sensível – para o privilegiado “sapiens”: brigamos por poder, matamos por orgulho, superamos os animais e exploramos sua pele. Arrancamos da natureza o que for possível e lucrativo. Das tribos tornamo-nos sociedades, impérios, dos impérios – países, e agora estamos globalizados.

Mas, ainda amamos, ainda desejamos, exercitamos o nosso lado mais instintivo, mais cruel, mais primata. Mesmo que o façamos na busca por nós mesmos – diante de uma teoria lacaniana, o fazemos. Somos cio, somos sexo, somos impulso, somos sentidos.

Convivemos lado a lado com a hipocrisia que nos molda, dialogamos com a moral. Mentimos, porque fica mais fácil. Porque a ética existencial não convive com a moral e com a estética do Bem cristão. Aquele que prefere manter sob a aparência, aquele que não suporta ver-se superado pelo próprio instinto, aquele que quer ser amado, que pactua com os discursos e dorme sob eles.

Mentimos porque a liberdade custa caro. Mentimos porque estamos sós. Vivemos em silêncio. Porque precisamos desfilar em aceno para a multidão que nos assiste – sós. Porque somos julgados, porque cobramos o que não fazemos – por medo. Somos reféns das celas que forjamos. Convivemos com as amarras que nos demos. Porque temos medo de não corresponder. E sorrimos enquanto gostaríamos de chorar.

Fugimos quando precisaríamos enfrentar o medo e a solidão e buscamos o Outro: aquele que somos nós, aquele a quem perdemos, aquele a quem não somos fortes o suficiente para nos bastar. Buscamos afeto, buscamos sonhos – mas temos medo de viver o nosso próprio luto e de enfrentar aquele que não permitimos ainda nascer.

Para responder a questão que nos coloca a brillhante autora: ...Por que o desejo do sujeito conduz, para lá do amor, a uma espécie de deserto onde se acha mais perto do seu ser?”

Eu arriscaria: Por que estamos sós, Camille. O deserto somos nós.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Menos Bombas, Mais Amor

Por SimoneCouto

Mais uma viagem ao Brasil e me dou conta o quanto o carioca é inventivo no que diz respeito à linguagem. A gíria está no ar, a gente respira sem opção e logo, bumba! Já está lá ela, sempre na moda, inserida a cada duas frases. “Vai bombar, Simone. O Ano Novo em Porto Seguro vai bombar,” meu querido companheiro literário Bruno Vaks afirma entusiasmado, entre uma garfada do cabrito bem assado no Nova Capela, restaurante cheio charme no coração da Lapa, e uma golada no chope estupidamente gelado.

Nestes dias quentes de verão de 2008 parece mesmo que tudo “vai bombar” no Rio de Janeiro e fora dele. Noite seguinte, resolvo ir balançar o esqueleto lá no Carioca da Gema, outro “point” legal da Lapa. Um amigo, possivelmente entediado, sugere a Quadra de Samba da Mangueira. “Uma e trinta da manhã, Simone, Já deve está bombando por lá, está afim?” diz ele. Claramente não estava pois não movi um dedo em direção à Estação Primeira. Além do mais, a cantora do Carioca começava os primeiros acordes de Roda Viva, do Chico Buarque. Arrastei a saia, gritei o hino e até me dei conta, espremida entre tantos corpos suados que a música fizera meus pêlos se arrepiarem. Ô coisa boa, pensei, ainda sou brasileira da gema.

Entre tantas gírias passageiras que tento aprender às pressas para não ficar demode, desta vez, me fiz de surda e muda, não me popularizei. Desta vez resolvi mesmo ficar cafona.

Da onde vem o termo “bombar”? Fui averiguar e tantas respostas recebi que resolvi tirar minhas próprias conclusões. Será o termo “bombar” um reflexo da violência ignorada pelas autoridades máximas do Brasil e já assimilada pelo brasileiro, que agora a vomita aos montes e nem se dá conta? O verbo já não habita só as favelas com suas ruas nuas, população sem lenço e sem documento. O sol é tão bonito e ainda se reparte em crimes já banalizados pela sua ocorrência cotidiana, lá no alto do morro e fora dele. O Rio é um só, o povo também. Quando a violência chega desapercebidamente à boca e vira moda, é hora de parar, meu chapa, e se perguntar, que país é este em que vivemos?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Sobre Dor e Aquiles
Por Aline Yasmin

Hoje eu tenho uma dor. Ela começou no pé - direito, mais precisamente no tendão do tornozelo..é não era bem no pé...mas dor é assim, se espalha. E essa dor extrema, não porque era insuportável, mas porque estava na extremidade, me fez reclamar. Reclamar mais do que era necessário. E isso quer dizer dor. Quando percebi, já tomava corpo...peito, cabeça, ombros...era uma dor maior do que daquele tendão. Não dava pra ser injusta e atribuir tanta tristeza a um pobre tendão, embora fosse o de Aquiles.

Aquiles, o mais belo, robusto e valente herói grego. Seu pai, Peleu - rei da Riótida e sua mãe,Tétis, aquela que mergulhou seu corpo nas águas do rio Estige, pendurado pelo calcanhar, em busca da imortalidade. Esse pequeno detalhe que passou desapercebido pela zelosa mamãe, o deixou vulnerável. Páris o feriu mortalmente com seu arco, enquanto Aquiles desfilava elegantemente, certo de sua invencibilidade. Caiu morto numa dor profunda, vítima da fragilidade ignorada.

O que essa lenda mostra é certo: Todos temos nosso calcanhar de Aquiles, embora nem sempre o saibamos qual seja. Um dia alguém vem e nos acerta.

Mas volto a falar do tema dor estendendo-me ao englobante conceito, pedindo desculpas desde já por minha compulsividade. É que escrever é um processo onde cada um deve ou não, pode ou não se identificar. Assim, para os que não se interessam, para os que não pensaram na própria dor, para os que não se importam com a dor alheia, nem com a minha, nem a do Aquiles, sugiro que mudem de tema ou de texto. Pretendo continuar neste até que ela se esclareça de vez. Pode lhe ser útil.

Dor segundo o Wikipédia é resultante de:
1. Variações mecânicas ou térmicas que ativam diretamente as terminações nervosas ou receptores.
2. Fatores químicos libertados na área da terminação nervosa. Estes incluem compostos presentes apenas em células íntegras, e que são libertados para o meio extra-celular aquando de lesões como os íons Potássio, ácidos.
3. Fatores libertados pelas células
inflamatórias como a bradicinina, a serotonina, a histamina e as enzimas proteóliticas.

Mas...como atribuir dor à alma? Alma...para alguns, psiquê, composta dualisticamente pelo sistema corpo-alma, independentes. Para outros, unidade substancial - parte integrante do ser...dependente, integrante, sinérgica, inseparável.

Vamos lá, se entender dualisticamente, pode doer a alma, mas não necessariamente o corpo...
Se entender unidade, dói tudo.

Mas, Cartésio diria...SEPARA! E então, eu corro, maquinalmente...respondo ao meu próprio corpo que sorri, faz ginástica, dança.
A alma, responde: piso em falso, em desequilíbrio, rompo meus ligamentos, e choro por uma dor no pé.
A cabeça, parte outra extrema não ignora e reclama da dor que dói mais e volta sistematicamente a teoria de que não dá: dor é dor e dói - tudo.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Volver

De Bruno Vaks

Estou me especializando em começar a pensar muito quando corro. Não sou medico, muito menos cientista ou geneticista para entender o que passa com a cabeça. Excesso de sangue no cérebro, estomago chacoalhado, pernas em movimento, umas das milhares de “inas” trabalhando. O fato é que me veio um assunto interessante que muitos deixam de exercer, porque trazem saudades, malefícios do sentimento que fica preso com garras sobre nossas entranhas.

Para falar a verdade, não chega a ser um assunto, muito menos uma questão. O que me instiga e me questionou ontem por cerca de trinta minutos pois o verbo “voltar”. Deswcobri uma coisa sensacional a respeito. Eu devo ser uma das milhões de pessoas que não gosta desse verbo. Descobri correndo. Enquanto a ida me satisfaz plenamente, me faz alcançar o objetivo pré-definido, a volta é um martírio, uma chatice. Na ida, você quer desbravar coisas, utilizar todo o seu limite como pessoa, testar suas capacidades e tudo que tem direito. Na volta, acontece o contrario, você não desbrava nada, sabe que o ponto de chegada é igual ao ponto de partida e a única coisa que mudou foi o meio. E confesso, dá uma preguiça danada.

Olhem, que o exemplo dado foi somente da corrida. Ë desestimulante. Dá vontade de parar. Agora repassem para a volta de uma viagem. Se você não faz esforço, nem nada, já vem aquele dorzinha no estomago, chamada saudade. Imaginem fazendo esforço. A ida é uma alegria, excesso de expectativas, de vontades e de expressões diversas. É so reparar numa rodoviária ou aeroporto. O semblante das pessoas é tão diferente. Na ida todos felizes e calmos. Já na volta, aquela pontinha de saudade e a afobação para se sair do avião. Tudo para tentar levar a maximo aquela sensação mágica das férias ou do descanso. Por isso que todos ficam nervosos para saírem o mais rápido do avião e não ter que ficar amargurando aquele ultimo período de férias que está por acabar. A noite da chegada que é de reenconro acaba apaziguando a diferença de humor. Mas fique tranqüilo, que as recordações sempre serão bem vindas e ficarão presentes na memória e se não ficarem, ficam em fotos.

Mas ao mesmo tempo, que voltas são tristes, podem questionar que as voltas boas. Só me lembrei de uma ate agora. À volta de uma doença. A ida você não sente, e quando vê, já está enfurnado, sofrendo horrores, preocupando com sua vida. Quando você melhora, é um alivio e confesso, você vai esquecendo diariamente.

Uma outra, que pode ser tanto boa ou má, é uma volta num relacionamento. Se os dois estiverem feridos e acharem melhor que isso aconteça, parabéns!, fizeram a coisa certa. Mas que não seja uma volta forçada, por não terem encontrando o caminho correto para se reerguer e iniciar desse meio, outra “ida”. Essas voltas podem durar anos, passar por enumeras idas e voltas, ate chegar a famigerada volta, que muitas vezes terminar numa ida eterna. Ate o fim de nossos dias.

Nem sei quem tem opinião formada sobre isso, mas juntamente com os outros irei trabalhar para que a volta não seja uma coisa angustiante, traumática e sem vontade. Que a volta se torne uma ida menos leve, com desafios e aprendizados para que na próxima ida você tire de letra, a dificuldade perpetua da volta.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Eu e o Mar
por Aline Yasmin

Hoje eu acordei cedo. Vizinha ao mar, ainda que tivesse que muito a fazer, o céu azul me convidava e resistir me levaria à culpa. Lembrei-me de um amigo que disse ter estudado teogonia....e depois que precisava me ensinar a meditação dos 04 elementos. Eu pensei... Pensei nos quatro elementos e em mim, o quinto. Lembrei-me da sequência de Luc Besson, do futuro, dos olhos azuis da atriz e de um momento onde ela salta acrobaticamente. Senti inveja do seu salto. Salto livre como se o corpo fosse de seu total domínio - e de fato era.

No meu, somatizo – sem controle.

Ir a praia ao domingo pode não ser uma experiência transcendental. Um homem de meia-idade gritava a sua filha: " burra, idiota, com quase 15 anos e nem sabe passar um protetor"...olhei com olhar de espanto, enquanto interrompia minhas leituras sobre a cultura e filosofia..corpo branco, óculos grandes, 04 quilos a mais, biquíni preto e branco...cabelos loiros (essa parte destoava do resto)... respirei fundo quando o tema virou antropologia. Os seres humanos me impressionam pela distinção entre si.

Bem, sonho em ter uma multidão interessada no que os antigos pensavam e sempre acho que poderia ter uma platéia acompanhando o texto que tanto me interessa - sonhos peripatéticos, diria Aristóteles... Todos ali, reunidos na democrática ágora da praia pública. Delírios. A cena, clássica remontaria a Atenas ou ao hilário grupo britânico Monty Python numa leitura contemporânea. Infelizmente a filosofia empoeirou sob o olhar ignorante ou academicista dos nossos tempos. Filosofemos galera, ao meio-dia.

Ontem, a noite, me senti livre. Liberdade é estar sentada num mirante enquanto todos chegavam animados para sua festa no espaço vizinho (um clube tradicional)..eu ainda exibia orgulhosa meu pareô e um velho caderno onde ansiosa imprimia meus últimos pensamentos antes que escapassem mar adentro.

Interessante a racionalidade, mas o que me tirava do conteúdo era o perfume que passava. Perfume me desconcentra. Gosto de perfume bom. Bom é aquele que não foi feito por acaso..tem cuidado, essência e tudo que tem essência...tem substância, vem antes... Gosto de substare.

Bom e belo são dois conceitos perigosos. Sempre repenso quando uso esse tipo de argumento. Não tenho a menor pretensão em estabelecer parâmetros. Cada um que o faça - mas, por favor, faça...nada me incomoda mais do que não reconhecê-los, ainda que como diz o velho amigo maluco beleza: ..." eu prefiro ser aquela metamorfose ambulante" ..ocupo-me em revê-los se assim o quiser.

Volto-me ao aroma que me percorre...Tem dias que algumas obsessões me incomodam. Seria mesmo necessário fixar-me no mirante na tentativa de distinguir entre um perfume e outro? O olfato me rompe. Alimento-me do olhar. O alquimista do Patrick Suskind e seu Perfume me atordoaram por um bom tempo. Atordoam-me os sentidos. Atordoa-me a beleza, o gosto, o medo, a água que molha - gelada - meus pés.

A razão me apavora. Não tenho como fugir dela.

Ainda que me atravessem todos os aromas do mundo, ainda que devore o mundo com o olhar, ainda que minhas mãos sejam plenas...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Em terra de cego, o cego sou eu
Por Aline Yasmin

Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? (...) É janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento (...) Ó admirável necessidade! Quem acreditaria que um espaço tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo? (...) O espírito do pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si. (Leonardo da Vinci )


Há cerca de 10 anos descobri em uma dinâmica que eu era um ser visual e verbal, isto quer dizer que eu me orientava basicamente por essas indicações e ficava mais atenta ao que via e falava. Isso se tornou um grande referencial em minhas perspectivas cognitivas.


Pensei que o melhor seria desenvolver as demais possibilidades, o tenho feito desde então numa tentativa de me tornar mais inteira. Era também preciso ouvir. Com os olhos e a boca lacrados.

Por mim e pelo outro.


Nesse tempo eu dei um salto. Não sou mais tão dependente visual e foi aí que me vi diante do universo dos cegos, eu – vidente, mas deficiente de tantas outras formas.


O portal era alto, mas a estética não importava ali - ainda que me chamasse atenção. Entrei pela primeira vez tateando aquele universo claro e escuro. Sem dúvida, o desafio de penetrar no mundo dos deficientes visuais se mostrou instigante, mas um ser tão visual como eu teria que reaprender a não sê-lo diante mais uma vez da necessidade em superar esse caminho tão fácil e irremediavelmente enganador.

Logo na entrada fui recebida pelo zelador que me abraçou afetuosamente chamando-me por outro nome que não era o meu. Mas, justamente ao me abraçar, desconfortou-se e percebeu seu engano. Disse que eu "parecia" uma velha amiga da escola e ter percebido em minha presença, no meu andar, na minha fala uma pessoa que há tempos não encontrava. No meu desconforto, senti-me ao mesmo tempo confortável. Considerando que ali, somos tudo menos aparência, agradeci pelo aparente desencontro e já me vi, de cara, recebida.

Teorizei claro sobre termos a mesma "energia" o que ele concordou.
Na sequência fui recebida por uma vidente - aquela que vê - e tentei durante a conversa ensaiar um discurso filosófico sobre a importância da visão no processo do conhecimento. Estava ali inclusive por uma missão acadêmica.
Ela me respondeu que para começarmos era importante perceber que antes de sua deficiência, estávamos diante de seres humanos, com suas condições específicas, de realidades distintas, de histórias próprias e por isso a forma como lida com a sua cegueira. Alguns nasceram com ela, outras a perderam - crianças, adultos, idosos. Vidas distintas unidas apenas pelo censo comum. Em 2000, existiam 148 mil pessoas cegas no Brasil.


Percebi na minha primeira fala que fazia exatamente o que a maioria das pessoas faz: enquadrei um ser humano em cego x vidente, preto x branco, rico x pobre, criança x adulto, quase sempre em dualidades – antagônicas ou distintivas. Bem, claro que realidades trazem em si especificidades do conjunto, da comuna, do geral, mas numa perspectiva humana é sempre melhor ir um pouco mais fundo. Esforcemo-nos para pensar nisso.


Lembrei-me que fazemos parte de um grande ensaio hipotético. Consumimos resultados de pesquisas e somos estatísticas. Respondemos ao que pretensamente nos faz bem, visto sob determinado prisma "enquadrante". É impressionante questionar que se não fosse assim, tão cartesianamente pensado como seria então? Faz parte da sociedade adotar um convívio gregário, cujo instinto ilusório nos une ou separa perdendo, as características individuais para o grupo do qual pertence.


Entra na sala uma mocinha que espera para ser atendida. Ela não usa bengala. Observei que ainda tinha uma pouco da visão. A coordenadora sorriu e brincou com ela quando disse:
- Essa ainda não passou no teste.
Eu disse não ter entendido a brincadeira e a menina sorrindo explicou:
"- Eu sei que me tornarei cega em pouco tempo, mas ainda não sou. Tenho uma doença degenerativa que apareceu na infância e não tem como controlar. Em breve farei parte do time, mas ainda não passei no teste como verdadeiramente cega."
Disse como se estivesse serena diante da possibilidade. Seus amigos estariam ali de braços abertos quando a escuridão finalmente se anunciasse e ela então faria parte daquele grupo, numa clara inversão dos valores que comumente aplicaríamos diante de tal situação.


Na sequência, entra um belo jovem de bengala (simbolicamente um objeto de apoio e aceitação da condição) acompanhado de uma jovem graciosa aparentemente da mesma idade. Eles estavam de mãos dadas e sorriam. A coordenadora brincou sobre o namoro e pediu juízo. Eles se uniram a outra jovem com baixa visão e observados ao longe eram apenas três jovens, que sorriam, amavam, compartilhavam histórias.


Eram humanos sobretudo.


É óbvio que não quero dizer que não existe uma distância sobre essa e outra – dentre de uma possível realidade. Mas, penso que a maior distância é a que colocamos diante do que nos parece diferente. Nada entendemos sobre esse universo, se não for por ligação ou interesse pessoal. E diante dele colocamos uma aura, um escudo, um bloqueio.

Buscamos a normalidade “aparente” das pessoas e das coisas como um refúgio, talvez como forma de não estarmos próximos do próprio drama do outro. Talvez como forma de não vivê-lo. Tornamos invisíveis o que não queremos ver. Ou o que fere nossas vistas.


Naquele espaço, deparei-me com o inventivo braille, entendi outras linguagens, como a importância do olfato, do tato, do afeto como sinais a que tão pouco nos reportamos. Percebi que podemos ser mais. Que a velha frase ”O que os olhos não vêem o coração não sente” deveria ser posta em desuso.

Precisamos olhar mais com o coração. Abandonar a imprecisão do valor estético visual e encontrar outros contornos. Perceber o invisível, tatear o outro, ouvir seu pulso – aquele que chama e pede para ser ouvido.
Negar outros sentidos e o que está internalizado como conhecimento próprio - individual é negar o outro. É viver em ilusões como se o mundo pudesse ser plenamente abarcado apenas por cores e luz. Cego num mundo onde as aparências nos faz ignorantes, tal qual afirmou no consagrado Mito da Caverna, o filósofo grego Platão.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Um conceito sobre Tim

De Bruno Vaks


Todo diretor de cinema tem seu método de trabalho e tem suas características que marcam suas historias. Não digo historia pessoal, mas a historia de seus trabalhos. É sabido que David Lynch tem em seus filmes conceitos inquestionáveis de desentendimento. Explico melhor, toda vez que assisto a um novo filme dele, saio mais confuso do que antes de assistir. Acho que seus filmes tem um milhão de possibilidades, uma perfeita analise combinatória de difusas idéias. Já Stanley Kubrick preza pela estranheza e pelo fato que seus filmes incomodam de alguma maneira.

