sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Exame Benigno em rede nacional

De Bruno Vaks

Aperto o botão para começar, checo o tênis, ajeito a meia e começo a trotar aumentando a velocidade para chegar num nível que agüente o ritmo. Com o fone plugado no aparelho de ultima geração, passo os canais até encontrar algo digno para minha corrida vespertina. Como estou a fim de correr. Paro num canal da TV a cabo onde passava um programa de entrevista americano muito famoso. O programa da Oprah.

Para aqueles que não conhecem (muito poucos acredito eu), esse programa de auditório fala de tudo. Tem sempre uma platéia linda de anônimas americanas beirando os 35 anos, discutindo os mais diferentes temas. O de hoje, para minha alegria (ou quem sabe tristeza), tratava da historia de um homem que iria fazer uma colonoscopia. Para aqueles que não sabem, esse exame é preventivo para a descoberta de câncer no colon. Muitas pessoas morrem deste câncer, muitas vezes letal. Não tenho estatísticas aqui comigo, que reflitam essa minha afirmação, mas me parece um caso sério e que deveria ser exposto sim a grande massa. Sendo a Oprah, uma enorme comunicadora de massa, é só juntar os pontos.

O fato em si que causou estranhamento foi todo o processo a ser desenrolado no programa. Algo impensável ate em um país de primeiro mundo. Primeiro a historia triste, do medo de se fazer esse exame. Caso não saibam, a colonoscopia consiste em um tubo mecânico/robótico que filma todo o colon e intestinos a procura de pólipos malignos que possam prejudicar o ser humano. Ele é introduzido pelo ânus da pessoa e de fora, olhando para uma telinha, o medico realiza o exame, tira pedaço para biopsia e por ai vai. Calma gente, isso tudo passou no programa de TV. Eu ainda não fiz ate o momento.

Pois bem, continuando no programa, mostra esse homem cujo irmão faleceu de câncer, tomando a decisão de fazer também o exame. Ate ai tudo bem. Aí que entra a idealização absurda desses programas de massa. Vemos o homem, arrumando a mala, se despedindo da família, com ar tenso, musica tensa ao fundo. De repente, corta para ele dentro de um avião indo para Nova York fazer o exame. Mostram a marca da companhia aérea e o avião aterrissando. Corta novamente e estamos num quarto belíssimo de hotel aonde o paciente irar repousar para o exame. Corta de novo (quanto corte!) e ele aparece com um vidro de laxante de 500 ml. Ele explica que tem que beber 100 ml a cada dez minutos. Nesse ínterim, quem liga? O medico da Oprah, perguntando como ele está, que ele é muito corajoso, que o pior já passou, Bla bla Bla! Surpreendente o medico ligando para o paciente e acalmando. Igualzinho aqui. A cena chega ao fim, com o homem reclamando que o intestino está preparando algo e para terminar, uma brincadeirinha ao lado da privada, onde ele diz:

-Essa será minha melhor amiga da noite.

Ate agora que saga. Mas ainda não chegou ao fim. No próximo bloco, vemos ele sendo sedado e a operação em si. Não passaram a hora que inserem o objeto no anus dele. O exame é um sucesso, a retirada de pólipos é realizada e o anuncio que o resultado fora negativo é recebido por uma salva de palmas pelos presentes no auditório com o sorriso mais branco e lindo do mundo.

E eu lá correndo, suando, nem sequer olhei há quantos tinha caminhado. Aquela cena me deixou extremamente intrigado com a medida utilizada pelo programa. Ao mesmo tempo de uma forma surreal, eles mostram um exame que tem que ser difundido pelas pessoas de menor renda e menor grau de instrução, como uma oportunidade da pessoa ir a outro estado conhecer a cidade, realizar o exame e aparecer na TV. Seus quinze minutos de fama e não precisa passar três meses confinado numa casa. Fico pensando se as pessoas vão achar que será assim o tratamento. Deveria ter uma legenda explicando que aquilo era meramente ilustrativo sendo utilizado somente pelas classes abastadas da sociedade.

Retomemos o caso para o Brasil, enquanto limpo suor da testa. Tirando meia dúzia de pessoas, o resto da população vai ter que enfrentar longas filas, esperar por um bom tempo, se desvencilhar da maquina burocrática. Depois disso tudo, fazer o exame quando o hospital realizar, senão por conta própria tem de procurar o hospital mais próximo, às vezes a centenas de quilômetros de sua casa para fazer. Ate á surgiu uma nova doença que não foi tratada, um acidente que poderia ser evitado, ou mesmo a falta de oportunidade, pois precisaram trabalhar do que cuidar de si.

Voltando o caso para a América, sai da esteira confiante que a grande parcela dos telespectadores saiu daquela segunda feira à noite, quando passa o programa, mas consciente do poder destrutivo que o câncer pode lhe fazer, e desmistificando o fato do exame ser uma negação a virilidade masculina. Sendo a coragem daquele homem que mostrou seu intestino para milhões de pessoas uma dádiva, mas ganhando um jabazinho para efetuar aquilo tudo. Daqui a pouco ele aparece na Ilha de Caras.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

para nós, os amaldiçoados

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

O Outro, Composição: Adriana Calcanhotto / Mário de Sá-Carneiro


Acordei pensando em Sintra, Portugal, nas ruínas de seu castelo anciente. Meus pés ainda se lembram das subidas e descidas de degraus infinitos, passando pela sua única entrada, uma porta pequenina de pedra. A caminhada era através de uma estrada estreita de terra batida até à escadaria à beira da parede. Cada degrau, só mais uma pedra, mas parte essencial do todo, como somos todos, indivíduos invisíveis, elos da sociedade. Do alto do Castelo dos Mouros há de se perder a respiração em êxtase pelo verde e o infinito—liberdade—um mundo belo à frente das retinas. Como toda ruína no alto de um morro, os dias gloriosos ficaram perdidos no tempo. Já não há paredes, os mosaicos decorativos nela, o teto.. Há só o esboço do sido. Um esboço de pé ainda para não esquecer e ser esquecido.