Ainda tem um punhado de “gênios” por ai que não irei citar. Cada um com sua forma de realizar um trabalho. Para alguns críticos incomoda o fato de eles não quererem se reinventar, criar coisas novas, ousar. Mas se o time está bom porque mudar? Outros muitos se indagam. Chego nessa questão cruel que ambos se perguntam. Apesar dessas circunstancias, pude chegar num patamar interessante sobre o trabalho de Tim Burton. Conhecida figura emblemática do mundo hollywoodiano, confesso que a cada filme que vejo dirigido por ele, gosto mais de sua pessoa.

Alguém vai logo, dizer, que o filme do Batman dirigido por ele é horroroso. Concordo! Então falaremos dos outros. Desde que liguei o nome à obra (isso foi em Edward Mãos de Tesoura), me pego enfeitiçado pelos filmes. Ao mesmo tempo, me passam uma problemática sombria sobre a vida, com ferramentas tipicamente iluminadas. Explico melhor ainda, a musica que é uma marca registrada de seus projetos, são sempre tristes, soturnas, com uma melancolia latente. Seus personagens são sempre atormentados, tímidos, pálidos, sempre secundários na sociedade. Suas heroínas não são as mais famosas da escola, as mais lindas da cidade ou a preferida dos homens. São mulheres normais, cheias de sonhos que vêem na melancolia alheia, um modo sensível de se enxergar a vida. Pelos os olhos dos outros. Sempre o ser amado.

Por esses dias, vi a Noiva Cadáver. Filme desenho que ainda não tinha assistido e achei impressionante. A melancolia se misturou com uma alegria que vi em poucos desenhos. Um desenho feito para crianças transforma o relacionamento e o conto de fadas numa questão adulta. Sempre com vilões impagáveis, situações desconfortantes, personagens bem esquisitos e o Johnny Depp, presente em 11 de 10 filmes do diretor.

Não vou contar o final do filme, mas a intersecção de uma bela musica melancólica com cenas felizes fazem qualquer um ir dormir feliz, sabendo que a beleza humana, na verdade, não é sustentada sem um olhar tímido sobre a vida.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Exame Benigno em rede nacional

De Bruno Vaks

Aperto o botão para começar, checo o tênis, ajeito a meia e começo a trotar aumentando a velocidade para chegar num nível que agüente o ritmo. Com o fone plugado no aparelho de ultima geração, passo os canais até encontrar algo digno para minha corrida vespertina. Como estou a fim de correr. Paro num canal da TV a cabo onde passava um programa de entrevista americano muito famoso. O programa da Oprah.

Para aqueles que não conhecem (muito poucos acredito eu), esse programa de auditório fala de tudo. Tem sempre uma platéia linda de anônimas americanas beirando os 35 anos, discutindo os mais diferentes temas. O de hoje, para minha alegria (ou quem sabe tristeza), tratava da historia de um homem que iria fazer uma colonoscopia. Para aqueles que não sabem, esse exame é preventivo para a descoberta de câncer no colon. Muitas pessoas morrem deste câncer, muitas vezes letal. Não tenho estatísticas aqui comigo, que reflitam essa minha afirmação, mas me parece um caso sério e que deveria ser exposto sim a grande massa. Sendo a Oprah, uma enorme comunicadora de massa, é só juntar os pontos.

O fato em si que causou estranhamento foi todo o processo a ser desenrolado no programa. Algo impensável ate em um país de primeiro mundo. Primeiro a historia triste, do medo de se fazer esse exame. Caso não saibam, a colonoscopia consiste em um tubo mecânico/robótico que filma todo o colon e intestinos a procura de pólipos malignos que possam prejudicar o ser humano. Ele é introduzido pelo ânus da pessoa e de fora, olhando para uma telinha, o medico realiza o exame, tira pedaço para biopsia e por ai vai. Calma gente, isso tudo passou no programa de TV. Eu ainda não fiz ate o momento.

Pois bem, continuando no programa, mostra esse homem cujo irmão faleceu de câncer, tomando a decisão de fazer também o exame. Ate ai tudo bem. Aí que entra a idealização absurda desses programas de massa. Vemos o homem, arrumando a mala, se despedindo da família, com ar tenso, musica tensa ao fundo. De repente, corta para ele dentro de um avião indo para Nova York fazer o exame. Mostram a marca da companhia aérea e o avião aterrissando. Corta novamente e estamos num quarto belíssimo de hotel aonde o paciente irar repousar para o exame. Corta de novo (quanto corte!) e ele aparece com um vidro de laxante de 500 ml. Ele explica que tem que beber 100 ml a cada dez minutos. Nesse ínterim, quem liga? O medico da Oprah, perguntando como ele está, que ele é muito corajoso, que o pior já passou, Bla bla Bla! Surpreendente o medico ligando para o paciente e acalmando. Igualzinho aqui. A cena chega ao fim, com o homem reclamando que o intestino está preparando algo e para terminar, uma brincadeirinha ao lado da privada, onde ele diz:

-Essa será minha melhor amiga da noite.

Ate agora que saga. Mas ainda não chegou ao fim. No próximo bloco, vemos ele sendo sedado e a operação em si. Não passaram a hora que inserem o objeto no anus dele. O exame é um sucesso, a retirada de pólipos é realizada e o anuncio que o resultado fora negativo é recebido por uma salva de palmas pelos presentes no auditório com o sorriso mais branco e lindo do mundo.

E eu lá correndo, suando, nem sequer olhei há quantos tinha caminhado. Aquela cena me deixou extremamente intrigado com a medida utilizada pelo programa. Ao mesmo tempo de uma forma surreal, eles mostram um exame que tem que ser difundido pelas pessoas de menor renda e menor grau de instrução, como uma oportunidade da pessoa ir a outro estado conhecer a cidade, realizar o exame e aparecer na TV. Seus quinze minutos de fama e não precisa passar três meses confinado numa casa. Fico pensando se as pessoas vão achar que será assim o tratamento. Deveria ter uma legenda explicando que aquilo era meramente ilustrativo sendo utilizado somente pelas classes abastadas da sociedade.

Retomemos o caso para o Brasil, enquanto limpo suor da testa. Tirando meia dúzia de pessoas, o resto da população vai ter que enfrentar longas filas, esperar por um bom tempo, se desvencilhar da maquina burocrática. Depois disso tudo, fazer o exame quando o hospital realizar, senão por conta própria tem de procurar o hospital mais próximo, às vezes a centenas de quilômetros de sua casa para fazer. Ate á surgiu uma nova doença que não foi tratada, um acidente que poderia ser evitado, ou mesmo a falta de oportunidade, pois precisaram trabalhar do que cuidar de si.

Voltando o caso para a América, sai da esteira confiante que a grande parcela dos telespectadores saiu daquela segunda feira à noite, quando passa o programa, mas consciente do poder destrutivo que o câncer pode lhe fazer, e desmistificando o fato do exame ser uma negação a virilidade masculina. Sendo a coragem daquele homem que mostrou seu intestino para milhões de pessoas uma dádiva, mas ganhando um jabazinho para efetuar aquilo tudo. Daqui a pouco ele aparece na Ilha de Caras.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

para nós, os amaldiçoados

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

O Outro, Composição: Adriana Calcanhotto / Mário de Sá-Carneiro


Acordei pensando em Sintra, Portugal, nas ruínas de seu castelo anciente. Meus pés ainda se lembram das subidas e descidas de degraus infinitos, passando pela sua única entrada, uma porta pequenina de pedra. A caminhada era através de uma estrada estreita de terra batida até à escadaria à beira da parede. Cada degrau, só mais uma pedra, mas parte essencial do todo, como somos todos, indivíduos invisíveis, elos da sociedade. Do alto do Castelo dos Mouros há de se perder a respiração em êxtase pelo verde e o infinito—liberdade—um mundo belo à frente das retinas. Como toda ruína no alto de um morro, os dias gloriosos ficaram perdidos no tempo. Já não há paredes, os mosaicos decorativos nela, o teto.. Há só o esboço do sido. Um esboço de pé ainda para não esquecer e ser esquecido.

Recentemente assisti uma peça escocesa baseada em entrevistas verídicas sobre a atuação do batalhão do exército "Black Watch" na guerra do Iraque. Toda civilização tem suas guerras e eventualmente depara-se com a própria decadência. Como sempre em história, século após século, meninos viram homens antes do tempo, com armas na mão. No palco do teatro Saint Ann's Warehouse, em Brooklyn, NY, oito deles aprendem a lição, entre ondas de medo e coragem, morte e sonhos. O general da tropa confessa, "somos todos amaldiçoados, na escolha, na falta de opção carregada no sangue, herdada dos pais que herdaram dos avós, por isto viramos soldados." Estes meninos—homens não sabem a razão por estarem em meio de uma guerra (assim como os meninos-soldados filhos das favelas brasileiras). É tudo tradição. Os meninos-soldados não defendem o próprio território, invadem o próximo. Sentam sob o calor escaldante do Oriente Médio à espera de um outro menino, o menino-bomba.

Como artista, eu sou amaldiçoada também. Mais cedo ou mais tarde, seremos todos sacrificados. A minha arte não me defende e sim invade o espaço do outro e perturba o conforto alheio. O artista cria para se salvar, se curar e devolver ao ambiente um cidadão melhor.

Tenho tanta coisa linda pra falar, pra mostrar, há beleza em mim certamente. Entretanto, se tenho que falar do belo, não sei escrever. Escrevo mal. Esqueço. Quem escreve sabe. O artista quer tudo aquilo que não está terminado. Só o esboço lhe interessa. Um mundo belo é um mundo acabado. Há os poemas perfeitos que nascem aleatoriamente. São magníficos mas caem em esquecimento. Estes nascem no momento da ação que o inspira. Todo poeta já vivenciou estar distraído e ver o poema surgir do nada, ditado pela própria voz muda de dentro de si. Por estar distraído, o poeta ouve os versos, mas minutos depois não pode lembrá-los. Este poema é o poema belo. Todos os outros, são frutos do trabalho, do artista artesão, que trabalha na forma, no som, na linguagem, frutos de um ambiente imperfeito. O artista cria através do exercício da doação, da exposição. Não estão distraídos e assim podem se colocar na linha de fogo. Podem ser sacrificados. Revelar um mundo exterior imperfeito para transformá-lo pode ser crime. Revelar o mundo interior do homem, também.

Sim, nós, os artistas, como eles, os meninos soldados, somos amaldiçoados. Nós, os invisíveis, enxergamos este mundo em ruínas e queremos paz, queremos o verde infinito visto do alto do morro. Existirá enfim esta possibilidade, para nós, os amaldiçoados?

Por Simone Couto

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Um Belo Retrato

Por Simone Couto

É fácil retratar o corpo, transformá-lo em um belo retrato. Difícil é desenhar a alma do outro. Há de se ter permissão e raramente quando ela é concedida. Na maior parte do tempo, ao obtê-la, o artista não falha em se envolver e decifrar os mapas invisíveis da alma. Exige tempo e o desejo de abraçar o invisível, o não palpável, aquilo que não é obvio. Para desenhar a alma alheia, há se despir também, deixar para trás a couraça feita de velhos hábitos, de amores routineiros, causas passadas. O desconhecido assusta enquanto que o familiar conforta. Agora, quando o artista desisti e comete um ato falho, qual alma estará o artista traindo? A do outro ou a própria?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

42nd Street

Por Simone Couto

Estava a caminho do Fashion District em Mahattan à procura de fitas coloridas. No trem me perdi lendo sobre as chamas lambendo o Estado da Califórnia. O trem diminuiu a velocidade. Na próxima estação, a 42nd Street, eu desceria. Guardei o jornal lido pela metade. Trem quase inerte. Me levantei e caminhei rumo à porta. Um rapaz jovem sentado à minha frente me olhou. Olhar de surpresa e despontamento. Tinha um caderno e lápis na mão. Furtivamente, mirei o papel daquele estranho. Então a imagem rabiscada se traduziu em familiaridade. Vi meu rosto, meus cabelos soltos, meu perfil agudo. Era eu. Era eu ali. Clara. Ele me rabiscou três vezes. De frente, de lado. Aquele homem me desenhou e eu nem notei. Ando dispersa por estes dias, bem sei. Ele me notou quando eu mesma não me notava. Um dia me disseram ser eu uma musa inspiradora. Não era mas escolhi acreditar. Sempre se sofre desmedidamente quando enganado. Há enganos que escolhemos para agradar à alma vaidosa. São enganos feitos de temporaneidade. Como água que mais cedo ou mais tarde sempre evapora. Até esta manhã, de verdade, nunca servi de inspiração para ninguém. Para mim mesma, talvez, jamais para o outro. Comigo sou honesta. Breve. Dura. Ora me inspiro nos confusos labirintos que crio a todo tempo para ter alegria, ora na saudade e tristeza sem lógica, ambas tatuadas em minhas entranhas, ora nas minhas obsessões carnais e outras mais da alma. Mas hoje, hoje eu fui verdadeiramente uma musa. Ninguém me contou. Eu vi.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Dumbo NYC

Por Simone Couto

Dumbo is crepuscular—Bricks, dormant train tracks, graffiti—art crime on the walls. Inside of lofts, studios, we are under construction, so is Dumbo. But not today, not today, not today. I see the sunset—the rain getting closer and closer, bringing me the midnight blue sky. East Side Highway without traffic. Brooklyn Bridge without traffic. Latent. At this moment, no gorgeous model( they never smile) is being photographed. No movie is being filmed. Today, the streets belong to us, the wolves, always ready to devour the unknown. We are nameless. The river belongs to us, the underground lovers (nameless still. Still). The river is quiet, the sage green river... Tedious Wednesday. The trains never stop running—neighborhood's heart. Dumbo is loud, so loud that one becomes quiet in his core. My core is all silence. Right now, 5:19 p.m., dark autumn skies. My gloomy soul rests while Dumbo pulses. Good Night, restless souls.

domingo, 21 de outubro de 2007

Tropa e Elite

Por Aline Yasmin


Dois assuntos têm permeado a massa nos últimos dias e mesmo que distintos ambos perpassam a mesma temática: a violência.

Um gira em torno do filme Tropa de Elite do diretor José Padilha e o outro, de um artigo do apresentador Luciano Huck sobre o assalto sofrido.

Num olhar mais aprofundado podemos destacar que a discussão é o que emerge de uma situação ainda mais complexa que é a desigualdade social e suas representatividades.

Simultaneamente temos a palavra "elite" posta em dois planos antagônicos. De um lado, heróico, de outro culpado. A questão aqui não é julgar e tampouco condenar um ao outro, mas provocar uma reflexão sobre a medida de valores em que a sociedade se interpela.

Somos todos reféns. Talvez esse seja um fato. Ricos ou pobres. Estamos reféns de nossos próprios valores e da distorção a que estamos expostos.

O batalhão do BOPE – polícia de elite – é mocinho, mas utiliza-se de meios ainda mais violentos para reduzir a violência – física e moral, inseridas inclusive na própria estrutura institucional. A população aplaude em sua maioria, as crianças cantam suas musiquinhas ..." pega um, pega geral..." em coro e a estética cinematográfica é "cult", quase digna de indicação ao Oscar.


A elite do mauricinho é alienada e opressora, ícone da desigualdade. O bandido é a vítima. Não estamos propondo cultuar o malfadado objeto Rolex, nem dar voz ao excessivo valor material da massacrante sociedade de consumo da qual também somos reféns – obviamente referenciais do desnível social e muito menos em menos tirar o êxito da "exemplar" corporação.


A reflexão é sobre o que está sendo discutido e o que estamos cultuando enquanto valores referenciais que passam a justificar os meios pelos fins. Talvez seja propor um pensamento onde a tendência não seja balizar-se na dualidade maniqueísta separando realidades entre o bem e o mal, mas um pensamento onde haja matizes, nuances que possibilitem isolar condutas e não simplesmente entrar no jogo cartesiano de enxergar as extremidades num plano meramente linear.


Nem toda classe média financia o tráfico, nem todo rico é alienado, nem todo pobre é ladrão, nem todo ladrão é vítima – ou o contrário. Separar o jogo do trigo não é estabelecer paradigmas libertadores ou dogmáticos.


É necessário estabelecer uma crítica, ao invés de procurarmos bandidos ou mocinhos. É necessário – sim - formarmos massa pensante, consciência crítica para buscarmos juntos, um diálogo: pobres, ricos, aviltados, violentados e violentos – uma nova elite – tropa social desalienada – da matéria e de discursos viciados.

sábado, 20 de outubro de 2007

Brasil, il, il, il

De Bruno Vaks

Está bom. Todos sabem que futebol é coisa para entendido, mas todo mundo dá pitaco. Até os mais desinformados. Escrevo assim para não ganhar nenhuma ofensa vinda dos meus três leitores (Obrigado Sim e Aya, o outro ainda é desconhecido). Mas o fato é que quero dissertar – esse é o verbo – sobre o jogo do Brasil que ocorreu ontem (dia 17/10) no Maracanã. Após sete anos de televisão, a equipe milionária brasileira veio fazer um espetáculo aqui no Rio.

Tenho que dar parabéns à ordem e a civilidade, menos no Metro, diga-se de passagem, que encontrei ao longo das 3 horas que passei por lá. Tirando a goleada e as jogadas bonitas, posso garantir que foi um jogo para lá de burocrático. Muitos erros, muitas afobações, muitas bolas perdidas, mas esse não é o fato que irá preencher essa crônica hoje. Não as jogadas, os dribles e os gols, mas sim ao que eu chamo de hipocrisia do brasileiro.

Também não vou citar nenhum filosofo francês ou alemão para repetir suas palavras sobre o ambiente, mas vou evocar a extensa cultura carioca de ser, que cultivamos há anos e anos. Achei chôxo (se escreve assim?), sem sal e um pouco desanimado o jogo da “família brasileira” como muitos falaram. Já reparou que ninguém fica gritando Brasil, Brasil o tempo inteiro? Quando uma bola batia na trave cantava-se Brasil duas vezes, e todos calados novamente. Enquanto isso um lado da arquibancada começa a cantar gritos de guerra do Flamengo enquanto o outro lado grita hinos do Vasco. Ora se é um jogo nacional, porque cargas d’agua a mesma torcida fica se provocando? Hipocrisia um.

Outro fator que não me comove é esse sentimento falso de patriotismo exacerbado. Explico, calma. Confesso que até hoje me emociono com o hino brasileiro por suas palavras bonitas e complicadas que muitos que o cantam enrolam-se com palavras imaginárias ou enrolam até chegar no refrão. Eu já fui um desses e até hoje cometo gafes. Mas não consigo cantar de jeito nenhum aquela cantiga criada por algum publicitário como eu, dizendo: Eu sou brasileeeiiiro, com muito orgulho, com muito amor. É intragável. Concordo que muito amor tenho pelo Brasil, agora dizer que sou orgulhoso é omitir tudo que se passa nesse país e com a sucessão de acontecimentos que vamos deixando para trás. Orgulho de ter um país corrupto, ingrato e com desigualdade social? Peraí, essa é uma hipocrisia camuflada que todos cantarolaram sem um mínimo de culpa, por isso essa é a dois.

Mas como todos, acredito eu, me divirto com os comentários que escuto de outros torcedores, vindos do lado, da frente e de trás. Preste atenção, tem tanto comediante que é capaz de você passar o jogo inteiro rindo. Claro, se o seu time estiver ganhando. Mas chega a ser engraçado que mesmo depois de execrar o tal jogador, quando ele faz gol continuam falando mal e às vezes o fazem por puro orgulho. Orgulho de ser brasileiro como dizia a musica? O que não consigo entender é a relação de amor e ódio que as pessoas tem em relação a alguns jogadores. Como aos dez minutos do primeiro tempo você pode odiar o tal jogador pedindo a cabeça dele, da mãe e do papagaio e aos doze minutos quando ele mete um gol você declama poemas e juras de amor ao mesmo cabeça de bagre que você xingou? Isso me cheira a mentirinha do tempo da escola para esconder da professora porque você chegou atrasado do recreio. Não consigo achar outra palavra a não ser hipocrisia o que ocorre. Está ai a numero três.

Vocês devem estar pensando que vou enumerar ate dez, as melhores hipocrisias cariocas num jogo de futebol. Não vou não. Três está de bom tamanho. Isso tudo foi escrito até agora para que eu possa demonstrar a tamanha felicidade em dizer em bom e alto tom que a musica que foi mais comemorada no jogo do Brasil, tirando a comemoração do gol com a jogada fantástica do Robinho, foi a musica para o Galvão Bueno. Acho que nunca num estádio, vi tanta gente pulando de alegria e satisfação num grito de guerra que manda o locutor mais odiado e amado da Globo tomar naquele lugar. Os pulos de felicidade aí sim eram legítimos. A rapidez com que a musica fluiu também foi assustador. Queria eu estar na cabine para ver a cara do sujeito. Isso sim é a irreverência carioca, isso sim mostra a cara do povo e daquilo que ele não quer. Isso sim não é nada hipócrita.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Santa Teresa por ele

Por Simone Couto

Homem não chora. Quem chora é ela, Santa Teresa. Eu vi. Chorou minutos antes de você chegar.