Recentemente assisti uma peça escocesa baseada em entrevistas verídicas sobre a atuação do batalhão do exército "Black Watch" na guerra do Iraque. Toda civilização tem suas guerras e eventualmente depara-se com a própria decadência. Como sempre em história, século após século, meninos viram homens antes do tempo, com armas na mão. No palco do teatro Saint Ann's Warehouse, em Brooklyn, NY, oito deles aprendem a lição, entre ondas de medo e coragem, morte e sonhos. O general da tropa confessa, "somos todos amaldiçoados, na escolha, na falta de opção carregada no sangue, herdada dos pais que herdaram dos avós, por isto viramos soldados." Estes meninos—homens não sabem a razão por estarem em meio de uma guerra (assim como os meninos-soldados filhos das favelas brasileiras). É tudo tradição. Os meninos-soldados não defendem o próprio território, invadem o próximo. Sentam sob o calor escaldante do Oriente Médio à espera de um outro menino, o menino-bomba.

Como artista, eu sou amaldiçoada também. Mais cedo ou mais tarde, seremos todos sacrificados. A minha arte não me defende e sim invade o espaço do outro e perturba o conforto alheio. O artista cria para se salvar, se curar e devolver ao ambiente um cidadão melhor.

Tenho tanta coisa linda pra falar, pra mostrar, há beleza em mim certamente. Entretanto, se tenho que falar do belo, não sei escrever. Escrevo mal. Esqueço. Quem escreve sabe. O artista quer tudo aquilo que não está terminado. Só o esboço lhe interessa. Um mundo belo é um mundo acabado. Há os poemas perfeitos que nascem aleatoriamente. São magníficos mas caem em esquecimento. Estes nascem no momento da ação que o inspira. Todo poeta já vivenciou estar distraído e ver o poema surgir do nada, ditado pela própria voz muda de dentro de si. Por estar distraído, o poeta ouve os versos, mas minutos depois não pode lembrá-los. Este poema é o poema belo. Todos os outros, são frutos do trabalho, do artista artesão, que trabalha na forma, no som, na linguagem, frutos de um ambiente imperfeito. O artista cria através do exercício da doação, da exposição. Não estão distraídos e assim podem se colocar na linha de fogo. Podem ser sacrificados. Revelar um mundo exterior imperfeito para transformá-lo pode ser crime. Revelar o mundo interior do homem, também.

Sim, nós, os artistas, como eles, os meninos soldados, somos amaldiçoados. Nós, os invisíveis, enxergamos este mundo em ruínas e queremos paz, queremos o verde infinito visto do alto do morro. Existirá enfim esta possibilidade, para nós, os amaldiçoados?

Por Simone Couto

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Um Belo Retrato

Por Simone Couto

É fácil retratar o corpo, transformá-lo em um belo retrato. Difícil é desenhar a alma do outro. Há de se ter permissão e raramente quando ela é concedida. Na maior parte do tempo, ao obtê-la, o artista não falha em se envolver e decifrar os mapas invisíveis da alma. Exige tempo e o desejo de abraçar o invisível, o não palpável, aquilo que não é obvio. Para desenhar a alma alheia, há se despir também, deixar para trás a couraça feita de velhos hábitos, de amores routineiros, causas passadas. O desconhecido assusta enquanto que o familiar conforta. Agora, quando o artista desisti e comete um ato falho, qual alma estará o artista traindo? A do outro ou a própria?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

42nd Street

Por Simone Couto

Estava a caminho do Fashion District em Mahattan à procura de fitas coloridas. No trem me perdi lendo sobre as chamas lambendo o Estado da Califórnia. O trem diminuiu a velocidade. Na próxima estação, a 42nd Street, eu desceria. Guardei o jornal lido pela metade. Trem quase inerte. Me levantei e caminhei rumo à porta. Um rapaz jovem sentado à minha frente me olhou. Olhar de surpresa e despontamento. Tinha um caderno e lápis na mão. Furtivamente, mirei o papel daquele estranho. Então a imagem rabiscada se traduziu em familiaridade. Vi meu rosto, meus cabelos soltos, meu perfil agudo. Era eu. Era eu ali. Clara. Ele me rabiscou três vezes. De frente, de lado. Aquele homem me desenhou e eu nem notei. Ando dispersa por estes dias, bem sei. Ele me notou quando eu mesma não me notava. Um dia me disseram ser eu uma musa inspiradora. Não era mas escolhi acreditar. Sempre se sofre desmedidamente quando enganado. Há enganos que escolhemos para agradar à alma vaidosa. São enganos feitos de temporaneidade. Como água que mais cedo ou mais tarde sempre evapora. Até esta manhã, de verdade, nunca servi de inspiração para ninguém. Para mim mesma, talvez, jamais para o outro. Comigo sou honesta. Breve. Dura. Ora me inspiro nos confusos labirintos que crio a todo tempo para ter alegria, ora na saudade e tristeza sem lógica, ambas tatuadas em minhas entranhas, ora nas minhas obsessões carnais e outras mais da alma. Mas hoje, hoje eu fui verdadeiramente uma musa. Ninguém me contou. Eu vi.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Dumbo NYC

Por Simone Couto

Dumbo is crepuscular—Bricks, dormant train tracks, graffiti—art crime on the walls. Inside of lofts, studios, we are under construction, so is Dumbo. But not today, not today, not today. I see the sunset—the rain getting closer and closer, bringing me the midnight blue sky. East Side Highway without traffic. Brooklyn Bridge without traffic. Latent. At this moment, no gorgeous model( they never smile) is being photographed. No movie is being filmed. Today, the streets belong to us, the wolves, always ready to devour the unknown. We are nameless. The river belongs to us, the underground lovers (nameless still. Still). The river is quiet, the sage green river... Tedious Wednesday. The trains never stop running—neighborhood's heart. Dumbo is loud, so loud that one becomes quiet in his core. My core is all silence. Right now, 5:19 p.m., dark autumn skies. My gloomy soul rests while Dumbo pulses. Good Night, restless souls.

domingo, 21 de outubro de 2007

Tropa e Elite

Por Aline Yasmin


Dois assuntos têm permeado a massa nos últimos dias e mesmo que distintos ambos perpassam a mesma temática: a violência.

Um gira em torno do filme Tropa de Elite do diretor José Padilha e o outro, de um artigo do apresentador Luciano Huck sobre o assalto sofrido.

Num olhar mais aprofundado podemos destacar que a discussão é o que emerge de uma situação ainda mais complexa que é a desigualdade social e suas representatividades.

Simultaneamente temos a palavra "elite" posta em dois planos antagônicos. De um lado, heróico, de outro culpado. A questão aqui não é julgar e tampouco condenar um ao outro, mas provocar uma reflexão sobre a medida de valores em que a sociedade se interpela.

Somos todos reféns. Talvez esse seja um fato. Ricos ou pobres. Estamos reféns de nossos próprios valores e da distorção a que estamos expostos.

O batalhão do BOPE – polícia de elite – é mocinho, mas utiliza-se de meios ainda mais violentos para reduzir a violência – física e moral, inseridas inclusive na própria estrutura institucional. A população aplaude em sua maioria, as crianças cantam suas musiquinhas ..." pega um, pega geral..." em coro e a estética cinematográfica é "cult", quase digna de indicação ao Oscar.


A elite do mauricinho é alienada e opressora, ícone da desigualdade. O bandido é a vítima. Não estamos propondo cultuar o malfadado objeto Rolex, nem dar voz ao excessivo valor material da massacrante sociedade de consumo da qual também somos reféns – obviamente referenciais do desnível social e muito menos em menos tirar o êxito da "exemplar" corporação.


A reflexão é sobre o que está sendo discutido e o que estamos cultuando enquanto valores referenciais que passam a justificar os meios pelos fins. Talvez seja propor um pensamento onde a tendência não seja balizar-se na dualidade maniqueísta separando realidades entre o bem e o mal, mas um pensamento onde haja matizes, nuances que possibilitem isolar condutas e não simplesmente entrar no jogo cartesiano de enxergar as extremidades num plano meramente linear.


Nem toda classe média financia o tráfico, nem todo rico é alienado, nem todo pobre é ladrão, nem todo ladrão é vítima – ou o contrário. Separar o jogo do trigo não é estabelecer paradigmas libertadores ou dogmáticos.


É necessário estabelecer uma crítica, ao invés de procurarmos bandidos ou mocinhos. É necessário – sim - formarmos massa pensante, consciência crítica para buscarmos juntos, um diálogo: pobres, ricos, aviltados, violentados e violentos – uma nova elite – tropa social desalienada – da matéria e de discursos viciados.

sábado, 20 de outubro de 2007

Brasil, il, il, il

De Bruno Vaks

Está bom. Todos sabem que futebol é coisa para entendido, mas todo mundo dá pitaco. Até os mais desinformados. Escrevo assim para não ganhar nenhuma ofensa vinda dos meus três leitores (Obrigado Sim e Aya, o outro ainda é desconhecido). Mas o fato é que quero dissertar – esse é o verbo – sobre o jogo do Brasil que ocorreu ontem (dia 17/10) no Maracanã. Após sete anos de televisão, a equipe milionária brasileira veio fazer um espetáculo aqui no Rio.

Tenho que dar parabéns à ordem e a civilidade, menos no Metro, diga-se de passagem, que encontrei ao longo das 3 horas que passei por lá. Tirando a goleada e as jogadas bonitas, posso garantir que foi um jogo para lá de burocrático. Muitos erros, muitas afobações, muitas bolas perdidas, mas esse não é o fato que irá preencher essa crônica hoje. Não as jogadas, os dribles e os gols, mas sim ao que eu chamo de hipocrisia do brasileiro.

Também não vou citar nenhum filosofo francês ou alemão para repetir suas palavras sobre o ambiente, mas vou evocar a extensa cultura carioca de ser, que cultivamos há anos e anos. Achei chôxo (se escreve assim?), sem sal e um pouco desanimado o jogo da “família brasileira” como muitos falaram. Já reparou que ninguém fica gritando Brasil, Brasil o tempo inteiro? Quando uma bola batia na trave cantava-se Brasil duas vezes, e todos calados novamente. Enquanto isso um lado da arquibancada começa a cantar gritos de guerra do Flamengo enquanto o outro lado grita hinos do Vasco. Ora se é um jogo nacional, porque cargas d’agua a mesma torcida fica se provocando? Hipocrisia um.

Outro fator que não me comove é esse sentimento falso de patriotismo exacerbado. Explico, calma. Confesso que até hoje me emociono com o hino brasileiro por suas palavras bonitas e complicadas que muitos que o cantam enrolam-se com palavras imaginárias ou enrolam até chegar no refrão. Eu já fui um desses e até hoje cometo gafes. Mas não consigo cantar de jeito nenhum aquela cantiga criada por algum publicitário como eu, dizendo: Eu sou brasileeeiiiro, com muito orgulho, com muito amor. É intragável. Concordo que muito amor tenho pelo Brasil, agora dizer que sou orgulhoso é omitir tudo que se passa nesse país e com a sucessão de acontecimentos que vamos deixando para trás. Orgulho de ter um país corrupto, ingrato e com desigualdade social? Peraí, essa é uma hipocrisia camuflada que todos cantarolaram sem um mínimo de culpa, por isso essa é a dois.

Mas como todos, acredito eu, me divirto com os comentários que escuto de outros torcedores, vindos do lado, da frente e de trás. Preste atenção, tem tanto comediante que é capaz de você passar o jogo inteiro rindo. Claro, se o seu time estiver ganhando. Mas chega a ser engraçado que mesmo depois de execrar o tal jogador, quando ele faz gol continuam falando mal e às vezes o fazem por puro orgulho. Orgulho de ser brasileiro como dizia a musica? O que não consigo entender é a relação de amor e ódio que as pessoas tem em relação a alguns jogadores. Como aos dez minutos do primeiro tempo você pode odiar o tal jogador pedindo a cabeça dele, da mãe e do papagaio e aos doze minutos quando ele mete um gol você declama poemas e juras de amor ao mesmo cabeça de bagre que você xingou? Isso me cheira a mentirinha do tempo da escola para esconder da professora porque você chegou atrasado do recreio. Não consigo achar outra palavra a não ser hipocrisia o que ocorre. Está ai a numero três.