Eu me arrumei todo. Olha que não sou de vaidade. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria te encontrar com a cara limpa. Não coloquei brilhantina no cabelo, não usei meu terno branco. Aparei de leve a barba. Me enchi de esperança.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a consulta das 11:00 horas com o dentista, despachei a empregada e dei-lhe uma gorjeta generosa. Desci e fui até a esquina. Comprei um maço de cigarros. De volta à casa, dispus o pacote e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

“A primavera é uma dama tímida”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar escassas flores de um rosa pálido nos galhos das árvores. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Fui generoso novamente na segunda gorjeta do dia.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro, o mesmo de meses antes, onde nos apoiamos entre uma banda carnavalesca e um beijo perdido na multidão. 19:20, ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Acendi um cigarro.

Teresa chorando você não viu assim como a minha alegria desfalecendo. O porvir foi assim, eu te conto: dose de cachaça descendo quente pela garganta, o pandeiro tocando desafinado, "você manhã de tudo meu, você que cedo entardeceu, Você de quem a vida eu sou, E sem mais eu serei... Você um beijo bom de sal, você de cada tarde vã, Virá sorrindo, de manhã..."

O músico passou o chapéu. Desta vez fui miserável. Paguei a conta. Caminhei rua abaixo por entre os trilhos. Matutei com os meus botões, ô mulher ingrata. Vá pro diabo que te carregue.

Santa Teresa Por ela


Por Simone Couto

Eu chorei você não viu. Também não compreenderia.

Eu me aprontei toda. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria te encontrar como realmente sou. Não prendi meus cabelos, não usei batom vermelho. Me preenchi de coragem.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a reunião das 11:00 horas com um cliente, liberei a empregada. Fui até a esquina. Comprei um ramalhete de dálias alaranjadas. De volta à casa, dispus uma por uma no vaso e o coloquei na mesa ao lado da cama. As dálias dividiram em harmonia o espaço com a edição antiga de Madame Bovary. Antes de tomar um banho e me preparar, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, por favor informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

O mar é traiçoeiro, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar árvores crescendo em solo frágil. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Paguei o que devia. Desci.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro, o mesmo de meses antes, onde nos apoiamos entre uma banda carnavalesca e um beijo perdido na multidão. 19:20. ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Quis acender um cigarro mas não tinha fósforo.

Meu choro você não ouviu. Derramei umas poucas lágrimas. O porvir foi assim, eu te conto: Sentei-me no meio-fio, tirei um livro de Freud de dentro da bolsa. O abri em uma página qualquer. Li: Quando amam não desejam; e quando desejam, não podem amar. (Cap. IV, II,2).

Meses sem noticias e agora ele quer me ver? Desci a ladeira caminhando com passos tortos por entre os trilhos. Todo caso de amor fulminante, mais cedo ou mais tarde passa, suspirei aliviada. Cinzas, só as da quarta-feira.


domingo, 14 de outubro de 2007

Os Iluminados Efêmeros do Soleil
(dedicado especialmente à atriz Juliana Carneiro da Cunha)

Por Aline Yasmin


Depois do espetáculo eu e Caê – embora exaustos – não conseguíamos dormir e ainda que precisássemos acordar cedo para o primeiro vôo, procuramos um canto onde pudéssemos transbordar todos os pensamentos que nos contornavam. Estávamos embebidos de imagens e referências pessoais. Era preciso falar delas.

O ir e vir mental foi um deslocamento inevitável até aqueles instantes onde tudo nos pareceu sublime. Sublime no sentido dor. O belo e o sublime se divergem nesse sentido – e o último nos parece mais tocante. Talvez pudesse dizer que seja uma superação. É mais.

Os efêmeros estavam em todos os lugares. Não há como ignorar (plagiando a grande diretora Ariane Mnouchkine) também a sua platéia. Notáveis e anônimos que se viveram durante longo tempo, compartilhando sentimentos e olhares, tais quais cúmplices desta história – fomos uma massa entrelaçada e orquestrada magistralmente pelos iluminados atores do Soleil. Também fomos efêmeros. Choramos e rimos juntos – fomos únicos e não somos mais. Fomos conjunto cena – platéia – arquibancadas – aromas - texturas - sabores - água.

O espetáculo é tudo. Impressiona-me não somente as personagens e histórias construídas, mas a concisão de tudo que nos circunda. Impressiona-me o ator que limpa o chão com a mesma dignidade com que entra em cena, o olhar daqueles que movem as estruturas - quase como extensão cenográfica (mas ao mesmo tempo absolutamente incógnitos), a atenção do grande regente a cada gesto, a sincronicidade das cenas, a leveza e a densidade e o virtuoso processo – que mais podemos chamar de generoso – em nos proporcionar o contato mais profundo com o que chamamos humano. Fomos Humanos aos nos depararmos com a fragilidade do que somos, ao tocarmos de perto fragmentos de nossas vidas. Nos identificamos ao certo com tantos e é isso que universaliza nossa particularidade: a solidão, a fome, a espera, o desejo e a memória.

O vôo chegou na hora prevista em Vitória. Ao chegar em casa, dormi. Sonhei com Os Efêmeros. Os frequentei tanto quanto os fizeram em mim. Revisitei palavras – em francês, língua adormecida que sorvi como o delicioso iogurte - dialoguei com alguns e a outros acariciei. Compreendi a imensidão de nossa finitude e que para ela nem precisariam palavras. Bastaria a dignidade de Sandra, a busca de Jeanne, o altruismo de Manon, a superação de Gaëlle, o olhar da Perle e o gesto da Nelly, diante de tantos outros gestos como linguagem e significação – sinais de nossa vã existência – sem os quais nada representaria.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CARTA ENTRE AMIGOS
por Aline Yasmin

... Ontem engoli água do mar... foi bom. Por mais engasgante que tenha sido, foi bom. Revivi sensações de moleque quando eu me jogava no mar e acabava engolindo muita água, muitos caldos... tenho revivido sensações de adolescência de infância. Acho que sou mais feliz hoje do que sempre fui. Eu quando moleque achava o mundo muito estranho. Hoje, acho-o mais estranho ainda, mas aprendi a amar essa esquisitice. Porém, minhas sensações mais profundas, que partem de cheiros e gostos, seja da chuva na grama, seja a amora da árvore, me remetem a sensações muito puras, porém, já sentidas... Aí eu tenho a impressão carnal de que já vivi todas as novidades sentimentais possíveis. Apesar de me sentir num momento incrível de relação com a pulsão do existir, tenho a impressão de que as coisas sentidas, já foram sentidas... Aí li um conto meu escrito há algum tempo e lá, um personagem expressa uma sensação minha: as nossas sensações de adultos, são reverberações das sensações vividas na infância e na adolescência ou há muita novidade de sensações??? Talvez ter filho (como você teve) traga novas sensações. É isso?

A meu amigo sobre sensações

Sabe, o filósofo grego Platão - de quem ultimamente tenho gostado muito, diria que existem as reminiscências - na verdade, idéias inatas que o homem contemplou em contato com os deuses. São lembranças de uma outra vida que o homem traz a tona em contato com a percepção das coisas. Depois disso tudo seria falso - ou apenas cópias do ideal (idéias perfeitas) e estamos falando do que imaginamos ser a vida real.
Existe também, creio eu, a perspectiva de que estamos em permanente construção. Claro que a significação de um caldo mudou, porque o mar também mudou pra vc. Nós mudamos para o mundo e isso faz com que o mundo mude também e o que parecia esquisitice, se tornou seu domínio. Vc o percebe e é maior do que ele, porque agora pode aceitar ou negar, gostar ou não. Essa parte é muito importante. Isso muda o nosso olhar. Não temos como rejeitar o fato de que somos únicos e que o sentimento é altamente subjetivo - quer dizer, quem determina é o sujeito na sua relação com o tempo e o espaço. Essa sensação pode não ser a mesma sempre. Um caldo, um cheiro, um prazer específico ou uma dor podem assumir dimensões ou intensidades absolutamente diversas no decorrer da nossa vida. Creio que o que determina é o momento vivido. Um filho pode ser recebido de forma distinta do outro. Comprar um objeto desejado pode ser para alguém o mesmo sentido de ter um filho - não em valor (claro!), mas em ter alcançado algo que gostaria muito. Pode ser que um filho seja ruim, uma notícia negativa para alguns a ponto de desejar matá-lo (como temos visto na mídia). Enfim, não dá para prever o que seja realmente novo enquanto sensação. Pode-se inclusive nos revelar algo a que convivíamos sem perceber, até estarmos propensos a esse despertar. E aí, tudo novo de novo....como diz o grande poeta Paulinho Moska.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sobre os Filhos e as Pedras

Por Simone Silveira

Criar filho é semelhante ao ato de jogar a pedra na água no intuito de fazê-la derrapar, ou na melhor da hipótese, saltar graciosamente na superfície cristalina afim de que conquiste o infinito.

A pedra é escolhida ao acaso, pois elas estão lá soltas no mundo—rua, beira do rio, floresta. Mundo este que não existe até que nos damos conta dele. Agora, o mundo uma vez formado, nos presenteia com seus elementos minerais, diria mesmo ancestrais. É preciso que admiremos a grandeza da sua extensa existência. Assim, é possível tratá-lo com maior dignidade, já que, nos últimos tempos, temos coniventemente ignorado sua fragilidade e contribuído para a sua devastação.

Entre tantas pedras, há de se escolher uma com a forma plana e de preferência, arredondada. Há sempre a dúvida cruel se a eleita entre tantas é perfeita o suficiente para o jogo. Neste caso, e em quase todos na vida, uma escolha, é realmente a falta de escolha, pois já nos acostumamos a carregar no peito e na cabeça, idéias pré-definidas. Assim se passa quando se tem um filho. Bem no fundo, na hora do nascimento, a dor latente, a bacia dilatando, não importa ser a criança homem ou mulher. É imprescindível que seja saudável. Somos todos animais. Muitas mulheres como eu, dividem a mesma experiência de contar os dedos dos pés e das mãos do bebê nos primeiros segundos de vida dele. Essencial mesmo é que ele nasça. Ponto. Conheço quem pariu uma criança morta. Esta dor eu jamais desejo ao meu semelhante. Conheço uma mulher que pariu um filho doente. Ela é o meu melhor exemplo de mãe—paciência infinita, dedicação integral sem espera de retorno, amor incondicional.

Uma vez a pedra na mão, as outras deixam de existir, assim também se passa com os filhos. Quando miramos a sua fisionomia pela primeira vez, é como se já o conhecêssemos por toda a eternidade. Não há esforço. Esta familiaridade é instinto. Depois do reconhecimento, é hora de estudar a melhor forma de jogá-la na água para que salte em intervalos regulares. O intuito é que ela vá longe, muito longe. O corpo e as mãos se curvam em um ângulo específico, afim de que ao lançar a pedra, ela perfure o ar rodopiando em círculos magistrais, seguidos de um arco perfeito rumo à água. Sem quase tocar a superfície e vencendo a tendência natural de submergir-se, a pedra finalmente derrapa harmoniosamente sobre ela. Esta arte, aparentemente tão simples é como a arte de se criar um filho. Sua complexidade vem com a primeira febre, a primeira briga na escola, o primeiro palavrão, a primeira dor, o primeiro amor e outros primeiros que nos pegam despreparados e nos põem tão confusos como nossos filhos. Bem no fundo, somos todos marinheiros de primeira viagem, inclusive aqueles, como eu, que se julgam frutos de uma geração esclarecida —tudo pelo diálogo, e que defendem o conceito de ser a criança dotada de direitos e deveres como qualquer outro indivíduo. Na hora do aperto, há de se consultar os livros. To Listen to a Child, do Doutor Brazeton tem sido de suma importância como outros dele. A sogra também é elixir com toda a sua experiência de vida. As vizinhas, e até o porteiro tem o seu lugar nesta difícil arte.

Maternidade é certamente um ato natural, assim como muitos, por exemplo, comer de garfo e faca, porém é necessário a aprendizagem. Amamentar talvez tenha sido uma das mais doloridas, fisicamente e emocionalmente, nos meus primeiros meses como mãe. Tudo estava errado. Meu filho berrava. Era fome lhe corroendo o pequenino estômago. Eu me olhava no espelho, seios feridos, tanto sacrifício, qual era o problema? Eu era insistente no meu desejo, agüentava a dor da ferida aberta e os berros desesperados do meu primogênito. Três semanas e nada, a ferida crescia enquanto ele emagrecia. Ninguém me contou como segurar o bebê e dar-lhe o peito. Muita coisa a gente aprende na marra porque nossas mães “esqueceram.” Os vídeos nas aulas de preparação ao parto não é mão na massa. O boneco demonstrativo na aula de Lamaze está longe da realidade de uma criança de carne e osso e esfomiada nos braços. Enfim, sejamos modernas e sem preconceitos. Contratei uma consultora em amamentação e em poucas horas o problema foi resolvido. Me senti realizada como qualquer outro mamífero. Estava alimentando a cria.

Esta crônica era mesmo pra falar de toda a minha incerteza no meu papel de mãe (quem é mãe sabe, nunca sabemos se estamos fazendo a coisa certa... quem é filho também tem lá as suas dúvidas). Depois destas linhas e milhões de cenas rebobinadas na memória consigo derramar as minhas inseguranças e pouco reclamo dos meus filhos. Ela deveria ter começado assim: “Meus filhos até o dia de hoje competem com aqueles que me chamam pelo telefone.” O texto tomou rumo novo, voilà.

Inspiração nasceu de um telefonema pra mim do meu pai. A conversa durou pouco. Meus filhos, sempre educados em todas as outras circunstâncias, menos esta, cortou a minha conversa ao telefone com seus berros, chantagens e apelos. “As crianças no Brasil não são assim não, a gente fala no telefone sem problemas, elas se viram pra lá. Vocês também não foram assim não,” completou meu pai, certo que a nossa cultura brasileira permanece a mesma há várias décadas. Na hora respondi meio que justificando os gritos das crianças, “sabe como é, pai, aqui a gente cria filho muito só, eles se tornam muito dependentes da gente. Por isto não conseguem dividir a mãe,” disse eu, pensando mesmo nas empregadas brasileiras que tomam conta de tudo, que maravilha.

Pela noite me arrependi. Sou uma mãe que escolheu ter um papel ativo na educação de seus filhos. Tudo tem o seu preço. Há de chegar o dia quando poderei entrar no banheiro e curtir minha privacidade sem o receio de ser interrompida, ou telefonar a um amigo e ficar de papo pro ar. Tento lembrar do meu regresso ao trabalho e já posso sair pra jantar ou viajar uma vez ou outra sem que se sintam abandonados. São crianças felizes e seguras. Há um o tempo particular no amadurecimento de cada um. Há de ser ter paciência, eu repito para mim mesma, não posso esquecer. Assim como as pedras jogadas com precisão, a liberdade acontece a cada pulo.



Victor e Henry vendo a chuvar cair no pátio do Cloisters, NYC, 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O ato de roubar um beijo

De Bruno Vaks

Já começo esta crônica com um assunto que vai dividir, provavelmente, aqueles que se dispuseram a pensar, ler e relevar o ato em si. Afinal de contas, quase cem por cento das pessoas que poderia perguntar, levaria a palavra ao pé da letra e falaria que ela é da pior estirpe. Ou seja, todo o ato de roubar é ruim.

Não necessariamente. Estamos acostumados a ler todos os dias nos jornais e revistas, que fulano roubou sicrano, que “x” roubou um banco, que “y e z” roubaram pedestres na rua e por aí vai. Consequentemente essa palavra virou sinônimo de coisa ruim. Ora, como muitas vezes vou contra a maré, digo que roubo pode ser um ato bom.

O que? Vocês devem se perguntar. O cara enlouqueceu – dizem outros – nem vou continuar a ler....

No campo do amor há algo de se roubar que é muito bom. Os mais afoitos pensariam logo em roubar namorados. Que, grande parte das vezes é tomada à decisão pela incontrolável certeza que o outro ou a outra foi feito para você e não para aquele manezão/manezona com cara de otária(o) que anda, abraça e segura a mão da mulher/homem. Afirmo também, que por questões psíquicas e psicológicas, também não entendidas por mim, há aqueles que fazem isso somente pelo prazer de ter aquilo que o outro possui. Nem que seja por uma noite sequer. Ao passar dos anos essa questão vai se apaziguando e diminuindo, inversamente proporcional à abertura de ambientes e de mundos que o individuo descobre.

Roubar é um ato abominável e repulsivo. E roubar um beijo de alguém, o que é? Um ultraje, um insulto, uma sem-vergonhice como diria os mais velhos?

Vou dar a minha opinião sobre o assunto. Acredito que roubar um beijo é um ato de bravura, coragem e de risco, é claro. Não leve ao pé da letra achando que quem faz isso é igual ao beijoqueiro, que sai beijando todos e tudo nas ruas. Pense em você, nos momentos de tensão, do pré encontro com alguém, nos sonhos tanto sonhados dormindo e acordado sobre aquela pessoa que modificaria seu estado de espírito. Ah, a famosa ansiedade. A boca seca, o frio na barriga, o suor e, na pior das hipóteses, a gagueira ou a total falta de voz. Só pense.

OK. Quem nunca, enquanto conversava com alguém que saíra ou que estava flertando, se perdeu em pensamentos pensando em que momento ele a beijaria ou como ele iria beijá-la. Na sociedade judaico cristã ocidental que vivo, quase sempre é assim. Por isso um premio para aquelas que transgridem.

Numa roda de bebidas um dia desses, ouvi isso: “O ato de roubar um beijo” e confesso que achei sensacional.

- Quando ele ou ela menos espera - conscientemente, diga-se de passagem - você vai e smack! dizia o cara. Num primeiro instante o susto é que impera. A primeira reação será essa. Mas o que o susto libera, a sensação das bocas se tocando se sobrepõe e muitas vezes na seqüência há beijos e mais beijos. E aí meu caro, o resto é com você.

Também não posso deixar de falar, que há casos que o susto leva a uma sensação involuntária, como a repulsa imediata e se a pessoa se sentir ofendida com tamanho ato de invasão de privacidade, um tapa na cara será o que de pior acontecerá. Mas fique frio, em poucos dias o roxo se dissipa juntamente com o “não”simbólico que levou.

Já que a cabeça é um poço de idéias, ando pensando bastante em historias engraçadas de beijos roubados reais e imaginárias. Como o beijo roubado pode atenuar a ansiedade do casal ou, pelo menos de um deles. Lembrei de uma cena de um filme do Woody Allen, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, em que o protagonista busca a pretendente em casa para irem no cinema. Já sabe-se que os dois estão interessados em se beijar, mas fica aquela sensação esquisita e doutrinada de rolar o beijo somente ao entregá-la em casa. Mas a caminho do cinema, o homem vira para mulher e diz, algo como:

- “Não agüento mais. Nos dois sabemos que iremos nos beijar na porta de sua casa, para que ficar sofrendo de angustia esperando o momento do beijo se podemos fazer isso agora e curtir uma noite agradável?” Isso acontece e vemos os dois rindo adoidado numa daquelas típicas cafeterias americanas.

Então a minha opinião é a seguinte: sentindo uma possibilidade, não deixe de aproveitá-la e a surpreenda. No geral, você ganhará pontos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A vez de Inocência

Simone Silveira

Estava distraída quando tropeçou pela primeira e única vez. Inocência havia passado toda a manhã em uma repartição pública para renovar o documento de identificação pessoal.

Chegou às oito horas em ponto quando o funcionário abriu as portas e redirecionou os cidadãos para o guinche de atendimento ao público. A fila andava vagarosamente. A espera era interminável. Uns deixaram de trazer um documento importante, outros esqueceram de pagar a taxa bancária indicada no formulário de renovação. Finalmente era a vez de Inocência. Depois da entrega da papelada, sujou os dedos de tinta e lá deixou sua impressão digital. Foi direcionada à frente da câmera para que a foto lhe fosse tirada. Sorriu. Rabiscou o seu nome à direita do “x” no rodapé do documento e partiu.

No elevador pressionou o abdômen com as duas mãos cerradas. O estômago doía. Comprou jabuticabas de um ambulante nordestino. Encheu a boca delas enquanto corria para atravessar a extensa avenida Rio Branco. Na euforia, suas pernas se embolaram e Inocência tropeçou. No asfalto da avenida Rio Branco as frutas rolavam. O sinal abriu. Inocência tentava se firmar sobre os pés, já nem pensava nas jabuticabas muito menos na dor do estômago. A dor agora era no pé direito. Aguda. As buzinas dirigidas à ela por motoristas impacientes não facilitava a difícil tarefa de se completar a travessia.