Vocês devem estar pensando que vou enumerar ate dez, as melhores hipocrisias cariocas num jogo de futebol. Não vou não. Três está de bom tamanho. Isso tudo foi escrito até agora para que eu possa demonstrar a tamanha felicidade em dizer em bom e alto tom que a musica que foi mais comemorada no jogo do Brasil, tirando a comemoração do gol com a jogada fantástica do Robinho, foi a musica para o Galvão Bueno. Acho que nunca num estádio, vi tanta gente pulando de alegria e satisfação num grito de guerra que manda o locutor mais odiado e amado da Globo tomar naquele lugar. Os pulos de felicidade aí sim eram legítimos. A rapidez com que a musica fluiu também foi assustador. Queria eu estar na cabine para ver a cara do sujeito. Isso sim é a irreverência carioca, isso sim mostra a cara do povo e daquilo que ele não quer. Isso sim não é nada hipócrita.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Santa Teresa por ele

Por Simone Couto

Homem não chora. Quem chora é ela, Santa Teresa. Eu vi. Chorou minutos antes de você chegar.

Eu me arrumei todo. Olha que não sou de vaidade. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria te encontrar com a cara limpa. Não coloquei brilhantina no cabelo, não usei meu terno branco. Aparei de leve a barba. Me enchi de esperança.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a consulta das 11:00 horas com o dentista, despachei a empregada e dei-lhe uma gorjeta generosa. Desci e fui até a esquina. Comprei um maço de cigarros. De volta à casa, dispus o pacote e o coloquei na mesa ao lado da cama. Antes de tomar um banho, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

“A primavera é uma dama tímida”, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar escassas flores de um rosa pálido nos galhos das árvores. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Fui generoso novamente na segunda gorjeta do dia.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro, o mesmo de meses antes, onde nos apoiamos entre uma banda carnavalesca e um beijo perdido na multidão. 19:20, ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Acendi um cigarro.

Teresa chorando você não viu assim como a minha alegria desfalecendo. O porvir foi assim, eu te conto: dose de cachaça descendo quente pela garganta, o pandeiro tocando desafinado, "você manhã de tudo meu, você que cedo entardeceu, Você de quem a vida eu sou, E sem mais eu serei... Você um beijo bom de sal, você de cada tarde vã, Virá sorrindo, de manhã..."

O músico passou o chapéu. Desta vez fui miserável. Paguei a conta. Caminhei rua abaixo por entre os trilhos. Matutei com os meus botões, ô mulher ingrata. Vá pro diabo que te carregue.

Santa Teresa Por ela


Por Simone Couto

Eu chorei você não viu. Também não compreenderia.

Eu me aprontei toda. Pensei em colocar a minha melhor roupa e acabei mudando de idéia. Queria te encontrar como realmente sou. Não prendi meus cabelos, não usei batom vermelho. Me preenchi de coragem.

O que fiz foi esvaziar a mente. Desmarquei a reunião das 11:00 horas com um cliente, liberei a empregada. Fui até a esquina. Comprei um ramalhete de dálias alaranjadas. De volta à casa, dispus uma por uma no vaso e o coloquei na mesa ao lado da cama. As dálias dividiram em harmonia o espaço com a edição antiga de Madame Bovary. Antes de tomar um banho e me preparar, telefonei para o taxi e pedi que me pegasse às 19:00 horas. “Não posso me atrasar, por favor informe ao motorista,” eu disse à telefonista da agência de taxi.

O mar é traiçoeiro, pensei ao passar pelo o Aterro do Flamengo e ao avistar árvores crescendo em solo frágil. Seguimos. As ruas estreitas e as curvas do morro surgiam aos poucos. Aquilo tudo era uma visão familiar. O taxi parou. Paguei o que devia. Desci.

Pisei em Santa Teresa e as primeiras gotas de chuva, quase invisíveis, molharam a linha do bonde, os paralelepípedos disformes, as buganvílias agarradas no muro, o mesmo de meses antes, onde nos apoiamos entre uma banda carnavalesca e um beijo perdido na multidão. 19:20. ainda tenho dez minutos. Que fazer com estes dez minutos? Quis acender um cigarro mas não tinha fósforo.

Meu choro você não ouviu. Derramei umas poucas lágrimas. O porvir foi assim, eu te conto: Sentei-me no meio-fio, tirei um livro de Freud de dentro da bolsa. O abri em uma página qualquer. Li: Quando amam não desejam; e quando desejam, não podem amar. (Cap. IV, II,2).

Meses sem noticias e agora ele quer me ver? Desci a ladeira caminhando com passos tortos por entre os trilhos. Todo caso de amor fulminante, mais cedo ou mais tarde passa, suspirei aliviada. Cinzas, só as da quarta-feira.


domingo, 14 de outubro de 2007

Os Iluminados Efêmeros do Soleil
(dedicado especialmente à atriz Juliana Carneiro da Cunha)

Por Aline Yasmin


Depois do espetáculo eu e Caê – embora exaustos – não conseguíamos dormir e ainda que precisássemos acordar cedo para o primeiro vôo, procuramos um canto onde pudéssemos transbordar todos os pensamentos que nos contornavam. Estávamos embebidos de imagens e referências pessoais. Era preciso falar delas.

O ir e vir mental foi um deslocamento inevitável até aqueles instantes onde tudo nos pareceu sublime. Sublime no sentido dor. O belo e o sublime se divergem nesse sentido – e o último nos parece mais tocante. Talvez pudesse dizer que seja uma superação. É mais.

Os efêmeros estavam em todos os lugares. Não há como ignorar (plagiando a grande diretora Ariane Mnouchkine) também a sua platéia. Notáveis e anônimos que se viveram durante longo tempo, compartilhando sentimentos e olhares, tais quais cúmplices desta história – fomos uma massa entrelaçada e orquestrada magistralmente pelos iluminados atores do Soleil. Também fomos efêmeros. Choramos e rimos juntos – fomos únicos e não somos mais. Fomos conjunto cena – platéia – arquibancadas – aromas - texturas - sabores - água.

O espetáculo é tudo. Impressiona-me não somente as personagens e histórias construídas, mas a concisão de tudo que nos circunda. Impressiona-me o ator que limpa o chão com a mesma dignidade com que entra em cena, o olhar daqueles que movem as estruturas - quase como extensão cenográfica (mas ao mesmo tempo absolutamente incógnitos), a atenção do grande regente a cada gesto, a sincronicidade das cenas, a leveza e a densidade e o virtuoso processo – que mais podemos chamar de generoso – em nos proporcionar o contato mais profundo com o que chamamos humano. Fomos Humanos aos nos depararmos com a fragilidade do que somos, ao tocarmos de perto fragmentos de nossas vidas. Nos identificamos ao certo com tantos e é isso que universaliza nossa particularidade: a solidão, a fome, a espera, o desejo e a memória.

O vôo chegou na hora prevista em Vitória. Ao chegar em casa, dormi. Sonhei com Os Efêmeros. Os frequentei tanto quanto os fizeram em mim. Revisitei palavras – em francês, língua adormecida que sorvi como o delicioso iogurte - dialoguei com alguns e a outros acariciei. Compreendi a imensidão de nossa finitude e que para ela nem precisariam palavras. Bastaria a dignidade de Sandra, a busca de Jeanne, o altruismo de Manon, a superação de Gaëlle, o olhar da Perle e o gesto da Nelly, diante de tantos outros gestos como linguagem e significação – sinais de nossa vã existência – sem os quais nada representaria.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CARTA ENTRE AMIGOS
por Aline Yasmin

... Ontem engoli água do mar... foi bom. Por mais engasgante que tenha sido, foi bom. Revivi sensações de moleque quando eu me jogava no mar e acabava engolindo muita água, muitos caldos... tenho revivido sensações de adolescência de infância. Acho que sou mais feliz hoje do que sempre fui. Eu quando moleque achava o mundo muito estranho. Hoje, acho-o mais estranho ainda, mas aprendi a amar essa esquisitice. Porém, minhas sensações mais profundas, que partem de cheiros e gostos, seja da chuva na grama, seja a amora da árvore, me remetem a sensações muito puras, porém, já sentidas... Aí eu tenho a impressão carnal de que já vivi todas as novidades sentimentais possíveis. Apesar de me sentir num momento incrível de relação com a pulsão do existir, tenho a impressão de que as coisas sentidas, já foram sentidas... Aí li um conto meu escrito há algum tempo e lá, um personagem expressa uma sensação minha: as nossas sensações de adultos, são reverberações das sensações vividas na infância e na adolescência ou há muita novidade de sensações??? Talvez ter filho (como você teve) traga novas sensações. É isso?

A meu amigo sobre sensações

Sabe, o filósofo grego Platão - de quem ultimamente tenho gostado muito, diria que existem as reminiscências - na verdade, idéias inatas que o homem contemplou em contato com os deuses. São lembranças de uma outra vida que o homem traz a tona em contato com a percepção das coisas. Depois disso tudo seria falso - ou apenas cópias do ideal (idéias perfeitas) e estamos falando do que imaginamos ser a vida real.
Existe também, creio eu, a perspectiva de que estamos em permanente construção. Claro que a significação de um caldo mudou, porque o mar também mudou pra vc. Nós mudamos para o mundo e isso faz com que o mundo mude também e o que parecia esquisitice, se tornou seu domínio. Vc o percebe e é maior do que ele, porque agora pode aceitar ou negar, gostar ou não. Essa parte é muito importante. Isso muda o nosso olhar. Não temos como rejeitar o fato de que somos únicos e que o sentimento é altamente subjetivo - quer dizer, quem determina é o sujeito na sua relação com o tempo e o espaço. Essa sensação pode não ser a mesma sempre. Um caldo, um cheiro, um prazer específico ou uma dor podem assumir dimensões ou intensidades absolutamente diversas no decorrer da nossa vida. Creio que o que determina é o momento vivido. Um filho pode ser recebido de forma distinta do outro. Comprar um objeto desejado pode ser para alguém o mesmo sentido de ter um filho - não em valor (claro!), mas em ter alcançado algo que gostaria muito. Pode ser que um filho seja ruim, uma notícia negativa para alguns a ponto de desejar matá-lo (como temos visto na mídia). Enfim, não dá para prever o que seja realmente novo enquanto sensação. Pode-se inclusive nos revelar algo a que convivíamos sem perceber, até estarmos propensos a esse despertar. E aí, tudo novo de novo....como diz o grande poeta Paulinho Moska.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sobre os Filhos e as Pedras

Por Simone Silveira

Criar filho é semelhante ao ato de jogar a pedra na água no intuito de fazê-la derrapar, ou na melhor da hipótese, saltar graciosamente na superfície cristalina afim de que conquiste o infinito.

A pedra é escolhida ao acaso, pois elas estão lá soltas no mundo—rua, beira do rio, floresta. Mundo este que não existe até que nos damos conta dele. Agora, o mundo uma vez formado, nos presenteia com seus elementos minerais, diria mesmo ancestrais. É preciso que admiremos a grandeza da sua extensa existência. Assim, é possível tratá-lo com maior dignidade, já que, nos últimos tempos, temos coniventemente ignorado sua fragilidade e contribuído para a sua devastação.

Entre tantas pedras, há de se escolher uma com a forma plana e de preferência, arredondada. Há sempre a dúvida cruel se a eleita entre tantas é perfeita o suficiente para o jogo. Neste caso, e em quase todos na vida, uma escolha, é realmente a falta de escolha, pois já nos acostumamos a carregar no peito e na cabeça, idéias pré-definidas. Assim se passa quando se tem um filho. Bem no fundo, na hora do nascimento, a dor latente, a bacia dilatando, não importa ser a criança homem ou mulher. É imprescindível que seja saudável. Somos todos animais. Muitas mulheres como eu, dividem a mesma experiência de contar os dedos dos pés e das mãos do bebê nos primeiros segundos de vida dele. Essencial mesmo é que ele nasça. Ponto. Conheço quem pariu uma criança morta. Esta dor eu jamais desejo ao meu semelhante. Conheço uma mulher que pariu um filho doente. Ela é o meu melhor exemplo de mãe—paciência infinita, dedicação integral sem espera de retorno, amor incondicional.