Inocência sentiu-se tonta. A respiração se tornou ofegante, apressada. As mãos pingavam suor, um filete dele lhe descia `as costas. Um imenso desejo de não mover-se instalou-se. Os automóveis se aproximavam, passavam por ela. Inocência lá, à deriva, pensamento petrificado. O sinal fechava. O sinal abria. Inocência foi aos poucos perdendo o medo. Primeiramente, o medo da forma automobilística em avanço, depois o medo do som de pneus derrapando, depois dos gritos—Louca! Saí daí, maluca! Quer morrer?

Ela morria. Eles não sabiam. Fio de sangue fazia o seu caminho até o corte, pele rompida pelo osso exposto. O líquido escorria e se misturava com a poeira do asfalto. Ela morria. As jabuticabas não existiam mais. A pele enrugava, a boca rachava, nem os olhos ela abria. Ela morria. Inocência tentara cruzar a grande avenida Rio Branco, verdade maior. Ela havia feito a decisão. Teve a coragem dos loucos, dos santos, dos desvalidos. Os passantes entretanto se acostumaram com a presença em decadência de Inocência — plantada no meio do asfalto, ferida e secando, dia após dia.

Ela poderia ter feito o enorme esforço de atravessar a avenida, agora longa, interminável, apoiando todo o peso de seu corpo sobre o pé saudável. Ela poderia ter gritado alto por uma mão caridosa. Porém houvera o desejo brotando-lhe no peito tão inesperadamente como a fruta que rolara pelo asfalto quente. Ela queria abraçar a própria inércia afim de por à prova a inércia alheia. O outro, de pé no meio-fio, dentro do carro, no alto dos prédios, debruçado na janela, permanecera insensível à sua dor. Ela só precisava de provas. Agora, já as tinha.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Ao Ponto

De Simone Silveira

Sempre me impressiono com os que desejam e mesmo assim escolhem a segurança de um amanhã falido. O sujeito sabe que não é feliz, a Felicidade está esmurrando a porta, quase rouca pedindo para entrar, e nada. O Homem até encontra a coragem, coitado, depois de dias, de pegar a chave e colocá-la no orifício da fechadura. A mão treme e ele desiste. A Felicidade sabe da desistência. Ela sabe de tudo. "E aí, meu caro, abre logo esta porta pois seu tempo extenua-se," diz Felicidade. A porta continua cerrada. O Homem esquece que o tempo ainda lhe pertence. Não todo o tempo do mundo, mas o pouco que possui é elixir na palma da mão em concha. "Olá, e aí, que bom ouvir sua voz," diz o Homem. E só. Sim, ela espera um pouco mais do outro lado. Desiste. Não pede mais. Elixir escorrendo por entre os dedos do Homem. Felicidade sabe da fraqueza alheia. "Eu vou bem, um pouco cansada. Ao esperar, me torno pingo caindo de um conta-gotas sem intervalo até nada mais restar senão o vazio preenchido pelo ar, " diz ela. Agora muda, parte mesmo, afinal ela é o que é. Vai não sem antes pendurar uma nota breve e honesta: Felicidade não bate duas vezes `a porta do Homem de alma perdida.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pirataria pode?

De Bruno Vaks

Já esta ficando chato. Todo lugar que eu leio, todo o lugar que eu vou, tem alguma coisa relacionada ao filme que ainda não estreou. O já consagrado blockbuster brasileiro “Tropa de Elite”. Nunca vi coisa igual. Aqui ao meu lado, estão assistindo nesse momento. Meu pai se rendeu aos apelos uníssimos da rua Uruguaiana e trouxe um exemplar para casa. Todos já viram e comentam. Menos eu.

Daqui a pouco não vou conseguir nem olhar para o filme de tanta ojeriza que criei dele. Dizem que está muito bom, que as interpretações estão sensacionais. A polícia briga com os produtores por uma fatia de mercado. Os produtores brigam com os camelos que estão vendendo o filme pirata e por aí vai. Calorosas discussões tomaram corpo sobre a pirataria. Uns são contra, outros a favor. Outros são chamados de hipócritas. Outros de modernos, antenados e por aí vai.

Eu, nesse caso, estou no grupo dos hipócritas. Digo isso, não porque seja um, pelo contrario, mas na questão do filme, sim eu sou. Se agüentar, irei assistir somente no cinema, mês que vem. Não me renderei à pirataria. Vou lá e deixarei meu dinheirinho para a indústria e seus investidores. Ainda não consegui parametrizar o meu patriotismo cinematográfico, porque não tenho dó em baixar as mais diversas musicas da internet. Alias, nem me lembro quando comprei meu ultimo CD. E agora estou esbravejando contra a pirataria. Sou adepto do livre comercio dessas mercadorias. Escuta-se o som quanto quiser e o quinhão dos artistas viria de outras coisas, como aparições publicas, propaganda, shows, shows e shows

A música seria como um “comercial” do artista podendo ser “degustada” em show. O artista ganharia por ter sua obra vista ao vivo. Lá ele sentiria a emoção que o publico tende a sentir quando vai para esses eventos. No mais, tudo é valido, pois o que globalizou, já era.

Então aproveite que a maré está boa, se encha de conhecimento, já que o futuo a d´s pertence.

domingo, 23 de setembro de 2007

Por um Fio de Memória

De Simone Silveira
(dedicado à Jeanette Munõz Schrag, filha de Consuelo Perez)

Era o aniversário dela, senhora Connie, 86 anos, residente há dois, na casa de repouso Centro para Idosos Pilar.

—Olá, Connie, como está? Feliz cumpliãnos, eu lhe desejei em sua língua materna. Ela riu e me perguntou se iria visitá-la na manhã seguinte. Eu lhe disse viver a cinco mil quilômetros dela. Teria que planejar uma viagem para vê-la brevemente. —Você vem me visitar amanhã?, repetiu ela, como se a pergunta fosse tão fresca como seus anos adolescentes, naquelas tardes que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Connie foi mulher à frente do seu tempo. Enquanto as meninas bordavam, ela passava as tardes num aviãozinho bimotor sobrevoando o vilarejo na companhia de Armand, cadete da aeronáutica.

Ele era lindo, sempre diz Connie, com lágrimas quase secas minando dos olhos e revirando as poucas memórias que ainda carrega. Casaram-se e tiveram uma filha. Ele foi servir ao país na guerra. Ao término desta, veio o alívio, que durou uma fração de tempo de uma vida feliz. A menina tinha três anos de idade quando receberam o telegrama informando à família que o avião pilotado por Armand trazendo prisioneiros de guerra tinha sido abatido pelos alemães durante a decolagem. Em solo francês jaz o corpo do marido.

Connie, viúva aos 24 anos, ainda casou-se mais quatro vezes. Separou-se de todos eles, sob a alegação de que os ex-maridos, sem exceção lhe cortavam as asas. Se tornou psicóloga. Comprou carros conversíveis velozes. Virou pintora de paisagens bucólicas—as planícies amareladas pelo sol insistente do Novo México e a cidade de San Francisco sob a neblina farta. Não bastando os pincéis, voltou-se à arte primitiva de fazer vasos de cerâmica. Na roda, ela girava e moldava suas peças, todas disformes, livres da exatidão, da linearidade da forma que jamais vivenciou.

Connie, agora, lembra-se de muito pouco, nem chora quando fala de Armand. Ainda não esqueceu que é mãe de uma filha. Sua memória é um fio frágil e delicado, como os fios de ouro utilizados em bordados de capas reais na Idade Média. Eu faço o erro grave de perguntar-lhe se gostaria de rever seus bisnetos. Ela se assusta. —Bisnetos, tenho eu bisnetos?, responde ela com palavras trêmulas seguidas de uma gargalhada potente, confusa, louca. Silêncio. Ela me pergunta se irei visitá-la no dia seguinte. Desligo, ciente de que eu também, já caí em esquecimento.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Relato do "Imperador"

Por Simone Silveira




Sou um ser andarilho. Não foi nada fácil dizer adeus àquela Ilha—o jardim, às plantas, mais de duzentas fincadas no solo nos últimos três anos. Fica a esperança que as alfazemas sobreviverão mais um ano sem o meu cuidado diário de noventa e oito dias exatos todo o verão. Consegui colher pêssegos da árvore plantada no ano passado. Duas maçãs tímidas ainda amadurecem na macieira. A horta foi minguando aos poucos e meu coração também, afinal sou orgânica. Minhas mãos cavaram três buracos admiráveis, misturaram à areia seca e amarelada, um bom monte de esterco feito de algas marinhas. Lá estão agora, já se enraizando em terra boa, três árvores de folhas picotadas avermelhadas, Japanese Maple. Lindas. Sei que elas crescerão robustas apesar de tanto vento e sal nos galhos e tronco.

Durante a viagem de volta à cidade de Nova Iorque meus olhos só viam a mata. O outono chegou, as folhas secam e amarelam. Paramos em uma cidadezinha histórica. Descrevi e analisei cada jardim—as flores e arbustos, a geografia, a relação destes objetos entre si e o espaço. Meu marido comentou que eu só via as plantas e não a arquitetura tradicional do local. Me calei. Dentro de mim procurei encontrar relação entre o comentário e minha vida. Até onde não estou conseguindo levantar a cabeça, meus olhos e descobrir algo novo, ainda que velho?

Chegar foi desalento. Me desabituei das ruas sujas, dos pombos, da multidão. Estranho entrar no meu apartamento fancy em Nova Iorque. O chão preto e meus tapetes orientais me chocaram, assim como o meu fogão industrial de seis bocas, peça fundamental nas festinhas e saraus. Como acumulei tanta tralha nestes anos todos? Precisarei limpar superfícies, doar o desnecessário. Felizmente o fogão fica. Para sempre gostarei de ter gente na minha casa e de alimentar o outro, mesmo apreciando a minha privacidade.

Coloquei as malas no chão do corredor e a campainha tocou. Tocou algumas vezes. Em meia hora, havia três vizinhas e oito crianças correndo pela casa. O apartamento foi virado ao avesso em questões de segundos. Não me importei, ali nascia uma alegria. Minha ausência fora sentida e o meu retorno esperado. Gosto de gente. Penso ser este gosto um ato recíproco.

Enfim desabei de cansaço. Na cama, senti o cheiro do meu travesseiro, experimentei a sensação familiar do peso do cobertor sobre o corpo. A Ilíada lá, repousada na cabeceira, me esperando. Priam, rei de Tróia, suplicando o corpo do filho morto, Hector, a Aquilles. Este, mesmo corroído de ódio, consegue ainda se comover e devolve o corpo do inimigo. Li mais uma vez este trecho que ao longo dos anos sempre me tocou pela profunda capacidade do homem de entender a dor alheia. Apaziguar o próprio ódio nas entranhas. Do meu quarto, dos meus livros, da casa não, tive saudades. Dormi bem e em paz.

No dia seguinte, deixei o Brooklyn e fui à Manhattan. Subway lotado—gente, carrinho, barulhos, sacolas, lixo. Para qualquer um, menos para mim, é tão fácil andar pelas suas ruas planejadas em grade, como o velho conhecido jogo da velha. Já revirei os subúrbios cariocas divulgando teatro, já desvendei os mistérios dos becos e ruelas de Lisboa com êxito. Em Manhattan, eu me perco por ser tão exata. Andei muito, por ruas longas, contei quarteirões extras. Quem sabe mais do que pensei ter caminhado?

Os pés calejavam. No campo, eles são libertos de qualquer sapato. Porém, neste exato instante, é aqui onde habito. Existo.

(a palavra Imperador no título é uma referência à carta número quatro do jogo de tarô que simboliza o poder, a afirmação, a iniciação, firmeza e consistência)


terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sobre memória, física quântica e minha cidade

Por Aline Yasmin

Acredito em algumas questões tais (que não poderia discorrer perfeitamente por ser imprecisa em dados teóricos) de que creditam a possibilidade de nossa energia ficar - impregnar-se nas coisas e nos lugares. Além disso, a física quântica pelo que sei, entende que a “noção de ordenação temporal dos acontecimentos torna-se insustentável e a não-causalidade é vista como conseqüência natural de suas teorias” (*). Ou seja, rompe o conceito linear de tempo e espaço. Acontecimento e história.

A Praia do Canto é um dos bairros mais charmosos desta cidade. Berço da tradição local, tornou-se também boêmio, fashion, asfaltado e sinalizado. Morei durante muitos anos em algumas de suas principais ruas, coincidência ou não, sempre em prédios antigos com aquele ar de nostalgia e de história. Lugares cheios de charme – pelo que entendo de charme – e intimismo, ainda que desvalorizados comercialmente. Meus amigos sempre me fizeram refletir sobre minha identidade associada à semelhança desses lugares marcados por pés direitos altíssimos, pisos de madeira, salas confortáveis e, claro, longe do comodismo dos condomínios impessoais com seus elevadores, porteiros mal humorados e vizinhança a balde.

Filhos crescendo e me rendi: condomínio, playground, seguranças e a modernidade suprimiu o romantismo. Rompi, deixei meu velho sobrado pra trás e confiei no pragmatismo de minha mãe – era melhor.

As ruas mudaram em minha cidade. Agora mudam as casas. Pode parecer conservador de minha parte, mas acho que eu mudei de cidade e ela ainda não mudou de mim. A minha inquietude é de garantir minimamente a paisagem em meu percurso rotineiro – nem que isso seja apenas pra me nortear. Acho que a paisagem traz um vínculo com o próprio ser que habita esse lugar. Paisagem enquanto arquitetura, enquanto patrimônio histórico, natural e pessoal.

Sinto que minha cidade está fugindo de mim ou daqueles que ainda moram nela - naquela. Não sei o que farão com esse sentimento – essa “apatridamento” – ou seja, estamos estrangeiros – apátridas afetivos - no lugar onde nascemos. Percebo – insisto – quase um discurso moral conservador, mas creio que devam existir sentidos.

Em nome de um crescente desenvolvimento ou de uma perversa lógica imobiliária, estão arrancando nossas almas, soterrando nossos sentimentos com enormes escavadeiras para amontoar suas paredes de papel.
A promessa é apagar o Convento da Penha, que agora pouco se vê – sufocado pelo crescimento vertical, encobrir o Monte do Mestre Álvaro e destruir as edificações históricas (que devem ser consideradas desperdícios em terrenos especulados). Contabilizo diariamente as baixas em nome do progresso no curto caminho que faço.

Parece ironia, mas Ouro Preto – que é historicamente muito mais jovem que Vitória – hoje é considerada patrimônio histórico. O fato é que a cidade cresceu com a exploração do ouro e pelo mesmo ouro – esgotado, foi abandonada, além da sua importância política, posteriormente perdendo o status de capital. Isso garantiu sua permanência, sua história e ainda que recente - pareça tão longínqua, o que me faz concluir que se o crescimento econômico continuasse, não teríamos suas belas ruelas e fachadas como memória.

Hoje como sempre faço, passei por um dos lugares onde morei. Desses que sempre me orgulhei, como se (mesmo rendida aos tediosos condomínios), dissesse um pouco de mim. É normal ter alguém ao meu lado e eu falar: “- Vivi x anos aí.” Adorava essa casinha velha. Na sequência, sempre um comentário de uma cena que merece ser lembrada. No sobradinho amarelo eu fiquei 06 anos. Ele tinha aqueles problemas clássicos dos apartamentos antigos, mas estava entre os meus preferidos, conquistado depois de tempos de espera.

Para minha grande surpresa o pequeno sobrado amarelo não estava mais lá. Várias máquinas removiam a terra do que um dia foi minha sala e minha cozinha. No fundo, um árvore solitária da área externa fazia companhia a pintura – ainda guardada – feita pelos meus filhos com o nome de um deles: Renzo. Confesso que me surpreendi por isso também. Seu nome foi preservado na parede por 04 anos depois de que saí de lá.
O piso, os gradis e o velho vitral da fachada se desconfiguraram – agora são peças desarmonizadas, um quebra-cabeça espatifado no ar.

Tanta incorporação talvez justifique o crescimento de várias lojas com móveis maravilhosos de madeira-de-lei-de-demolição. Penso com antipatia numa delas na mesma rua e na possibilidade de encontrar revisitadas a porta e seus vitrais transformados em cristaleira.

Fecho os olhos. Os carros buzinam. Lembro dos pezinhos balançando no pequeno muro, do vigia da rua batendo papo no portão, do pé de manjericão vizinho ao Flamboyant que florescia vermelho.

Meus filhos não mais poderão contar suas histórias, não poderão mostrar a casa onde viveram sua infância. Talvez nem se lembrem mais, perdidos na própria cidade onde estavam e o que faziam por lá.
Estrangeiros sem memória vivendo no mesmo lugar?

O caminhão parado a frente carrega a placa que sentencia:
Luxuoso, 1 por andar, com 02 vagas de garagem, financiamento direto.

Espero a placa atravessar.

Não é mais a mesma rua, as árvores também mudaram de lugar. É preciso seguir em frente: lógica do descarte (ou seria Descartes) assumindo seu lugar.

Volto às teorias quânticas: “No princípio da não-localidade, e que diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma causa local; especulam sobre viagens para trás ou para adiante no tempo; explicam a pré-cognição.” (*)

Sustentada por essas terorias, uma esperança suscita. Parada sob os motores da escavadeira - cogito: Posso ainda estar lá?


(*)citações da Dra. Cintia Xavier

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O que existe entre Eu, Epicuro e Aracru

Por Aline Yasmin

- Você conseguiria viver numa casinha fora da cidade e perto da natureza?
Acordei com essa pergunta escorrendo em meus ouvidos. Eram 8 da manhã e meus olhos não estavam totalmente abertos. Eu sentia ainda aquele torpor Alpha de quem está se religando ao mundo depois de uma deliciosa noite de sono.
Os pássaros pararam de cantar há tempos e o dia parecia noite - chovia.

Considero-me uma pessoa urbana daquelas que transitam instintivo ou racionalmente em qualquer lugar do mundo onde haja concreto, semáforos, motores e atividades afins. Risco a geografia mentalmente e vou sem o menor complexo das diferenças geoculturais, norteada pela “segurança” do mercado global: até meu Fox brasileiríssimo anda pelas ruas de sua gênese tedesca. O fato de eu fluir – no sentido fluência – em espaços urbanos tão naturalmente, também não quer dizer que seja esse meu estado natural e nisso consiste o dilema – ser-natural numa essência não-natural. Espero me fazer entender.

O mar em Caraíva é um misto de sal e doce – muito sal e muito doce: mistura do rio que desagua e divisa o pequeno vilarejo. As ruas são de areia fofa e o meio de transporte mais eficiente é o jumento – bicho trabalhador. Seu Beto tem aproximadamente 60 anos e guarda ainda uma certa urbanidade – talvez no corte de cabelo que insistiu em se moldar e nos modernos aros do óculos de grau – dando-lhe um ar de universalidade. Partiu de São Paulo antes que São Paulo o partisse no meio. Era industrial bem sucedido mas a vida já não respondia mais – os excessos o guiavam. Excesso de trânsito, agendas e problemas. Não excedia em nada o tempo a si mesmo até que tirou férias depois de 15 anos e foi para uma vila antiga guardada no meio do mundo. De lá não saiu mais. O que era uma semana, virou um mês, dois anos e hoje já comemora 10, em sua pousada de frente para o mesmo mar (que muda de cor todos os dias e nunca é o mesmo)

- Rejuvenesci 20 anos. Ou seja, hoje estou 10 anos mais novo do que quando cheguei. Diz ele (eu acredito).

Com muito custo, saí da cama e fui para a varanda espiar o horizonte. Eu sempre confio na linha do horizonte quando muda o tempo. Santa Bárbara que me guia, dizem.
Sem ainda responder a intrigante pergunta, que no máximo esbocei um sorriso, levantei-me para acordar definitivamente.
Um fio rompia a massa cinza e o facho de luz me esperançava. Não que eu despreze um dia de chuva, mas em Aracruz – no nosso cantinho – gosto de caminhar na areia rente a restinga.
- Caminhar na areia faz bem pra alma, teorizo.
E na nossa praia, tem um “quê” de Bahia – (dos ventos quentes do nordeste) e guarda um pouco da “arquitetura” nativa das pedras e das árvores que se debruçam espontâneas na praia. Gosto de sentar nas raízes generosas que me aninham.