Uma vez a pedra na mão, as outras deixam de existir, assim também se passa com os filhos. Quando miramos a sua fisionomia pela primeira vez, é como se já o conhecêssemos por toda a eternidade. Não há esforço. Esta familiaridade é instinto. Depois do reconhecimento, é hora de estudar a melhor forma de jogá-la na água para que salte em intervalos regulares. O intuito é que ela vá longe, muito longe. O corpo e as mãos se curvam em um ângulo específico, afim de que ao lançar a pedra, ela perfure o ar rodopiando em círculos magistrais, seguidos de um arco perfeito rumo à água. Sem quase tocar a superfície e vencendo a tendência natural de submergir-se, a pedra finalmente derrapa harmoniosamente sobre ela. Esta arte, aparentemente tão simples é como a arte de se criar um filho. Sua complexidade vem com a primeira febre, a primeira briga na escola, o primeiro palavrão, a primeira dor, o primeiro amor e outros primeiros que nos pegam despreparados e nos põem tão confusos como nossos filhos. Bem no fundo, somos todos marinheiros de primeira viagem, inclusive aqueles, como eu, que se julgam frutos de uma geração esclarecida —tudo pelo diálogo, e que defendem o conceito de ser a criança dotada de direitos e deveres como qualquer outro indivíduo. Na hora do aperto, há de se consultar os livros. To Listen to a Child, do Doutor Brazeton tem sido de suma importância como outros dele. A sogra também é elixir com toda a sua experiência de vida. As vizinhas, e até o porteiro tem o seu lugar nesta difícil arte.

Maternidade é certamente um ato natural, assim como muitos, por exemplo, comer de garfo e faca, porém é necessário a aprendizagem. Amamentar talvez tenha sido uma das mais doloridas, fisicamente e emocionalmente, nos meus primeiros meses como mãe. Tudo estava errado. Meu filho berrava. Era fome lhe corroendo o pequenino estômago. Eu me olhava no espelho, seios feridos, tanto sacrifício, qual era o problema? Eu era insistente no meu desejo, agüentava a dor da ferida aberta e os berros desesperados do meu primogênito. Três semanas e nada, a ferida crescia enquanto ele emagrecia. Ninguém me contou como segurar o bebê e dar-lhe o peito. Muita coisa a gente aprende na marra porque nossas mães “esqueceram.” Os vídeos nas aulas de preparação ao parto não é mão na massa. O boneco demonstrativo na aula de Lamaze está longe da realidade de uma criança de carne e osso e esfomiada nos braços. Enfim, sejamos modernas e sem preconceitos. Contratei uma consultora em amamentação e em poucas horas o problema foi resolvido. Me senti realizada como qualquer outro mamífero. Estava alimentando a cria.

Esta crônica era mesmo pra falar de toda a minha incerteza no meu papel de mãe (quem é mãe sabe, nunca sabemos se estamos fazendo a coisa certa... quem é filho também tem lá as suas dúvidas). Depois destas linhas e milhões de cenas rebobinadas na memória consigo derramar as minhas inseguranças e pouco reclamo dos meus filhos. Ela deveria ter começado assim: “Meus filhos até o dia de hoje competem com aqueles que me chamam pelo telefone.” O texto tomou rumo novo, voilà.

Inspiração nasceu de um telefonema pra mim do meu pai. A conversa durou pouco. Meus filhos, sempre educados em todas as outras circunstâncias, menos esta, cortou a minha conversa ao telefone com seus berros, chantagens e apelos. “As crianças no Brasil não são assim não, a gente fala no telefone sem problemas, elas se viram pra lá. Vocês também não foram assim não,” completou meu pai, certo que a nossa cultura brasileira permanece a mesma há várias décadas. Na hora respondi meio que justificando os gritos das crianças, “sabe como é, pai, aqui a gente cria filho muito só, eles se tornam muito dependentes da gente. Por isto não conseguem dividir a mãe,” disse eu, pensando mesmo nas empregadas brasileiras que tomam conta de tudo, que maravilha.

Pela noite me arrependi. Sou uma mãe que escolheu ter um papel ativo na educação de seus filhos. Tudo tem o seu preço. Há de chegar o dia quando poderei entrar no banheiro e curtir minha privacidade sem o receio de ser interrompida, ou telefonar a um amigo e ficar de papo pro ar. Tento lembrar do meu regresso ao trabalho e já posso sair pra jantar ou viajar uma vez ou outra sem que se sintam abandonados. São crianças felizes e seguras. Há um o tempo particular no amadurecimento de cada um. Há de ser ter paciência, eu repito para mim mesma, não posso esquecer. Assim como as pedras jogadas com precisão, a liberdade acontece a cada pulo.



Victor e Henry vendo a chuvar cair no pátio do Cloisters, NYC, 2007

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O ato de roubar um beijo

De Bruno Vaks

Já começo esta crônica com um assunto que vai dividir, provavelmente, aqueles que se dispuseram a pensar, ler e relevar o ato em si. Afinal de contas, quase cem por cento das pessoas que poderia perguntar, levaria a palavra ao pé da letra e falaria que ela é da pior estirpe. Ou seja, todo o ato de roubar é ruim.

Não necessariamente. Estamos acostumados a ler todos os dias nos jornais e revistas, que fulano roubou sicrano, que “x” roubou um banco, que “y e z” roubaram pedestres na rua e por aí vai. Consequentemente essa palavra virou sinônimo de coisa ruim. Ora, como muitas vezes vou contra a maré, digo que roubo pode ser um ato bom.

O que? Vocês devem se perguntar. O cara enlouqueceu – dizem outros – nem vou continuar a ler....

No campo do amor há algo de se roubar que é muito bom. Os mais afoitos pensariam logo em roubar namorados. Que, grande parte das vezes é tomada à decisão pela incontrolável certeza que o outro ou a outra foi feito para você e não para aquele manezão/manezona com cara de otária(o) que anda, abraça e segura a mão da mulher/homem. Afirmo também, que por questões psíquicas e psicológicas, também não entendidas por mim, há aqueles que fazem isso somente pelo prazer de ter aquilo que o outro possui. Nem que seja por uma noite sequer. Ao passar dos anos essa questão vai se apaziguando e diminuindo, inversamente proporcional à abertura de ambientes e de mundos que o individuo descobre.

Roubar é um ato abominável e repulsivo. E roubar um beijo de alguém, o que é? Um ultraje, um insulto, uma sem-vergonhice como diria os mais velhos?

Vou dar a minha opinião sobre o assunto. Acredito que roubar um beijo é um ato de bravura, coragem e de risco, é claro. Não leve ao pé da letra achando que quem faz isso é igual ao beijoqueiro, que sai beijando todos e tudo nas ruas. Pense em você, nos momentos de tensão, do pré encontro com alguém, nos sonhos tanto sonhados dormindo e acordado sobre aquela pessoa que modificaria seu estado de espírito. Ah, a famosa ansiedade. A boca seca, o frio na barriga, o suor e, na pior das hipóteses, a gagueira ou a total falta de voz. Só pense.