O trânsito – no empenhado compromisso de melhorar nossas vidas – anda “complexo”. Coisa pra quem entende de geometria analítica e lógica aristotélica. Eu, pra me manter em dia, ando consultando algumas teorias. – Tempos de mundanças – creio eu. Choro atrasada e confio. O tempo nunca dá tempo. Vejo livros amontoados pedindo socorro ao lado de minha cama. Meus arquivos e esboços criativos perdem seus prazos. A cidade cresce e eu encolho – digo. Não é mais possível fazer uma caminhadinha, sair 05 minutos antes e almoçar em casa. – Os tempos são outros – agonizo.

Penso no novo amigo Beto, feliz morador de uma pousada a beira-mar e o invejo. Não a clássica inveja pobre de espírito, mas aquela inspiradora, o que me remete a alguns filósofos gregos que pregam a Ataraxia – ou seja, fugir das perturbações da alma. Os epicuristas por exemplo se guardavam em seus jardins onde tinham toda a oportunidade do mundo para exercer o logos – prazer último do homem em busca da felicidade (que ninguém sabe muito bem o que é).

A nesga se rasga e clareia o céu. Caminho em direção a areia. A bela praia quase deserta se oferece a um passeio. Penso nos gregos, nos livros esquecidos e faço planos. A apenas uma hora – onde as árvores não são de plástico, o ruído não é motorizado e vibra simbiótico com o vento. Tenho a sensação de estar em contato com o que me é mais natural – ainda que seja tão urbana.

A primeira pergunta procura seu destino e eu ainda a problematizo:
- Por que não?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Hoje tem chopada!

De Bruno Vaks


Ufa! Finalmente olho para a página em branco e começo a dissertar sobre os acasos da vida que sempre nos acontecem. Ao andar pelas ruas, você tem a possibilidade de encontrar os mais diversos tipos e as mais diversas situações podem ocorrer contigo num piscar de olhos.

E é claro que uma dessas ocorreu comigo. Na verdade ela costuma ocorrer duas vezes ao ano. Nos meses de março e agosto, dezenas de jovens aparecem pintados, sem um dos sapatos, com um copo de plástico na mão e um sorriso na boca. Vale lembrar que isso é na maioria dos casos. No vai-vem diurno da pressa das pessoas, aqueles jovens simpáticos abordam qualquer pessoa que acham que valha e pedem uma “contribuição”, já que são os famosos calouros da faculdade. Essa contribuição é para pagar o pedágio das roupas apreendidas e para financiar a chopada dos veteranos. Uma animada confraternização, que simplesmente é pura azaração.

Mas o fato não é esse. Diferente de outras abordadas, essa não me apetece muito. E não é porque sou sovina nem nada. É muito difícil para eu não dar uma contribuição. Aquelas meninas no começo da vida adulta pedindo um trocado é de matar.... (o velho). Já reparou na cara das pessoas quando não ajudam. Elas ficam sem graça e muitos inventam desculpas. “Pô hoje não vai dar”, “Cara só tenho nota de R$50”, “Vai entornar hoje hein?” são uma das respostas que ouvi. Eu mesmo, já falei isso, depois de ajudar duas pessoas no mesmo quarteirão em Ipanema. Com a proliferação de escolas e universidades, as ruas ficam infestadas deles zanzando pedindo contribuição. Um fator que acho mais absurdo ainda é que muitos viajam cerca de 30 km para pedir essa contribuição. Como sair de Niterói e pedir a caixinha no Leblon. Afinal como se estão sem um sapato, sem uma camisa, totalmente pintados e sem dinheiro? Uma pergunta que é difícil de calar.

Depois de ficar constrangido em não ajudar um calouro semana passada, vi logo a frente um menino de rua pedindo dinheiro para comer. Diferente do calouro, o garoto estava com roupa surrada, não exibia sorriso algum no rosto e olhava impávido o frenesi dos estudantes. Verifiquei que as pessoas não pediam desculpas para o menino e também não davam satisfações a ele. Simplesmente diziam não quando outras muitas ignoravam. Aí quis traçar um contraponto entre a tristeza e alegria dos jovens hoje em dia. Enquanto uma pequena parcela com poder e anseios, pede animadamente um dinheirinho para beber com os novos colegas da faculdade, uma grande parcela pede um dinheirinho para sobreviver. Não quero dizer que a culpa é nossa, ou do governo. Todos sabemos que falta política social e educacional em nossas metrópoles.

A reação das pessoas é que tornou a pobreza, uma questão secundária para nossas visões indvidualistas. Gosto de dizer que nós jovens, somos traçados pelo indivualismo unilateral. Isto é, vivemos para si e às vezes vivemos para os outros, os famosos entes queridos. O que eu notei foi a fantasiosa falsa impressão de bondade que todos nós, na intensa correria do dia-dia esquecemos de ver. Aprendemos a não ajudar aos outros pelo fato de que assim, o pedinte nunca sairá daquela situação que se encontra. Muitas vezes deixamos de ajudar uma criança, porque sabemos que a mãe irá embolsar a quantia e gastar com outras coisas, como bebida e cigarro, enquanto essa criança poderia estar na escola.

Mas a outra parcela que está ingressando na faculdade poderia fazer com esse dinheirinho, uma coisa mais nobre. Me lembro de quando entrei na faculdade e não escapei do trote,e fui parar numa das avenidas mais movimentadas do centro, pedir uma contribuição. Um conhecido meu riu ao me ver e continuou, abordei um grupo de japoneses engravatados que não ajudaram e depois de penar por horas no sol, assisti de longe a bebedeira daqueles que seriam o futuro de nosso país.

Por isso que hoje durante esses meses, evito sair cheio de trocados pelas ruas para que não possa passar pela vergonha de ajudar um jovem a beber com os amigos do que ajudar um jovem com fome. E para aqueles que não concordem comigo, ou não achem certo o ponto de vista levantado, que prestem atenção nos murais por aí, por que uma nova chopada vem chegando.

Feira

Por Simone Silveira

Feira é sempre maravilhosa, seja lá onde for, do Brasil à Turquia não há muita diferença não. São todas caóticas, são
todas criativas, são todas convidativas e a gente se perde, em meio de tralhas, comida, flores, temperos, gente, bicho. Feira de São Cristovão é forró. Mercado de Istambul é cheiro de chá de maçã seca e tapetes luxuosos. Feira de Martha's Vineyard é feira florida. Feira africana na Ilha de Maurício é labirinto de saris indianos. Feira da Praça da Gávea é pra comprar peixes pro seu gato. Feira do Campo do São Bento em Niterói é pra se perder em meio de bibelôs e artesanato. Feira do Embarcadeiro em San Francisco tem gosto de mel e tortilhas mexicanas. Mercado das Pulgas em Paris é pra achar cacaréus e quinquilharias preciosas. É na feira que eu conheço o país, a cidade, o povoado. Feira é de gente e para gente—gente pobre, gente rica, gente preta, gente branca, gente velha, sarada, todo tipo de gente. Porque eu gosto de ser gente, onde vou, onde passo, meus olhos se abrem. Em qual esquina, em qual rua, haverá uma feira?


Feira na Ilha de Martha's Vineyard, MA, USA.

sábado, 1 de setembro de 2007

Sobre alteridade e meus filhos

Aline Yasmin

Lucca chegou da escola correndo como sempre – crianças sempre correm. Renzo, mais contemplativo, somente resmunga um pouco de alguma coisa do caminho com ar de espanto, o que é totalmente diverso da expectativa que tive sobre suas personalidades quando ainda eram bebês. Minha irmã Elian admirada com a placidez de Lucca – ao contrário de Giulia, minha sobrinha – sempre me dizia: “…você tem um anjo, minha filha…” era de fato, um bonecão bolachudo e com três redemoinhos – um a cair pela testa, que lhe davam um perfil angelical, somado ao fato de estar sempre com olhos arregalados, atentos, mas completamente silencioso. Renzo, nasceu com a pá virada, embora no banho – ao contrário do irmão – sempre fazia festa. Chorava copiosamente e o peito – seu alento – tinha que estar disponível para apartar o grito desenfreado.

A bola corre lá fora na quadra descoberta. Eu na janela de meu quarto, vejo o menino suado embrenhando-se estratégia adentro com um sorriso campeão. Renzo, brinca com outra bola no canto e ajuda um bebê nos seus primeiros passos. Lucca, faz gol e comemora enérgico. Renzo sorri vitorioso e conivente com os passinhos dados pelos pés emparelhados na grade lateral. Ambos trazem ideais dentro de si.

Sou irmã gêmea univitelina. Essa não é propriamente uma escolha, mas uma grande experiência. Viver a identidade ou a falta dela é estar em contínuo contraponto, na medida em que geneticamente idênticas, escancaramos nossas vivências e a perspectiva traçada. Acabo concordando com os existencialistas de que a “existência precede a essência”, na medida em que nos fazemos, nos construímos ao longo de nossa vida. Sempre nos é cobrado um assemelhamento e acabamos por transferir para nossa relação o que gostaríamos de ver no outro. Gêmeo ou não,

Ir ao supermercado pode ser uma grande dialética: enquanto tento agradar ao Lucca – que adora Kani, desagrado Renzo que detesta. Para comprar o lanche da escola, fica ainda mais difícil: suco de uva pra Renzo, maracujá para Lucca, biscoito doce para Renzo e salgado para Lucca. Outro dia, comprei quilos de mamão despejados no carrinho, acreditando ser consenso da família e descobri que era apenas fruto da obsessão de Renzo. Comemos eu e ele por uma semana, mamão em todas as refeições. Lucca não gosta. Caminho assim, na tentativa respeitosa de estabelecer um diálogo sobre coisas mais profundas. A escola por exemplo, os amigos do condomínio e situações outras que nem sempre dá pra escolher. Entendendo que estão ali e também não podem ser removidos sob a nossa vontade.

Escolher ou não escolher. É um instante ou uma década. Não tem jeito, como diz meu amigo Sartre: “Tentar fugir é agir em má fé”. Ou como diz Heidegger: “um ser inautêntico”. De todas as formas, uma coisa é certa: estamos aqui, jogados no mundo, diante de perspectivas subjetivas ou concretas. É possível escolher um amigo? Acredito que sim, ao ser também escolhido. Mas, para tal não é necessário estabelecer uma negação sobre ele. É impositivo respeitá-lo, ainda que deixando claro os próprios limites como um código silencioso e ético de conduta.

Assim, Lucca corre sedento atrás da bola, Renzo não participa do time e escolhe brincar com uma criança menor. Ambos indiferentes ao desejo do outro, sem negá-los. Sem deixar de se amarem. Cada um no seu espaço, compreendendo ali sua missão, seu aqui e agora.

Alteridade pura. Pura ética.

sábado, 25 de agosto de 2007

Terminais e Sonhos Desativados

De Aline Yasmim

Acelero. Sempre estou com pressa. O trânsito da cidade anda infernal em meio a políticas públicas pré eleitorais – estratégia do tipo cava buracos para inaugurar no último ano de mandato. A cidade de Vitória é uma ilha – poluída – com duas pistas principais. A que margeia o mar e sua paralela. As vicinais nem se pode considerar vias de acesso, comprometidas com bifurcações incalculáveis. Estamos num beco sem saída.

O volume de estrangeiro é vigoroso e chega curioso todos os dias – migrantes e imigrantes rumo a terra do ouro negro. É certo que nossa cidadela vai tomando ares de cidade grande e com ela, o ônus e o bônus. Tenho pensado na contabilidade dessa simetria e estou convicta de que o ônus é maior e aponta seus vértices para nós residentes eufóricos por promessas e oportunidades.

Outro dia, em meio a mais uma produção pública, fui abordada por um jovem senhor com camisa estampada a passeio numa bicicleta azul. Eu falava entusiasmadamente ao celular e não pude entendê-lo até sua terceira fala, compreendida simplesmente pelo gesto certeiro da arma em punho. O tão inocente senhor vocifera: “- Passa o Celular”. Eu, imersa nos meus problemas habituais, só fui entender o tão insistente assunto quando o trabuco metálico mirou em minha direção.

– O CELULAR! dizia o tal homem apressado.

Com sorte e a bolsa no carro, acatei solícita e de cabeça baixa - entregando-lhe o objeto e salvando todo o resto, inclusive a mim mesma.

Dia semelhante há aproximadamente um ano quando saí em disparada com Caê, pra fugir de um provável sequestro relâmpago. O mesmo gesto, o mesmo olhar e o brilho metálico 38 num domingo sorridente por volta do meio-dia.

Existe ódio no olhar dessas pessoas. Confesso que sempre procuro entender o Eu que fez por merecer. O Eu – outrem. O Eu, que não sou eu. Sou a injustiça de uma vida contraponta, da qual participo e compactuo até onde não quero, mas que nem sempre posso refutar. Faço parte da minha vida e ponto. Faço parte da vida dessas pessoas também. Não tenho como negar. O ódio me entristece e desampara.

Paro e tento entender o que está acontecendo, mas preciso estar em movimento. Não tenho onde parar, nem pra apreciar o dia que está de fato bonito – visto de um mirante da nossa baia de Vitória. O mar azul (que engana) lambe as costas da cidade. A cidade é bela e seduz. Vejo claramente a metáfora da mocinha Vitória que está crescendo – bonita e perigosa, do tipo vilã das novelas globais.

O carro corre e me deparo com a estupenda igreja evangélica para 10.000 pessoas instalada em tempo recorde na via continente de um bairro privilegiado. Aliás na Avenida N. Sra. Da Penha (supeito por precaução, a conveniente abreviação do endereço para Av. Reta da Penha – outro nome possível). Parece-me pelo porte e pela velocidade da obra, que também traz sinal dos tempos. Estamos de fato crescendo – se é que isso possa parecer desenvolvimento.
"A religião é o ópio do povo", dizia Karl Marx. Seria essa lógica então?
Enquanto cresce a violência, a certeza da finitude, a falta de espaço, cresce o mercado da fé e a promessa da eternidade? Conjecturas instantâneas.

Passo pela beira-mar. Nela, dois pontos abandonados há tempos de um terminal aquaviário - ignorados. Vivemos numa ilha, logo também deveríamos usar barcos – silogizo. Não é possível ainda entender o engarrafamento que se segue, interminável. Calculo que em apenas 05 minutos percorreríamos o que de carro ainda fazemos em uma hora, e de ônibus - o dobro. Diariamente milhares de pessoas circulam enjauladas em coletivos desumanos em longos trajetos desnecessários.

A cidade é portuária e carros desembocam vertiginosamente em containers gigantescos. Não temos ciclovias, as calçadas estão depredadas e uma perspectiva vitoriosa de metrô, nem de perto parece viável.
É o caos urbano – fruto do ônus que já mencionara.
A cidade cresce - na promessa do petróleo. Os coronéis se fortalecem e a panela de pressão está em pleno vigor. Nela, todos fervem de pavor, exceto os que preparam a mesa - famintos.

Observo. Faço discursos animados. Outro dia ouvi que não deveria dizê-lo para manter minha relação política. Nem quis pensar sobre isso. Minha voz é minha soberania, afirmo.

Olho para os vizinhos de trânsito e eles estão com expressões cansadas. Eu danço solitária no banco apertado - INXS pra minimizar a exaustão. Os ônibus carregam sonhos amontoados, mexem seus corpos apenas em curvas. Passam pelo terminal desativado e não o vê, esqueceram-se das promessas do metrô, guardam suas bicicletas em casa – por segurança – reservadas àqueles que não tem medo e nem pensam em ciclovia. Também não observam o teatro em frente, prestes a ser demolido enquanto artistas suplicam agonizantes. Cultura não enche barriga – diz o velho político.

E as pessoas adormecem em pé no trajeto até suas casas ou comemoram aniversário, já que ali passam grande parte dos seus dias. No ônibus não tem música. Tem grito de menino pedindo gorjeta, tem idoso doente e gente caindo na roleta.

Fraternité, Igualité e Liberté. Tento buscar algum princípio na humanidade que tenha dado certo, nem Marxismo, nem ideal cartesiano burguês, nem suecos suicidas.

Sem utopia ou distopia, a massa apenas espera e nem sabe o quê. Eles não se lembram. Não pedem nada ou são ignorados.

Resta o ópio como solução. que cada vez mais enche igrejas (in) perfeitas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Para Não Esquecer

De Simone Silveira, Agosto de 2007

Três horas da tarde de ontem, o carteiro me entregou um papel cartão rosa choque. Era uma comunicação de comparecimento ao correio. Corri. Há um bom tempo que não recebo cartas tão importantes. Julgo-as, inocentemente por opção, de valor elevado por serem registradas.

Há de se levar em consideração o cuidado extra do remetente pois não quer que seu leitor fique a ver navios e sua obra caia em mãos desafortunadas que jamais apreciarão a dedicação de se escrever uma carta, levá-la ao correio, dá-lhe tratamento VIP, e com coragem, tirar aqueles reais extras do bolso, ignorando a insistente pulguinha atrás da orelha que sussurra— e aí, boboca, palhaço, vai pagar mais? E se a carta acabar chegando de qualquer forma? Nunca se sabe, meu chapa... Você perde, mané.

A pulguinha pára para se coçar e então aquela cena da multa presa no pára-brisas lhe vem à cabeça. Multa, eu? Falta a humildade de colocar aquela moedinha na máquina, ou pagar aquela gorjeta extra pro flanelinha. Tudo pra driblar o sistema e brincar com a sorte. Como é bom a adrenalina correndo pelas veias, meu caro. O jogo vira. Vez ou outra, mais cedo ou mais tarde, ele sempre vira. E a multa está lá, brincando contra o vento que te irrita ainda mais. Não seria melhor ter colocado a moeda, ou mesmo duas só pra garantir a paz de espírito. Há os que cumprem, não são jogadores. Melhor comprar mais selos, registrar a carta e ter a certeza que é tudo pela felicidade geral do leitor!

Ainda me lembro do tempo, há uns dez anos atrás, antes da internet e dos emails, como me extasiava com a chegada de cartas. Nunca deixei de prestar a atenção ao horário de entrega das correspondências. Hábito. Aprendi bem aquele prazer.

Digo mesmo que foram as cartas e a certeza da chegada delas que me salvaram da depressão e da falta da pátria quando aterrizei nos EUA. Estava, como se diz aqui, homesick. Fechava os olhos e sentia o gosto do sal da água do Arpoador, o gosto do milho carregado na manteiga do ambulante em frente ao Canecão, das ladeiras da Lapa, do carnaval, me via atrás do Suvaco do Cristo e do Simpatia, blocos carnavalescos inesquecíveis— o carnaval havia acabado de acabar e eu partira. As lembranças eram ainda latentes, o Baixo Gávea e seu bafo que não deixava de ouvir até quando dormia, janela virada para os braços do Cristo abertos para mim, o meu namorado de então, o Jardim Botânico e o jardim da escola de teatro da Uni-Rio, na Praia Vermelha. Saudades do palco do teatro Lucinda e de alguns malucos do grupo de teatro Os Fodidos Privilegiados, Dirigido por Antônio Abjamra e João Fonseca. Os Privilegiados foi a minha casa e minha família por um ano e meio.

1996, A companhia havia acabado de se reunificar depois de alguns anos parada. Cara nova, grupo novo, tudo muito frágil. Explico: a dedicação do grupo ao espetáculo e companhia era intensa e inevitável. Precisava de uma reestruturação. Éramos muitos, o grupo era de alguma forma "democrático." Entrava qualquer um, desde que fosse comprovado que o teatro era uma escolha profissional do artista (carteirinhas do sindicato dos artistas, ainda me lembro. Quem não tinha, acabou ganhando). O espetáculo foi O Que É Bom em Segredo É Melhor em Público, 1996.

O diretor, Antônio Abujamra, juntamente com João Fonseca, tinha tido uma idéia brilhante no início do processo, que ele mesmo não participou pois estava dirigindo novela em São Paulo e vinha a cada duas ou três semanas para dar forma à peça. O homenageado seria o Nelson Rodrigues. Montaríamos O que é Bom em três atos baseados na adaptação do folhetim O Homem Proibido e rechearíamos os entreatos com cenas baseadas nas crônicas do Nelson. O entreato era a genialidade da montagem.

Eu gostava de chamar o grupo de Fodidos, como o Abujamra. Fodidos porque até os nossos figurinos eram pagos por nós. Não se fazia dinheiro lá. Patrocínio mesmo só alimentício. A nossa fome era religiosamente saciada nos intervalos dos ensaios à base de kani, aquela carne imitação grotesca de siri parecendo cigarrilha. O kani chegava aos montes durante os ensaios e apresentação. O significado mais profundo da palavra Fodidos, era a analogia direta e intrínseca à nossa condição de artista no Brasil. Éramos todos jovens, sonhadores e estávamos fazendo arte em um país que até hoje não acredita na educação, na classe artística e seu ofício, na política limpa como forma de evolução de um país e seu povo.

O Que É Bom em Segredo É Melhor em Público, estreou aos trancos e barrancos para os atores. O ilustre Abujamra, apesar de ser um diretor excepcional, mostrou um lado anti-ético decepcionante. Cortou 2/3 do espetáculo dois dias antes da estréia, deixando assim, não mão, mais da metade do elenco, me incluo nesta leva, depois de um ano de pesquisa intensa. Aprendi ali a minha primeira grande lição de desrespeito ao artista. Talvez a mais dolorida de todas pois se deu dentro de casa.

O processo de trabalho, começou com visitas semanais à Biblioteca Nacional para fotografar páginas dos jornais onde o Nelson havia escrito suas crônicas. Naquele tempo não havia quase nada da obra jornalística dele publicada em livro. Quando vi os inúmeros livros de crônicas sendo vendidos na FLIP—Festa Literária de Paraty, quase tive um enfarto. Tudo lá, prontinho pra levar para casa. Trouxe. Progresso gigantesco na literatura brasileira. Depois das visitas à biblioteca e dinheiro suado gasto para a xerox e passagem do próprio bolso, foi a vez das leituras e mais leituras— peças, romances e textos. Palestras. Começamos aliás, no Joquey Clube, na Gávea, até conseguirmos o espaço do Lucinda, na Cinelãndia. As noites acabavam ao lado, em brahma e batata frita no Amarelinho. Mesas de discussão, dentro e fora do teatro. Entre a aparição da Camila Pitanga, dando o ar da graça e de sua presença marcante por duas semanas, provando que nem todo global é, aliás insuportável e a saída dela, muito sangue rolou naquele grupo e naquele teatro, que diz a lenda ser mal assombrado (assombrado mesmo, era para mim voltar pra casa cruzando a Cinelândia à uma da manhã em dia de semana).

Camila era, penso ainda ser, simpática. Falava com todo mundo. Dizia estar em busca de uma experiência teatral. Trocamos até telefone. Iríamos tentar trazer meu ex professor da Uni-Rio, Léo Jusi, pra falar do Nelson pro grupo. Daí veio convite melhor, e ela cheia de ginga, partiu. Não sem antes deixar para trás um rastro da sua beleza latina da mistura das raças e da sua bunda perfeita e redonda, segunda a própria Pitanga, eleita naquele ano, a melhor da rede globo de televisão (perdão Camila, prometi confidência. Mas não fiquei famosa e duvido que ainda se lembre de mim. A verdade, mais cedo ou mais tarde sempre vem à tona. E hoje, quem se importa? Queria eu ter a sua bunda. ).

Os problemas daquele ano continuaram. Talvez não tão para a parte privilegiada do grupo. Quem faria o papel principal ? Era a nova questão. Uma outra mocinha, selecionada para o papel principal, durou poucos ensaios, foi selecionada para um gig melhor, novela no SBT e partiu para Sampa. O negócio é esquecer gente famosa e lançar sangue novo e ambicioso, como foi com a Cláudia Abreu no papel de Hamlet da memorável montagem a seguir premiada de Abujanra de Um certo Hamlet, em 1991, só com mulheres. Foi nesta montagem, que decidi ser atriz profissional, estudar teatro pra valer na universidade. Ainda trabalho com este cara, pensei, então, no auge dos meus dezesseis anos.

Quem? Quem? Quem? Põe a Guta Strauss, que acaba de chegar do Sul, de Curitiba. Guta tinha alguns conhecidos que já trabalhavam com o Abu há algum tempo, foi recebida com carinho extra. E por que não? E lá entrou a Guta. Menina cheia de energia, determinação. Ambiciosa. Tinha mesmo uma fisionomia rodriguiana, misteriosa, quase macabra. Ela era despachada. Sem medo. Repito, aquela menina não tinha medo de nada, do palco, de gente, do diretor, das luzes, dos erros, nada, absolutamente nada. Era impressionante. Eu a detestava como atriz, meu santo não batia com o dela fora dos palcos, mas admirava o profissionalismo e a eficiência. Guta aprendia tudo numa rapidez, marcação, fala, tudo. Assim foi. Papel escolhido é a vez de ensaiar. Era necessário colocar o volume exacerbado de informação coletada pelo grupo numa forma simples e atingível ao público. Paralelamente começou a ser produzido um outro espetáculo de Nelson Rodrigues, a adaptação de Abujamra e João Fonseca, assinando também a direção, para o romance O Casamento, Guta assumiu aquele desafio também.

A minha casa virou um antro rodriguiano na época dos ensaios. Arrastava móvel pra cá, levava a reck da televisão para lá. O meu namorado, que odiava gente em casa, estava à beira de um ataque de nervos. E eu decorava as frases da Engraçadinha e Seus Pecados e procurava alucinadamente apagar o naturalismo da sua imagem de seriado global. Expressionismo. Era só o que ecoava naqueles dias. Precisávamos de espaço. O Dulcinda, na reta final, estava mais ocupado com os ensaios de O Homem Proibido e O casamento. As cenas rodriguianas que conectavam a trama tinham que se virar para sair do papel. A gente ensaiava em qualquer lugar. Ano louco aquele. Peça pronta, ensaio geral. Chega o diretor de Sampa. Passamos a peça. Abu só balançava a cabeça. Muito longo, três horas e meia de espetáculo, dizia ele, o público vai dormir. Medo da Bárbara Heliodora sentada na primeira fila no dia da estréia? E não é que ela malhou mesmo? Detestou tudo. Temos que enxugar, concluiu.

O Ducinda quase veio abaixo. Cabeças rolaram, obviamente. Foi um deus nos acuda nos bastidores, novatos à beira do pranto. Depois do corte, lá se foram quase todas as cenas do entreatos, dois dias antes da estréia. Depois do choro, o boato—Tudo pelo processo. Não é esta a desculpa dita preferida aos que vivem pela arte no Brasil, principalmente aos que sonham em acontecer?

Peça enxuta, o resto do povo, virou mesmo, obviamente, povo, plebe, coro, no fundo do palco, cinqüenta atores da companhia, sentados em cadeiras duras durante duas horas e meia no fundo do palco do Teatro Lucinda. Imóveis. Mão nos joelhos. Só podiam piscar. É yoga. O negócio é dar vida aos olhos. Aos olhos, pupilas e cílios. Sobrancelhas, jamais! Juro ter sido esta a mais dolorida temporada teatral de todos os tempos. Tudo pelo teatro, era assim para muita gente ali— O tempo, o dinheiro dos pais, o próprio vindo dos salgadinhos, langeries e produtos da Natura vendidos no intervalos. Eu só pensava nas três classes que havia trancado na Uni-Rio, no meu dinheirinho suado de vendas de bombons e jóias entre uma matéria e outra na faculdade. Tudo em vão. Tudo? Claro que não. Pois não estou aqui hoje recordando com saudade, e digo mais, até com um certo prazer daquela experiência? Foi uma escola. Certamente. Verdade que não esqueço o desrespeito do mestre às suas próprias crias. Abraão sacrificando seu próprio filho para adorar a seu deus.

Tudo pela arte. Abú cortou muito. Resolveu eliminar os figurinos de quem não era elenco principal, vestíamos camisolas sexy preta. Nem deu pra salvá-las porque ele as detestou. Na tentativa final, quis que fossem cobertas em renda dourada. Passei uma noite com a figurinista e uma latinha de spray nas mãos tirando o negativo da renda sobre a camisola de laicra barata. Camisola rendada, cortada da peça também. Dezenas e dezenas, lixo. Nem deu pra levar pra casa a peça que me custou, ainda me lembro trinta reais. Elenco de apoio, sim viramos apoio dois dias antes da estréia, entra em roupa cotidiana—calça jeans e camiseta, resolveu o mestre. Ponto. Do pouco que restou da extraordinária obra do Nelson baseada nas crônicas e engavetada na Biblioteca nacional, que garimpamos e adaptamos, foi a dispensável mini cena com a loirinha linda de desessete aninhos. Era ligada ao Glauber Rocha, tinha o sangue do mundo do cinema. A loura não hesitou em ter uma cena de um minuto completamente nua, à meia luz. Era a sua única e primeira aparição nos palcos brasileiros. Abu entendia, a platéia também. Era Nelson Rodrigues.

Ao imigrar para os EUA, o teatro, foi o que mais me trouxe sofrimento e gerou saudades. Traidora dele no seu conceito e princípio mais puro. Carreguei esta sensação e culpa por anos. Tudo pela arte? Tudo mesmo? Eu falhei no meu próprio país. Léo Jusi escreveu no quadro negro da Uni-Rio em uma aula de Direção Teatral —você quer o teatro, e o teatro, te quer? Ali ele deve ter tirado metade da turma do trilho. Jamais esqueci aquela colocação. Exílio para mim aos vinte e dois anos. Meu exílio foi espontâneo, necessário, para esquecer os amores deixados para trás. E as cartas, as cartas me salvaram. Telefone era muito caro, ninguém ligava mesmo e eu não ligava de volta. Não sabia dos cartões telefônicos. Nem sei se tinham. Além do mais, sempre detestei falar pelo telefone.

As Cartas eram conforto, entre elas as de Rosa, minha grande amiga, irmã de alma, chegando semanalmente e sendo respondidas prontamente. Lia uma e a saudade era saciada. Nas respostas que lhe enviava, contava sobre a América, e assim eu ia me entusiasmando com tudo que era novo, com as minhas próprias impressões da realidade observada e vivenciada. Até que fiquei, fiquei mesmo, namorei, casei, tive filhos, jurei à bandeira, virei cidadã, estou voltando às artes— ao teatro, à costura, à leitura, à escrita. Tudo sendo feito novamente. Bem feito. Com amor. Dedicação e retorno. Há coisas que não mudam. Adormecem. De tanto cansaço. Ainda bem. Alívio. Há outras que evoluem muito rápidas, como a comunicação, o surgimento dos emails, chatrooms, msn, skype, e outras maravilhas do mundo moderno, que estou aos poucos me simpatizando.

Mais cedo ou mais tarde, eu me modernizo, me atualizo, I will catch up, I will be on the ball, o leite jamais ferverá e transbordará, não perderei o trem das onze, e vou parando aqui para não perder a originalidade do texto. Longe de plagiar o mestre Joaquim Ferreira dos Santos e suas expressões ressuscitadas do limbo, da lama, do escuro amedrontador do esquecimento. Esquecimento, que um dia, mais cedo ou mais tarde, cairemos todos, a maioria. Não cairemos, despencaremos, como fruta amadurecida, amarelada, murcha, manchada, bichada, flácida, seca, sem vida, sem suco. Inevitavelmente, desprevenidamente, assim sem mais nem menos, num dia quente de verão, ou mesmo por uma chuva forte, quem sabe pela força delicada da leve brisa interrompendo a natureza caridosa que ainda permite o fruto gozar do seu último gole de seiva.

Quando eu, você e o próximo cairmos, de verdade, ou no esquecimento, não restará muito, cartas, quase impossível. Emails salvos no hard drive, talvez. Mais cedo ou mais tarde se apaga tudo para não sofrer. São elas, as cartas, objetos de afeição quase perdidas, quase esquecidas pelo desuso, pela evolução da humanidade, como o latim, que pena, como uma lembrança vaga, um beijo de outrora. Eu gosto mesmo delas, de verdade. Sou tão obsoleta, fora de moda. Então, pedi perdão ao santo padroeiro das mães, coloquei os filhos na frente da televisão, gritei pro marido trabalhando no quarto ao lado que iria dar uma saidinha por quinze minutos. Fui ao correio buscar a minha carta. Há anos não recebo uma.

Não era. De dentro do envelope, puxei o conteúdo. Li Hierosgamos—Diário de uma Sedução, de Noga Lubicz Sklar.

Minha querida amiga de Oficina Literária de Paraty colocou dedicatória no seu livro capa rosa choque. Coincidência gostosa. Tem dedicatória, pensei, pode se dizer que é carta. E assim foi para mim. Fiquei feliz, ganhei meu dia! Carta longa é este livro. Noga, vou ler sua obra como se estivesse me escrito e contado um segredo seu, sagrado. Prometo te enviar uma carta de volta com comentários ao término da leitura. O meu obrigado é esta crônica que dedico agora, neste exato momento, à você.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Belle&Sebastian ≠ Beirut

De Bruno Vaks


Animado com o sábado à noite, após um showzinho com a participação de Marcelo Camelo (Los Hermanos em recesso) mostrei no carro para duas amigas o novo som que descobrira ao ler uma crônica do Dapieve há algumas semanas. Confesso que li com interesse aquela crônica, porque crônica de musica é comigo mesmo. Gosto. E muito! Só a possibilidade de desvendar novos ritmos e escutar novos sons me entusiasma. E se são da linha auditiva que eu sigo, melhor ainda. Por isso recomendo a crônica dele no O Globo e aqui vai uma recrônica (nem sei se isso existe, o importante é criar!).

Pois bem, não consigo me lembrar muito bem de todos as características e qualidades da banda que comecei a escutar. Ahh! O nome da banda é Beirut. Eles não são do Líbano, muito menos árabe, são jovens de uma cidadezinha de Nova Jersey, estado que o fato mais importante a se saber é que faz divisa com a cidade de Nova York.

O porém foi que ao tocar a primeira musica no radio do carro, uma das amigas falou: -“ Já adorei, me lembra um pouco o Belle&Sebastian...” Peraí, como assim? Depois de ter escutado, pelo menos três semanas seguidas, as musicas deles, nunca tinha passado pela minha cabeça que eles pareciam Belle&Sebastian. De cara não concordei e me veio as imagens do show que B&S (chamarei assim, ok?) fez aqui no Rio há alguns anos atrás.

Curioso como sou, fui atrás de bandas novas no chamado Lab, palco experimental do festival. Não me lembro qual outra banda internacional estava agendado junto a eles, mas me recordo que fui atrás da outra banda que conhecia bem. Mas como era show conjunto, resolvi ficar para escutar o som do B&S, já que um amigo dizia mil maravilhas da banda. Lamentava que uma das cantoras ou cantores não estaria presente. Até então OK! Já estava satisfeito com a noite quando entraram. Confesso que estranhei seu som e tudo aquilo que tinham me dito sobre eles veio ao contrário. De banda animada, achei chato demais. Da melancolia proposta, conclui que era uma euforia exacerbada. Da musicalidade variada, não passava de banda feijão com arroz. Lembro também que o lugar estava lotado de jovens adultos como eu, com suas roupas estilosas, cheios de personalidade alternativa, numa tradução perfeita da geração indie que encontramos hoje em dia.

Uma coisa me atordoou enquanto assistia a performance. No final do show com grande parte da platéia em polvorosa, chamaram algumas pessoas para subir ao palco. Logo começaram a dançar e viu-se uma enormidade de rótulos iguais. Como saias xadrez, peles bem brancas, piercings e meias até acima do joelho. Desculpem-me não sei como as chamar. Lá em cima as pessoas pulavam e dançavam sem parar, rindo e cantando a musica que há pouco desconhecia. O que me incomodou foi a alegria indiferente que vi nos rostos daquelas pessoas. O que elas queriam mostrar, de fato, naquela idealização completa de felicidade? Não poderei me esquecer da garota rechonchuda que pulava sem parar, sorrindo metálico para a platéia, quase em êxtase com sua mochila presa às costas balançando de um lado para o outro.

Isso foi há alguns anos. Hoje sei que não poderei desmistificar os que gostaram e muito, daquela performance. Eu nunca mais escutei B&S e criei uma certa repulsa. Por isso minha explanação toda sobre a igualdade de sons totalmente diferentes. Ao escutar Elephant Gun, do mais recente EP deles Lon Gisland, sinto uma paz invadir meus ouvidos e conseqüentemente o corpo. Uma mistura de violas, sopros, acordeons, pianos e pratos equivalentes a uma pequena orquestra. Não conheço muito de musica clássica. Um som que já escutamos na (extinta?) Los Hermanos e até nas bandas de colégio aonde todos uniformizados desfilavam em praça publica no Sete de Setembro. Não só a mistura de sons, mas também uma mistura de ritmos como o próprio Dapieve divaga em sua crônica.

E eu como judeu, que enraizado desde criança escuto musicas tradicionais do Leste Europeu pela ascendência ashkenazi, posso dizer que eles me remetem a um tempo que não vivi. Um tempo onde não existia radio, muito menos carros. Cavalos, fornos a lenha e danças em roda (pois esta, vejo inúmeras vezes em eventos judaicos e até em bandas novas, como a Móveis Coloniais de Acaju, que assisti no primeiro semestre). Onde andávamos a pé e uma carta demorava semanas para chegar em seu destino. Mesmo a cidade sendo a 500km da sua. Eles me remetem a estar passeando estático num carrossel imaginário onde todos celebram a felicidade comovendo até os melancólicos e saudosistas. Onde maçã do amor era motivo de declaração de amantes e as historias eram contadas ao lado de lampião a gás.

Por esse motivo não posso aceitar essa equivalência e é difícil não recomendar aos entes queridos, por que musica precisa-se ouvir e o principal, gostar. Não adianta escutar só porque todos dizem, você tem que sentir que algo muda em você quando elas começam. Mas desta vez, não teve jeito e me mantenho parcial a favor deles. E que venham ao Brasil.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

sobre sonhos e sentidos

De Aline Yasmin

Tenho corrido muito. Corrido suficientemente insuficiente para me ater. Quando falo ater, falo em atar, em parar, olhar, ouvir. Tinha jurado pra mim mesma que não voltaria a fazer isso. Mas, tenho um monstro dentro de mim que precisa ser ninado, enganado, convencido. Quando percebo, ele se apossa dos meus gestos e por pouco não me domina. Volto, refaço o percurso e explico pra ele - pacientemente - que CHEGA! Não tenho muito paciência às vezes, por isso não posso parar de filosofar. A filosofia me convida a ser melhor. Esse espírito me enobrece. O espírito de quem sabe que sabe pouco, que precisa saber mais e ainda assim, que nunca saberá o suficiente. Acho que esse argumento me tranquiliza porque me impede de querer superar o outro, na verdade fico mais generosa - inclusive comigo.
Saber o não saber é o suficiente para adormecer o monstro. Isso, Sócrates faz dormir. Interessante pensar que faz dormir enquanto desperta. Despertar seria então um estado de sonolência? Não a sonolência no sentido radical da palavra, mas essa paz, esse sonhar, esse estado onírico transcendente?? Já havia dito outras vezes que sonhar me desperta. Talvez nunca tenha pensado no sentido verdadeiro da premissa. Aliás, sentidos = ilusões (David Hume); verdade = razão (Kant)...parece-me incoerente. Filosofar...quer saber? Quero definir meus sentidos - plenos e impuros. Hoje como devem perceber, estou "bem" contraditória.
Bem? Isso é Bom? Acho que preciso dormir. Quem sabe assim, eu volte a realidade.?!

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A sutil arte de escoar pelo ralo

De Bruno Vaks


Sabe quando você está com a pagina em branco sem ter idéia para escrever uma historia? Logo hoje te dá vontade de escrever uma historia, mas a idéia trava, a cabeça não pensa e você não consegue tirar uma frase da cabeça? Provavelmente não, porque não são muitos que usam a escrita de oficio. Nem eu! Vejamos outro exemplo, você corporativo, tem que imprimir aquele relatório enorme para o seu chefe e empaca porque deu erro na fórmula da planilha XYZ e você não consegue achar aonde que está o maldito problema.

Mas o fato é que uma frase me atazana desde a manhã, quando li num cartaz em uma padaria o seguinte: “A sutil arte de escoar pelo ralo e .....” (esqueci o resto). Confesso, achei linda. De uma profundidade tremenda que não sei aonde pode chegar. Muitos vão dizer no mar. Afinal, aonde os dejetos cheios de água acabam. Do esgoto para o mar. Mas o ralo é diferente. O ralo não é conhecido. Ninguém conhece as paredes do ralo. O seu caminho até o esgoto principal. É claro que você já se pegou olhando no banho, após ficar com o shampoo durante três minutos na cabeça conforme manda as instruções no verso do dito cujo, porque se você ficar um minuto ou dois o produto não fará efeito. Voltando para o banho, você entra debaixo do chuveiro e vê toda aquela água cheia de espuma indo rodando feito redemoinho a entrar pelo ralo. Sabe lá aonde isso vai chegar.