OK. Quem nunca, enquanto conversava com alguém que saíra ou que estava flertando, se perdeu em pensamentos pensando em que momento ele a beijaria ou como ele iria beijá-la. Na sociedade judaico cristã ocidental que vivo, quase sempre é assim. Por isso um premio para aquelas que transgridem.

Numa roda de bebidas um dia desses, ouvi isso: “O ato de roubar um beijo” e confesso que achei sensacional.

- Quando ele ou ela menos espera - conscientemente, diga-se de passagem - você vai e smack! dizia o cara. Num primeiro instante o susto é que impera. A primeira reação será essa. Mas o que o susto libera, a sensação das bocas se tocando se sobrepõe e muitas vezes na seqüência há beijos e mais beijos. E aí meu caro, o resto é com você.

Também não posso deixar de falar, que há casos que o susto leva a uma sensação involuntária, como a repulsa imediata e se a pessoa se sentir ofendida com tamanho ato de invasão de privacidade, um tapa na cara será o que de pior acontecerá. Mas fique frio, em poucos dias o roxo se dissipa juntamente com o “não”simbólico que levou.

Já que a cabeça é um poço de idéias, ando pensando bastante em historias engraçadas de beijos roubados reais e imaginárias. Como o beijo roubado pode atenuar a ansiedade do casal ou, pelo menos de um deles. Lembrei de uma cena de um filme do Woody Allen, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, em que o protagonista busca a pretendente em casa para irem no cinema. Já sabe-se que os dois estão interessados em se beijar, mas fica aquela sensação esquisita e doutrinada de rolar o beijo somente ao entregá-la em casa. Mas a caminho do cinema, o homem vira para mulher e diz, algo como:

- “Não agüento mais. Nos dois sabemos que iremos nos beijar na porta de sua casa, para que ficar sofrendo de angustia esperando o momento do beijo se podemos fazer isso agora e curtir uma noite agradável?” Isso acontece e vemos os dois rindo adoidado numa daquelas típicas cafeterias americanas.

Então a minha opinião é a seguinte: sentindo uma possibilidade, não deixe de aproveitá-la e a surpreenda. No geral, você ganhará pontos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A vez de Inocência

Simone Silveira

Estava distraída quando tropeçou pela primeira e única vez. Inocência havia passado toda a manhã em uma repartição pública para renovar o documento de identificação pessoal.

Chegou às oito horas em ponto quando o funcionário abriu as portas e redirecionou os cidadãos para o guinche de atendimento ao público. A fila andava vagarosamente. A espera era interminável. Uns deixaram de trazer um documento importante, outros esqueceram de pagar a taxa bancária indicada no formulário de renovação. Finalmente era a vez de Inocência. Depois da entrega da papelada, sujou os dedos de tinta e lá deixou sua impressão digital. Foi direcionada à frente da câmera para que a foto lhe fosse tirada. Sorriu. Rabiscou o seu nome à direita do “x” no rodapé do documento e partiu.

No elevador pressionou o abdômen com as duas mãos cerradas. O estômago doía. Comprou jabuticabas de um ambulante nordestino. Encheu a boca delas enquanto corria para atravessar a extensa avenida Rio Branco. Na euforia, suas pernas se embolaram e Inocência tropeçou. No asfalto da avenida Rio Branco as frutas rolavam. O sinal abriu. Inocência tentava se firmar sobre os pés, já nem pensava nas jabuticabas muito menos na dor do estômago. A dor agora era no pé direito. Aguda. As buzinas dirigidas à ela por motoristas impacientes não facilitava a difícil tarefa de se completar a travessia.

Inocência sentiu-se tonta. A respiração se tornou ofegante, apressada. As mãos pingavam suor, um filete dele lhe descia `as costas. Um imenso desejo de não mover-se instalou-se. Os automóveis se aproximavam, passavam por ela. Inocência lá, à deriva, pensamento petrificado. O sinal fechava. O sinal abria. Inocência foi aos poucos perdendo o medo. Primeiramente, o medo da forma automobilística em avanço, depois o medo do som de pneus derrapando, depois dos gritos—Louca! Saí daí, maluca! Quer morrer?

Ela morria. Eles não sabiam. Fio de sangue fazia o seu caminho até o corte, pele rompida pelo osso exposto. O líquido escorria e se misturava com a poeira do asfalto. Ela morria. As jabuticabas não existiam mais. A pele enrugava, a boca rachava, nem os olhos ela abria. Ela morria. Inocência tentara cruzar a grande avenida Rio Branco, verdade maior. Ela havia feito a decisão. Teve a coragem dos loucos, dos santos, dos desvalidos. Os passantes entretanto se acostumaram com a presença em decadência de Inocência — plantada no meio do asfalto, ferida e secando, dia após dia.

Ela poderia ter feito o enorme esforço de atravessar a avenida, agora longa, interminável, apoiando todo o peso de seu corpo sobre o pé saudável. Ela poderia ter gritado alto por uma mão caridosa. Porém houvera o desejo brotando-lhe no peito tão inesperadamente como a fruta que rolara pelo asfalto quente. Ela queria abraçar a própria inércia afim de por à prova a inércia alheia. O outro, de pé no meio-fio, dentro do carro, no alto dos prédios, debruçado na janela, permanecera insensível à sua dor. Ela só precisava de provas. Agora, já as tinha.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Ao Ponto

De Simone Silveira

Sempre me impressiono com os que desejam e mesmo assim escolhem a segurança de um amanhã falido. O sujeito sabe que não é feliz, a Felicidade está esmurrando a porta, quase rouca pedindo para entrar, e nada. O Homem até encontra a coragem, coitado, depois de dias, de pegar a chave e colocá-la no orifício da fechadura. A mão treme e ele desiste. A Felicidade sabe da desistência. Ela sabe de tudo. "E aí, meu caro, abre logo esta porta pois seu tempo extenua-se," diz Felicidade. A porta continua cerrada. O Homem esquece que o tempo ainda lhe pertence. Não todo o tempo do mundo, mas o pouco que possui é elixir na palma da mão em concha. "Olá, e aí, que bom ouvir sua voz," diz o Homem. E só. Sim, ela espera um pouco mais do outro lado. Desiste. Não pede mais. Elixir escorrendo por entre os dedos do Homem. Felicidade sabe da fraqueza alheia. "Eu vou bem, um pouco cansada. Ao esperar, me torno pingo caindo de um conta-gotas sem intervalo até nada mais restar senão o vazio preenchido pelo ar, " diz ela. Agora muda, parte mesmo, afinal ela é o que é. Vai não sem antes pendurar uma nota breve e honesta: Felicidade não bate duas vezes `a porta do Homem de alma perdida.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Pirataria pode?