Aposto que você nunca chegou perto do ralo para ver o que há dentro. Cem por cento das vezes é pelo medo de lá sair um bicho inenarrável, com quinze braços, cara medonha e lotado de vingança das milhões de vezes que você utilizou o ralo para esvaziar seu box.. Mas esse medo reflete sim, a barata que costuma sair de lá e que tens muito nojo.

E se não tivesse o ralo, como sairia a água do seu box? Ia transbordar a sua casa, a menos que tomasse banho de rio ou ao ar livre, com uma grande camada de terra embaixo de você criando um grande lamaçal. Nem com havaianas você se salvaria. Já pensou na dondoca? No cantor de chuveiro? E as pessoas que escrevem no box quando ele fica embaçado? O que elas fariam na hora do banho?

Digamos amem ao ralo, pois sem ele ficariam petrificados de tanto cheiro ruim. Afinal, é uma arte que estamos falando. O verbo “escoar” já me soa como uma onda, como um fluido que passa de um lugar para o outro. Ou essa é a definição? É de uma grandeza. Juntando a isso o fato de ser arte, só podemos finalizar com um adjetivo que demonstra tudo isso sintetizado: sutil.

Por isso, prestem a atenção em seus movimentos e ajam com carinho ao desentupir. Muitas vezes a culpa é sua e não do ralo. É capaz de ter sido o seu cabelo que tenha enrolado tanto que não deixa mais a água fluir.

Apesar de todas essas colocações acima não terem muito a ver com a pagina em branco, pode se dizer que a intersecção de todas essas informações inúteis conseguiu levar um tempo enorme de explicação e ter tido a oportunidade de se tentar escrever uma crônica, num dia que a maioria das coisas não dá certo, o melhor para se fazer é começar um bom livro e adormecer sobre ele.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

PALAVRA É DOM E DESAFIO (*)

De Aline Yasmin

Escrever é realmente um processo interessante. É um estado contemplativo de abstração espiritual – tudo isso pra dizer a mesma coisa. Eu particularmente escrevo como quem bebe água quando está com muita sede. Posso pensar também em coisas escatológicas e ao que realmente me remete é o vômito. Talvez seja aquele estágio sartreano da náusea. Escrever pra mim é também um processo doloroso. Quando tudo transborda. São raras as vezes que escrevo porque estou muito feliz. Felicidade acho que combina com música, melodia, ainda que também possa combinar com tristeza. Acho que música combina com tudo. E eu adoro cantar, mas normalmente canto feliz ou pra expressar alegria.

Não sei escrever por encomenda – embora já o tenha feito por milhões de vezes na minha carreira publicitária (talvez seja esse um dos meus traumas) e os textos me surgem em formas diversas. Muitas vezes sou poesia, outras prosa, mas se por acaso exercito muito um estilo fica mais complicado voltar pra outro. Tenho algumas teorias complexas sobre isso, que passam da física quântica a neurociência - fácil pra quem viu o filme “Quem somos nós”, misto de teorias filosóficas, teológicas e científicas - e auto-ajuda. Vale ver e tirar suas conclusões. Ajuda.

Chico Buarque disse outro dia sobre a diferença entre escrever livros e fazer música. Quando está em um dos processos, fica difícil pensar no outro. Quando termina, corre para o outro.

Nunca parei para pensar muito sobre isso, escrevo como respiro desde que “me conheço por gente” – diria meu pai. Outro dia porém, fui convidada a palestrar para criancinhas na escola do meu filho. Foi um momento inusitado: todos em pezinhos me esperando ansiosos com olhares curiosos sobre meus gestos.

A professora fez uma abertura, agradecendo minha presença e convidou algumas delas para declamar … em poucos minutos tinha diante de mim, borboletinhas, rios desaguando no mar, pássaros em festa e flores na floresta. Eram as criancinhas com as palavras ensaiadas equilibrando-se nos pequenos e graciosos corpos - ao demonstrá-las. Debulhei-me secretamente em lágrimas. A palavra. Era o que nos unia. Crianças respeitosas e eu, que trato pensamentos como refugo do que nego. Como vômito, numa experiência visceral do ego.

Na sequência, as perguntas me achataram. Encolhiam-me pela dignidade que davam ao fato, até que finalmente uma me trouxe a nocaute: “Tia, é bom ser uma poetisa ? (que eu sempre nego – ao afirmar-me poeta) …você pode fazer as pessoas felizes! ” A ingenuidade da pergunta e ao mesmo tempo afirmativa me colocava em cheque. Faria mesmo alguém feliz? Muitos me fazem (pensei)

Teria eu essa pretensão? E enfim, por que escrevo? Pra quem escrevo?

Minhas têmporas carregavam no carmim…não saberia responder suas perguntas (crianças espertas) - E o que é pior: nem a mim mesma.

Cheque-mate.

Ensaiei um coro no final e cantamos juntos. Todos felizes.


(*) o título é na verdade uma frase de um poema meu (seu, nosso).

terça-feira, 7 de agosto de 2007

RELATO

De Simone Silveira

6 de agosto de 2007. E a tempestade em alto mar? Já passou por uma, meu chapa?

Final de semana trancada dentro do meu ateliê costurando minhas criaturinhas de pano, feltro e algodão, assim foi. Sábado, baile rap rolando no parque em frente `a minha janela. Entra e sai agulha no tecido, os olhos vão se formando. Eu faço olhos. Vou enchendo os seus corpos. Eu crio volume à forma flácida. Pensamento voando por outras bandas. No dia seguinte, entrego as criaturas ao novo dono. Vou correndo pegar o trem das duas da tarde, linha Nova York-Boston. Chego dois minutos antes da sua partida. Peito arfando. Fome. Vou ao vagão-restaurante e como um cachorro quente. Lingüiça mal passada, esquentada no microondas. Isso aqui ainda me mata, penso. Celular toca, pego as minhas direções com o meu marido. Agora sei como chegar à Ilha de Martha’s Vineyard. Não é para Boston e sim Kingston o meu destino. Como o Bruno Vaks, preciso aprender melhor geografia. Desço em Kingston. Chove muito. Pego a van até a estação das barcas. Sabe se este é o caminho mais rápido? pergunta um homem ao meu lado, acompanhado da família—esposa algumas décadas mais nova, a filha de quatro anos, um filho de dezessete e a sogra, é claro. Não sei não. Nem sei se este é o caminho, respondi. Puxei conversa. Gosto de conversar. Da onde são? Daqui e de Cuba. Cuba? Como assim? A minha mulher e a minha sogra são cubanas, disse ele, com orgulho. Sou brasileira, confessei. Robby é baterista de jazz, esteve no Brasil, no Rio de Janeiro, no mês passado tocando no Centro Cultural Banco do Brasil. Mundo minúsculo. Descubro os points certos para se ouvir um bom jazz em Nova York e onde comer uma boa comida cubana. No Victor’s. Pegamos o barco, atrasadíssimo. Lucía, la niña de quatro anos encontra exatamente treze pedras brancas para a viagem e as coloca na lancheirinha. Entramos no barco, compro cerveja e amendoim. O mar está bravo, penso se devo comer amendoins e tomar a minha cerveja. Começo, afinal já paguei por eles. Depois daquela ponte, diz Robby, o mar fica um pouco violento. O barco meia hora atrás do schedule resolve ir mais rápido. Voa sobre as ondas. os adolescentes gritam e gargalham de entusiasmo. É adrenalina pura. Lucía chora de medo. Eu penso nas treze pedrinhas brancas que não podem se perder. Ana, tu sabes nadar?, pergunto. Non, ela confessa. Olho para o Robby. Está acertado. Procuro com os olhos a porta e coletes salva-vidas. Conto quatro bueiros no chão do barco. Estou preparada. La hola vem, feroz, gigante. Arrebenta no lado direito do barco. Silêncio. As gargalhadas se calam. O barco inclina-se. Quase tocamos uma linha vertical imaginária. Por um triz não vira. Lucía berra. Ligo para a casa. Amor, o mar está bravo, quase viramos. Um instantinho só, tenho que ajudar o nosso filho lá fora, te ligo daqui a pouco, diz meu marido. Claramente não me ouviu. Desligo. Eis o que se passa em segundos pela minha cabeça: Nos meus vinte, criou-se um medo inexplicável em mim, medo de voar, de altura. Agora nos trinta, não. Não sinto nada. Se o barco virar, penso, acho que me safo e levo um comigo. Da onde vem tanta confiança? Paixão pelo mar? Se ele me levar, vou mesmo, de braços abertos, penso. Pensamento pueril. Não tenho medo. Não penso no futuro. Sinto uma felicidade de ter chegado até aqui, o hoje. Me surpreendo comigo mesma. Que diabo é este pensamento egoísta? E os meus filhos pequenos? Nada. Serão felizes, sempre. Se tiver que morrer agora, neste mar enfurecido, assim é. O marinheiro reduz a velocidade do barco, pede paciência pelos próximos trinta e cinco minutos. Seguimos em paz ao som de “I gotta feeling, I feeling inside,” vindo dos autofalantes e se misturando com o barulho do motor. Dá até para relaxar. Volto a comer meu amendoim. Lucía tira as treze pedrinhas da lancheira. Terra à vista.

O barco não virou, meu chapa, quase, porém não virou. E se virasse?

Soberba ignorância

De Bruno Vaks


Não adianta. Passa ano, vem ano e continuo tendo um certo problema com a geografia. Não é que não goste. Pelo contrário, sempre fui bom aluno nas aulas do primeiro grau, hoje ensino médio. Adorava saber nomes de bacias hidrográficas, explicar o que é planície ou planalto, que tipo de clima tem o continente europeu, ou simplesmente o que são as monções. Mas tenho de confessar algo que me atormenta até hoje.

Sim, confissão na porta da sacristia para o padre orador me mandar quatrocentas ave-marias. Não há maneira alguma de eu conseguir acertar as capitais de alguns estados brasileiros sitiados ao norte do país. Tirando Amazônia e Pará, que são grandes, o resto é um martírio. Sempre confundo Boa Vista com Roraima, Boa Vista com Acre, Rondônia com Roraima, Porto Velho com Amapá e por aí vai numa quase infinita análise combinatória. Não adianta. Continuo errando. Nunca sei onde é aonde. E olha que, inclusive sou formado com pós-graduação (quase coloco meu currículo aqui para vocês verem). Se participasse de programa de auditório com essas perguntas, iria para o brejo sem ganhar nenhum tostão.

Mas esse nem é o caso. O que me traz a esse assunto tão intrigante, foi a entrevista que a Danielle Souza concedeu a uma coluna social do jornal O Globo, semana passada. Para quem não conhece Danielle, ela é a já famosa mulher samambaia do programa Pânico. Eu mesmo já dei varias risadas com o programa. Mas para aqueles não familiarizados, a mulher samambaia é uma ajudante de palco, desses de auditório. A única diferença para as outras que também costumam ser beldades, é o fato dela usar um biquinizinho (vale enfatizar o diminutivo) todo revestido de folhas. Os atributos de Danielle são totalmente visíveis. Seu corpo bem torneado, digo escultural, seus olhos claros, cabelos longos e morenos. Um colírio que prende a atenção de qualquer marmanjo.

Mas o fato também não é esse. O que me impressionou em suas belas curvas devidamente vestidas num vestidinho (de novo o diminutivo) foram suas belas palavras ao responder perguntas frugais da coluna. Nada muito difícil, nada que qualquer ser humano instruído saberia responder. O resultado foi uma galhofa. Fiquei impressionado com minhas risadas que seguiram a leitura de cada frase que continha na entrevista. Era de uma alienígena. De uma pessoa fora do espaço, alguém que sem querer, nasceu. Falando português. Ela poderia ser vietnamita ou de Gana. Não importa. O grau de escolaridade de suas respostas me impressionou. De dez perguntas, não conseguiu responder nove. E que desenvoltura. Cada pergunta feita era respondida com um: - “Ihhhh, não sei!”, “Nossa que pergunta difícil” ou “Podemos pular essa?”.

Ora Dani, claro que pode. Na verdade, você pode tudo. No nosso país aonde corpo é essencial. Mente pra que? Temos de ser verdadeiros com os outros e mostrar a cara do que somos. Você pode ser pedreiro, engraxate, executivo de multinacional, piloto, tradutor e outras quinhentas profissões. O que importa é ser digno com as coisas que faz. E de que se é capaz. Espera-se do ser humano o poder da sabedoria e da educação. Que ele ao viver e crescer possa absorver tudo aquilo que der, tornando-o uma pessoa melhor, para que assim, possa ajudar o mundo a viver melhor. Você não tem culpa de não saber as respostas. Ninguém te ensinou e te disseram que a valorização do seu corpo era muito superior e podia lhe render alguns frutos. Não tem como negar, você é monumental. Um colírio para metade dos cidadãos brasileiros. Mas da mesma maneira que você é um colírio, você também é uma realidade. Com um cérebro pouco exigido trouxe a tona o que nosso país tem de podre. A falta de educação. Te garanto que dezenas de milhares de cariocas se deliciaram com sua entrevista. Se divertiram, zoaram com as possibilidades perdidas por você e com a falta de massa encefálica contida no bate papo informal. Ao mesmo tempo em que traz vergonha, traz também satisfação. De uma maneira que não saberia explicar a você. Um antagonismo crônico capaz de elucidar o mais premiado dos pesquisadores.

Toda vez que passo por você Danielle, pelas bancas me dá uma vontade de te comprar e te conhecer melhor. Mas a possibilidade das respostas me afugenta, para que continue sonhando com as curvas perfeitas da minha imaginação. E enquanto isso passa, pretendo decorar as capitais e estados citados acima para não dar vexame num futuro concurso nacional.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Os Fantasmas de Mário e os Meus

De Simone Silveira



OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

(Mário Quintana em o Baú de Espantos)


Comecei a ler mais um dos livros de poesia do Mário Quintana. Baú de Espantos tem como tema central a morte e a exposição, melhor afirmando, a justaposição, de dicotomias e contrastes, como o mundo palpável e o invisível. Há poemas extraordinários como Os Degraus, O Deixador e Poema Transitório. Há uma série de outros poemas de referência à era de Camões. Os sonetos são, para mim, leitura não tão agradável e fluida como os poemas curtos, cortantes e brilhantes do Mário.

A poesia do Mário em mim é transcendental e deixa as impressões mais profundas. Fechei o Baú e os olhos. Tive um sonho absurdo com o meu falecido avô, Aristides Couto.

Aristides nasceu, criou-se e morreu em Bom Jesus do Norte, E.S. Era ferreiro e tornou-se surdo e mudo aos 24 anos devido ao som agudo das suas marteladas no ferro. Eu conheci bem os labirintos da casa velha do meu avô, bem erguida no século passado e de pé até o dia de hoje.

Todas as manhãs, era eu quem levava o seu almoço amarrado no pano de prato listrado. Ele tinha já seus 90 anos. Eu sentava lá, olhava o buraco no teto de sancas adornadas de videiras enquanto ele mastigava com a gengiva. Trocávamos umas duas ou três frases, ele, tentando ler meus lábios e falando muito alto. Após ao término da refeição, ele embrulhava o prato vazio e preto do resto do caldo de feijão e se punha a palitar os dentes invisíveis no fim da boca. Levantava-se, colocava o chapéu na cabeça e, sem muitas dificuldades, me guiava até o quintal de mangueiras e jabuticabeiras. Lá no fim daquele quintal que parecia infinito corria o rio Itabapoana.

De pé, eu me encontrei, na mesma sala de outrora, a cristaleira de vidro com os mesmos bibelôs e quinquilharias. O mesmo buraco negro de onde as lendas brotavam naquela casa. À minha volta estavam todas as minhas tias e tios já mortos (e como são tantos. Aristides e Dona Maria José tiveram treze filhos e meu pai foi o último a nascer). Os mortos falavam muito e eu só via as saias dos vestidos coloridos das mulheres. Entre elas tagarelava a Sônia, vestida em saia vermelha rodada e estampada de peónias. Sônia é lenda viva entre as irmãs Campos Couto. Ela, ainda menina, caiu da mangueira no quintal (a mesma da minha infância), aterrisou num toco de madeira e aos quinze anos morreu de tétano.

Sônia abriu a porta azul da cozinha e se pós a correr pela rua afora. Atrás dela, montado em uma bicicleta, o guardião dos mortos, uma figura magra, alta e alucinada voava entre os vivos. Eu de longe e sem medo, espiava o alvoroço, afinal eram todos, apesar de mortos, família.

Acordei às pressas, engoli uma xícara de café morno, coloquei o Báu de Espantos dentro da bolsa e fui para o dentista. Lendo o Mário no trem para Manhattan hoje pela manhã, me dei conta pela primeira vez da minha natureza de poeta. Eu olho o mundo ao meu redor e olho o mundo dentro de mim e tudo emfim se transcreve em palavras; como o mundo deve se transcrever em cores para os pintores. O texto me persegue como os fantasmas de Mário e os meus próprios.

sábado, 28 de julho de 2007

Falso Privilégio

De Bruno Vaks

Sempre que vejo uma fila, fico curioso. Pode ser fila pequena, ou fila grande. É claro que as grandes chamam mais atenção. Mas se você ver uma pequena em lugar desconhecido, terá curiosidade. Pode ter certeza. Elas despertam essa mesma sensação em outras milhares de pessoas. Algumas vezes fui até a fila para perguntar: -Que fila é essa?- OK. OK. Podem retirar daí fila de banco, porque essa você já sabe do que é, e é um saco. Você com dinheiro ou contas na mão para pagar, perdendo seu precioso tempo e olha ao redor, conta quantas pessoas ainda tem na sua frente e fica possesso quando vê o contínuo com um calhamaço de contas de uma empresa qualquer bem na sua frente. Estou excluindo daí os idosos e grávidas, que merecem uma fila especial e preferencial.

Mas as melhores de se perguntar são aquelas que surgem no meio do nada, na porta de um prédio (eu sei que no centro da cidade, isso com certeza é por busca de trabalho), na praia, na porta de um estádio, entre outros exemplos inusitados. O que importa é que as pessoas estão lá por algum motivo e, conseqüentemente desejo. Chego a um ponto delicado do ser humano, o desejo. Ele se sujeita a esperar por alguma coisa, pois essa “coisa” trará benefícios. Então fila de banco dá prazer? Fila por emprego dá prazer? Momentaneamente não.

São poucas as filas que se desejam. Uma fila para ver um show fantástico é uma hipótese. Uma outra que percebi essa semana é a fila da boate. Boate sempre tem fila. Senão tem fila, é porque não é boa. Parece restaurante badalado. Aliás, a palavra badalo já diz isso. Estava andando por uma cidadezinha balneário nesse ultimo sábado e uma fila gigantesca me chamou a atenção. Deixei meus amigos de lado, estufei o peito e mergulhei fila adentro para saber o que fazia tanta gente jovem junta atrás de uns alambrados. Fui andando até chegar na porta muvucada. Porque fila no Brasil sem muvuca na porta não é fila, é entrada para brinquedo da Disney. E lá vi o nome da boate: Privilége. Olhei para o nome e depois para fila. Em frente aos seguranças fiquei pensando: - Que privilégio essas pessoas terão?

Comecei a andar até o final da fila e fui olhando para a cara de cada pessoa que estava aguardando para ser liberada para entrar. Cada grupo com uma expressão diferente. Uns rindo de historias, outras meninas sempre se arrumando, grupos calados, meninas exaltadas e meninos tímidos. Havia de tudo. Porem o que tornava homogênea essa fila era o desejo. O desejo de se esbaldar e de se divertir, seria corretamente explicado perguntando a qualquer um. Mas vou mais a fundo. O desejo que todas lá queriam encontrar é a possibilidade de se encontrar o amor. Você deve se perguntar: - De novo o amor? – E eu respondo: - É isso mesmo. Se 90% das musicas falam disso, porque eu não. Você já pensou que todos inconscientemente estão procurando alguém na Privilége. Quando se é jovem, você acha que vai encontrar sua alma gêmea que seja no bar da boate pedindo uma tequila com mais 3 amigas. E vocês viverão um conto de fadas. Quando se é jovem, seu nível de fantasia chega a níveis estratosféricos, juntamente com o nível de testosterona (no caso dos homens). Não adianta negar, nem adianta me enganar. O desejo é o fato propulsor daquela fila. Cada uma daquelas pessoas quer amar e ser amada. Nem que seja por poucos minutos, ou por horas. Depende do seu papo. Ao invés de todos estarem com seus grupos na fila, poderia haver um recreador que fizesse essas pessoas interagirem entre si, tornando o ato da conquista mais leve e simples. Não precisaria estar aquela musica “disco dance” como se fosse a dança do acasalamento. Poderia ser algo mais puro, mais verdadeiro. Senti um pouco de alivio por não estar na fila. Fui até o final e imaginei o tempo que as ultimas pessoas iriam entrar e sua pequena angústia para terem o desejo realizado.

Mas não tiro o corpo fora e digo que eu mesmo já fui adepto dessas filas em tempos pouco antigos. Tinha o mesmo prazer que essa molecada, mas os dias passam. Te derrubam de um lado, você se ergue por outro e vai amadurecendo. O evento em si era insano, mas no final tudo era recompensado com o aprendizado. Por isso as filas ainda me fascinam. E o conselho que te dou é que preste atenção nas filas que você vai entrar e olhe para o lado na sua mesa cheia de amigos e amigas. Eles, com certeza, conhecem alguém que pode ser sua alma gêmea. E se não for, continue tentando.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

ESPANTO E CARNE DE BOI

De Aline Yasmin

Eu não como carne vermelha desde a minha tenra infância. Não sei bem como tudo começou, mas sei que aos 8 já recusava com ares de pânico qualquer bife descoberto em meu prato. Isso não foi muito fácil pra mim considerando que na década de 70, com mãe de 40 – cristã do interior – não comer carne vermelha era quase blasfêmia. Isso se agravava pelo fato de minha irmã gêmea univitelina Elian se fartar num bom fígado, o que era sempre motivo de comparações: “ - Se sua irmã come, e é igualzinha a você…”

Morávamos numa casa com muro alto em uma de suas divisas e vários gatos de rua nos visitavam enfileirados desfilando sobre ele – regularmente. Eu era o deleite da galera. Carne no almoço e no jantar para os felinos mais espertos e vorazes. E tanto fiz que consegui me libertar daquela tortura ao convencer minha genitora zelosa de que poderia comer frango e peixe e manter as qualidades nutricionais por meio de outros alimentos - sem passar por aquele sofrimento cotidiano. Com a eloquência de uma aquariana curiosa no ápice do movimento contestatório juvenil (tudo redundância) e munida de argumentos infalíveis, mantive minha dieta ideológica.

Aos 16 em visita a uma tia da roça, deparei-me com outro paradigma ao assistir de perto a morte de uma galinha, que visceralmente corria sem cabeça tentando se libertar de si mesma (pensei) pelo quintal pisoteando em titicas próprias e irmãs. Não sei se é contemporâneo, mas Freddy Krueger - personagem da cine-série Pesadelo em Elm Street e o célebre Jason de Sexta-Feira 13, épicos 80 – situados temporalmente na ocasião - pareceram-me fichinha diante daquela simpática tiazinha (não a confundam com aquela mascarada 90) com seu facão afiado e expressão serena.

A cena posterior foi ainda pior com todos abraçados e felizes – como diz minha comadre lírica Rowena – ao deliciarem-se naquele molho pardo. Eu – óbvio, branca. Volto-me aos 08 anos. Restaram os suculentos alfaces frescos, a couve refogada e o feijão mulatinho - sem culpa nenhuma. Áh, sim e um oceano inteiro de peixes e frutos do mar.

Tempo passado e cá estou numa estrada extensa a caminho do interior de uma cidade conhecida também por um famoso frigorífico. A estrada é de chão e com muitas curvas, o que me impede de cortar qualquer veículo por uma pequena extensão de 50 quilômetros aproximadamente. Curvas fechadas e comboios intermináveis. Põe-se a minha frente para meu desespero, um caminhão lotado de boi, boizinhos coitados, socados em uma carroceria. Lá deveriam ter pelo menos 20, 30 – não sei. Lembrei-me de um vídeo no YouTube – "Terráqueos". Lembrei-me também da teoria do professor Fernando Pacheco do "Homem Ecológico", na sequência, da alma sensitiva de Aristóteles, da fúria de um boi fugindo do matadouro na eminência de sua morte.

Os boizinhos tentavam se amparar – instintivamente – uns sobre os outros, a cada curva. Eu pensava na entrega. Da mercadoria e da própria entrega. Por que ainda lutam para manterem-se de pé se estão a caminho da morte?

A estrada era longa e as curvas fechadas - como já havia dito, me fizeram refletir sobre caminhos e resignações, liberdade e opções. Fez-me pensar também o rebanho de bois e vacas resignado.

Ocorreu-me Sartre que falou de liberdade, embora não tenha pensado nos bois.

Ocorre-me a humanidade, Nietzsche e sua boiada.

A buzina vizinha soa como um berrante.

Também sigo para o abatedouro. A rotina me espera: máquina de moer carne humana – diria Caê.

Tropeço, escoro-me nas curvas em paredes imaginárias, acredito na estrada e mantenho-me de pé. Tal qual os bois, tais quais humanos.

ADEUS

Por simone Couto


Bruno Vaks
falava hoje na sua última crônica postada na net sobre o grande benefício de se dizer "olá" em lugar do corriqueiro "oi". Defendia ele, o "olá" bem dito, ao se conhecer o outro.

Entre as minhas obsessões, carrego o gosto pelo saudosismo, perda, partida. Hoje pensei em todo os adeus— ditos, não ditos, dados, recebidos ao longo do meu caminho.

E se amanhã tiver eu que dizer um adeus? Como? Qual o adeus entre tantos?

“Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor...” Se eu perder este trem...”. Quem nunca derramou uma lágrima quando a voz falhou? Ou deu um aperto frio de mão quando o desejo era um abraço longo? Há o adeus que nunca foi dito. A estação vazia, o viajante parte—ele e a sua bagagem.

Há o adeus que já nasce na hora do encontro primeiro. Eles se conhecem, se entrelaçam, se dividem e já estão marcados com o adeus. Penso naquele dado a quem se ama antes da hora. A vida foi breve. O amor foi breve. A estrada mútua passa a ser de só um. Este eu ainda não vivi.

Macalé já dizia, “Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você... ” Adeus dolorido o cantado pela Gal, rasgando a alma. Este é o adeus dos amaldiçoados, dos que amam obsessivamente e não se entendem, a dor é grande demais, o cansaço é o que resta. O desejo jaz.

Há o adeus que não se quer dar, se empurra para o dia seguinte. A palavra fica ali, dissimulada, nas ligações não feitas, nas cartas não mandadas, nas horas intermináveis de espera de um sinal de vida alheio. E quando o sinal chega, é tão brando, desbotado, que o adeus já nem é necessário. O tempo se encarrega do aceno.

Para os iludidos, é necessário o adeus cara-a-cara.

Finalmente há o adeus mudo, daqueles que se calam por si mesmos em solidão plena.

Julho, 2007

sábado, 21 de julho de 2007

O Elemento Surpresa

de Simone Silveira


Ainda é possível viver no mundo de hoje sem um telefone e ainda assim sentir-se conectado com o outro?

Há três semanas atrás estava eu presente em Paraty no Festival Literário Internacional (FLIP)—fazendo oficina de crônica, assistindo palestras de autores do mundo todo, incluindo Amos Oz, um dos grandes escritores do nosso tempo, lendo para as crianças pelas manhãs na flipinha e pela noite, conhecendo gente e batendo papo regado à melhor cachaça nacional.

Em um cenário destes quem se lembrará de recarregar a bateria do celular às três, quatro, cinco da manhã? Certamente não eu. Além do mais, havia somente duas tomadas para suportar a parafernália eletrônica dos meus três companheiros de quarto de hotel—computadores, câmeras, fones, I-pods.

No segundo dia o marido reclamou:—Você não me liga, sumiu. Você é a minha mulher...” Para solucionar o problema, dei um jeitinho brasileiro, já que os orelhões da cidade, assim como os banheiros públicos se tornaram inacessíveis. Passei a usar o celular alheio, me sentindo assim meio canalha como filando o cigarro do outro. Meu marido se confortou e eu também.

Fim do festival e de volta à casa, mala desfeita, noto a falta do carregador do bendito celular. “—sumiu, sumiu lá no hotel”, anunciei. Podia ser pior, pensei, afinal no ano passado, foi a vez do celular desaparecer no vôo entre São Paulo e Nova Iorque. Quem me conhece bem deve ter pensado que o ato foi proposital. afinal, nas minhas obsessões, o medo de falar no aparelho, herdado com orgulho do meu pai Jurandir, rola através dos anos sem melhoria.

Ironicamente, minha casa da infância, na pequena cidade de Bom Jesus do Norte, no Espírito Santo, foi a primeira da rua Cândido Peralva a ter um telefone. Minha mãe era uma visionária. Acreditava no progresso. Era ela parte do “country club” local e encomendava discos do Rio de Janeiro. Assim eu cresci ouvindo a Gal Costa. Meu pai, na contra-mão, era fazendeiro negociante, fazia as contas matemáticas na cabeça, não confiava nem nas calculadoras.

O telefone tocava muito. Tocava para todo mundo na rua Cândido Peralva. “—Pode chamar a Dorinha, por favor?”, dizia voz. “— Tá. Liga de novo daqui a dez minutinhos.”, dizia aquele lá de casa que pegava o gancho primeiro. E assim, cresci sabendo da vida privada de todo o bairro.

Na adolescência, morando então no Rio de Janeiro, minha mãe resolveu colocar cadeado no telefone para evitar, segundo ela, maiores gastos e também os telefonemas de possíveis pretendentes a suas três filhas. Eu, magrela e feia, não recebia flores muito menos chamadas telefônicas. O amor chegou mesmo pela primeira vez quase lá pelos meus dezoito anos e eu não precisei do telefone. O futuro geologista morava a poucos quarteirões da minha casa na Tijuca. Minhas tardes colegiais eram preenchidas na companhia da família Filgueira, com direito a bolo de laranja e prosa com a sogra, dona de casa excelente. Pela noite, o namoro era no sofá entre as duas irmãs, ou furtivamente, sentada no meio-fio daquela vila tijucana.

Ontem estava dirigindo por uma estrada de terra batida. À frente, um caminhão de brita deixava um rastro de pedras caídas. Pensei que a minha vida sem celular durante os últimos dias tem sido um pouco assim. Eu não ligo antes para os lugares, apareço no mercado e pergunto se lá se vende sementes de grama. Holly Bellebueno, uma amiga, resolve me visitar pois não respondo às suas mensagens acumulando-se na minha caixa postal (o recarredor encomendado na semana passada ainda não chegou). Tomamos limonada fresca e falamos de literatura. Eu retribuo sua visita com outra inesperada.

Tenho surpreendido e tenho sido surpreendia pelo outro. Meus dias acontecem como aquelas pedras que caem aleatórias pelo caminho.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

PAN’ES ET CIRCENSES

PAN’ES ET CIRCENSES
De Aline Yasmin

Desde que deixei as obrigações publicitárias que me obrigavam a acompanhar o conteúdo televisivo para entender o direcionamento da mídia de massa, não tenho mais o hábito de ter como off um áudio da programação em minha rotina. Assim, a qualquer sinal de desocupação, ocupo-me com pilhas de livros que me esperam silenciosas na cabeceira da cama – diariamente.

Não reconheço a nova geração de atores ou a programação atual e fico completamente alheia a nomes de novelas ou jargões eventuais lançados pelo eletrônico caleidoscópio RGB. Sendo assim foi totalmente por acaso que minha televisão estava ligada e mais acaso ainda - eu estar em casa, quando uma sinapse – reflexo de memória remota – trouxe súbito a trilha do plantão da telinha que gritava na sala para os ouvidos atentos dos meninos em férias.
Bem, ruído de plantão é aquele acompanhado de intuição ruim. Sabe-se infelizmente que na maioria das vezes o assunto pode ser bom para audiência, mas não faz bem às almas mais sensíveis.

Despertei-me do transe literário e quase instantaneamente apossei-me de uma curiosidade infantil ao pular da cama para o sofá da sala ao ouvir a notícia que viria.

O telefone toca e o vizinho quer saber se tenho açúcar para emprestar.

_ Não…! Sabe que não tenho açúcar em casa?! Penso na minha prepotência em querer doutrinar as pessoas ao usar discursos contra a velha cana refinada e que preciso entrar em forma mesmo não comendo açúcar, o que é inevitável ao olhar para os corpos sarados expostos no Pan.

Na TV o apresentador parece meio assustado, com olhos arregalados. Imagens alternadas e confusas mostram rastros de fogo. A cobertura é ao vivo e ele tenta articular uma conversa com o repórter local para entender a situação. Pane no áudio. Ele avisa que volta mais tarde para maiores detalhes sobre a tragédia com o vôo 3054 da TAM em São Paulo. Fala de um incêndio no aeroporto do Rio e uma voz apressada na sala, sentencia: “

- …terrorismo, quer ver?!”.

Entra uma imagem flamulante - azul, verde e amarela. Atletas cantam o hino nacional. – “Hoje foi um festival de hino brasileiro” - conta feliz a repórter rente ao pódio. O vencedor levanta a medalha e a beija. A platéia agradece feliz por seu empenho. Lá, todos se orgulham ser brasileiros.

O estúdio volta e anuncia a tragédia. “- Não se sabe ainda quantos são”- estão ao vivo – “As pessoas certamente estão mortas”, anuncia o repórter via satélite. Não é possível prever. - Ao vivo - meu pensamento se agoniza impotente. O fogo aumenta. Lá, também há aglomeração. Não há rostos felizes. As cores: matizes azuis e vermelhas flamejantes misturadas ao chumbo.

Piscina. O jovem nadador chega na frente. Seu corpo desliza sobre a água para alcançar a vitória. A água da piscina é azul, fluída e refrescante com fluxo contínuo longitudinal.

A cena volta a alcançar o prédio, a avenida imensa e as casas do entorno. Meus olhos se fixam atônitos. Mais uma vez, simultânea a câmera capta a imagem da água de uma plástica composta. Essa é espessa, ávida e se distribui em leque tentando alcançar 360 graus.

Fico pálida ao pensar novamente que estamos ao vivo. Essa imagem me apavora. Mais ainda, de não saber se eles estão vivos. E se agora - enquanto assistimos - eles ainda estiverem lutando? Assistimos ao vivo seus óbitos? Quase posso ouvir a dor. As imagens se multiplicam. A cobertura é completa. Eles estão em todos os lugares. Buscam as famílias, os passantes, os vizinhos, a moça do táxi quase atingido, o motorista, uma voz distorcida do piloto solidário querendo dar sua versão – incógnito. Temos uma visão de cima, de todos os lados e ainda uma projeção espacial forçando um laudo ou explicando uma possível pane.

Intervalo. Os comerciais são de uma beleza irretocável. Quase me esqueço que estou triste.

Também sinto dor agora.

Tenho certeza que não conheço qualquer pessoa naquele vôo. Também não conheço Porto Alegre, portanto minha relação de afeto específica não existe. O que existe é a dimensão humana. Da ética - solidária – o que me remete ao filósofo medieval Agostinho, quando penso no amor universal. Acredito nele, tanto quanto no particular. Lembro-me de ter respondido sobre isso ao meu professor de Ética - Delboni.

A moça de sorriso emblemático volta com seu uniforme cinza e amarelo. Ela está feliz com os resultados do Brasil e precisa comunicar. Convida a mãe para a entrevista que grita pela vitória do filho e admite - rouca - que com um pouco de gengibre recupera a voz para o dia seguinte.

A torcida grita enfurecida. Os oponentes perderam. Alguns choram. O ginásio está lotado.

A avenida interditada abriga curiosos. O circo pega fogo. A cidade está em silêncio e espera – é o que dizem.

A TV tem pressa e procura pelos mortos.

Os anunciantes agradecem.

Eu assisto aflita. O silêncio e a torcida.

Outros tantos milhões pedem pão e circo nessa arena romana. - PANEM ET CIRCENSES !, gritam.

A TV - sacia.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Memória anunciada

De Bruno Vaks


Outro dia, não muito tempo atrás, estava esperando o elevador para uma consulta médica quando me deparei com um cartaz de aviso. Ao lado da porta do elevador, havia um quadro de avisos e informações sobre saúde, já que estava num prédio de consultórios e exames. Me chamou a atenção a divulgação de uma palestra que ia ser ministrada não sei quando mas o tema era interessante. Li aquilo junto com o ponto de interrogação que vinha ao lado: “Se Deus é amor, porque sofremos tanto?”. Fui para minha consulta e fiquei com essa frase na cabeça. Continuei com a vida e ontem ela me retornou com força total.

Colidiu com a sensação de impotência que sofri quando vi na televisão, a extensa cobertura sobre a queda de um avião super lotado em São Paulo. Estava num lugar aonde só passavam imagens, mas não som. Fiquei tentando decifrar o que os repórteres diziam nas poucas vezes que apareciam, e isso me agoniava. Sabia que era em São Paulo porque muitas vezes passei por lá. Um amigo meu mora naquela direção. Tenho uma relação complacente com São Paulo, por tudo que vivi por lá numa época não tão remota. Só fui saber da tragédia, realmente em casa quando soube dos mais de duzentos passageiros vindos de Porto Alegre. Cidade que também tenho uma relação de amor e raiva, mais amor diga-se de passagem, por tudo que vivi por lá num passado também não tão remoto (mas vamos deixar esse assunto para uma outra oportunidade). Me identifiquei com todos os sotaques que estavam presentes aquele avião.

Veio a minha cabeça as sensações que todas aquelas pessoas passaram em poucos segundos de vida. Tirando os solavancos de turbulência alheias, tudo estava na perfeita harmonia. De repente, sei lá se foi erro humano, erro técnico, erro político, não quero entrar nesta alçada porque minha onda não é essa, BUM. Já tem bastante gente criticando e que entende do assunto bem mais do que eu. Quero somente visualizar suas ultimas sensações, seus últimos sentimentos e seus últimos amores. Amores que nesse momento foram despedaçados e esvaziados repentinamente pela tragédia. Sempre imaginamos o avião despencando milhares de metros sem controle, as pessoas gritando sem parar, desesperadas, com máscaras de oxigênio aparecendo, prontas para o pior, mas ainda com o pensamento nos entes queridos, nas coisas boas que já fizeram, nas coisas que ainda pretendiam fazer, no beijo que deixaram de dar e do sorriso que passou batido para a morena estonteante.

Na terça-feira não foi assim. Estavam praticamente no solo paulistano quando tudo aconteceu. Imagino que não tiveram tempo de pensar em nada, simplesmente sumiram. A escuridão veio à tona. Aí veio um pensamento meu: Será que essas pessoas sofreram muito? Não pensem que estou mórbido não! Se elas não sofreram tanto, ou não sofreram, Deus foi conivente. Todas eram amadas por ele, segundo o tema da palestra naquele centro médico. Ele foi amor à vida inteira para essas pessoas, porque no momento final não sofreram (-quero enfatizar que isso é simplesmente uma hipótese, ok?). Será que muitos desses estavam apaixonados pela vida, por suas mulheres, seus homens, seus filhos? Acredito que sim. Não vou relevar que também teriam pessoas tristes por lá. Isso é bem possível de acontecer. Mas se Deus é amor, É luz, É a redenção como dizem? Buscamos nele o conforto, o bem estar. Espero que ele tenha sido bondoso com essas pessoas ao longo do tempo de vida delas. Espero que elas tenham aproveitado o máximo, os pôres do sol, os espetos corridos, os chimarrões e o “lagartear” no Brique. Da mesma forma, que os outros possam ter aproveitado as macarronadas do Bexiga, os trânsitos caóticos no final de tarde, o pôr do sol enfumaçado e a diversidade de seus habitantes, nascidos lá ou não.

Não tenho idéia de como encarar a morte, se com um simples “olá, chegou a minha hora” ou até um “Você por aqui?”. E nem sei como essas pessoas que sumiram ontem sabiam. Mas quero ter a certeza que o amor que elas sentiam, foi o mesmo que eu senti quando me apaixonei pela primeira vez, quando um sorriso me muda o astral, ou quando o sol se põe sobre o morro perto da minha casa. Quero que elas descansem em paz, e me solidarizo com suas famílias, num horror jamais imaginado, mas sofrido. Gostaríamos que isso não acontecesse nunca mais, como outras milhares de coisas que acontecem diariamente.

Por isso não participei da palestra e discordo da pergunta feita pelo possível palestrante. Deus não é amor. Eu nem sei lá o que é deus. Nem sei bem porque as coisas acontecem, porque estamos bem e outra hora estamos mal. Mas temos que seguir em frente. Drummond disse que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Ok? Para muitos isso é bastante plausível. Para outros, o sofrimento também é inevitável para o crescimento, para você conhecer o amor, para você conhecer a vida. Pena que seja assim o andar da carruagem. Resignado, me despeço com um grito silencioso para aqueles que viveram o amor, que viveram suas vidas e que naquele começo de noite não sofreram.