De Bruno Vaks

Já esta ficando chato. Todo lugar que eu leio, todo o lugar que eu vou, tem alguma coisa relacionada ao filme que ainda não estreou. O já consagrado blockbuster brasileiro “Tropa de Elite”. Nunca vi coisa igual. Aqui ao meu lado, estão assistindo nesse momento. Meu pai se rendeu aos apelos uníssimos da rua Uruguaiana e trouxe um exemplar para casa. Todos já viram e comentam. Menos eu.

Daqui a pouco não vou conseguir nem olhar para o filme de tanta ojeriza que criei dele. Dizem que está muito bom, que as interpretações estão sensacionais. A polícia briga com os produtores por uma fatia de mercado. Os produtores brigam com os camelos que estão vendendo o filme pirata e por aí vai. Calorosas discussões tomaram corpo sobre a pirataria. Uns são contra, outros a favor. Outros são chamados de hipócritas. Outros de modernos, antenados e por aí vai.

Eu, nesse caso, estou no grupo dos hipócritas. Digo isso, não porque seja um, pelo contrario, mas na questão do filme, sim eu sou. Se agüentar, irei assistir somente no cinema, mês que vem. Não me renderei à pirataria. Vou lá e deixarei meu dinheirinho para a indústria e seus investidores. Ainda não consegui parametrizar o meu patriotismo cinematográfico, porque não tenho dó em baixar as mais diversas musicas da internet. Alias, nem me lembro quando comprei meu ultimo CD. E agora estou esbravejando contra a pirataria. Sou adepto do livre comercio dessas mercadorias. Escuta-se o som quanto quiser e o quinhão dos artistas viria de outras coisas, como aparições publicas, propaganda, shows, shows e shows

A música seria como um “comercial” do artista podendo ser “degustada” em show. O artista ganharia por ter sua obra vista ao vivo. Lá ele sentiria a emoção que o publico tende a sentir quando vai para esses eventos. No mais, tudo é valido, pois o que globalizou, já era.

Então aproveite que a maré está boa, se encha de conhecimento, já que o futuo a d´s pertence.

domingo, 23 de setembro de 2007

Por um Fio de Memória

De Simone Silveira
(dedicado à Jeanette Munõz Schrag, filha de Consuelo Perez)

Era o aniversário dela, senhora Connie, 86 anos, residente há dois, na casa de repouso Centro para Idosos Pilar.

—Olá, Connie, como está? Feliz cumpliãnos, eu lhe desejei em sua língua materna. Ela riu e me perguntou se iria visitá-la na manhã seguinte. Eu lhe disse viver a cinco mil quilômetros dela. Teria que planejar uma viagem para vê-la brevemente. —Você vem me visitar amanhã?, repetiu ela, como se a pergunta fosse tão fresca como seus anos adolescentes, naquelas tardes que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Connie foi mulher à frente do seu tempo. Enquanto as meninas bordavam, ela passava as tardes num aviãozinho bimotor sobrevoando o vilarejo na companhia de Armand, cadete da aeronáutica.

Ele era lindo, sempre diz Connie, com lágrimas quase secas minando dos olhos e revirando as poucas memórias que ainda carrega. Casaram-se e tiveram uma filha. Ele foi servir ao país na guerra. Ao término desta, veio o alívio, que durou uma fração de tempo de uma vida feliz. A menina tinha três anos de idade quando receberam o telegrama informando à família que o avião pilotado por Armand trazendo prisioneiros de guerra tinha sido abatido pelos alemães durante a decolagem. Em solo francês jaz o corpo do marido.

Connie, viúva aos 24 anos, ainda casou-se mais quatro vezes. Separou-se de todos eles, sob a alegação de que os ex-maridos, sem exceção lhe cortavam as asas. Se tornou psicóloga. Comprou carros conversíveis velozes. Virou pintora de paisagens bucólicas—as planícies amareladas pelo sol insistente do Novo México e a cidade de San Francisco sob a neblina farta. Não bastando os pincéis, voltou-se à arte primitiva de fazer vasos de cerâmica. Na roda, ela girava e moldava suas peças, todas disformes, livres da exatidão, da linearidade da forma que jamais vivenciou.

Connie, agora, lembra-se de muito pouco, nem chora quando fala de Armand. Ainda não esqueceu que é mãe de uma filha. Sua memória é um fio frágil e delicado, como os fios de ouro utilizados em bordados de capas reais na Idade Média. Eu faço o erro grave de perguntar-lhe se gostaria de rever seus bisnetos. Ela se assusta. —Bisnetos, tenho eu bisnetos?, responde ela com palavras trêmulas seguidas de uma gargalhada potente, confusa, louca. Silêncio. Ela me pergunta se irei visitá-la no dia seguinte. Desligo, ciente de que eu também, já caí em esquecimento.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Relato do "Imperador"

Por Simone Silveira




Sou um ser andarilho. Não foi nada fácil dizer adeus àquela Ilha—o jardim, às plantas, mais de duzentas fincadas no solo nos últimos três anos. Fica a esperança que as alfazemas sobreviverão mais um ano sem o meu cuidado diário de noventa e oito dias exatos todo o verão. Consegui colher pêssegos da árvore plantada no ano passado. Duas maçãs tímidas ainda amadurecem na macieira. A horta foi minguando aos poucos e meu coração também, afinal sou orgânica. Minhas mãos cavaram três buracos admiráveis, misturaram à areia seca e amarelada, um bom monte de esterco feito de algas marinhas. Lá estão agora, já se enraizando em terra boa, três árvores de folhas picotadas avermelhadas, Japanese Maple. Lindas. Sei que elas crescerão robustas apesar de tanto vento e sal nos galhos e tronco.

Durante a viagem de volta à cidade de Nova Iorque meus olhos só viam a mata. O outono chegou, as folhas secam e amarelam. Paramos em uma cidadezinha histórica. Descrevi e analisei cada jardim—as flores e arbustos, a geografia, a relação destes objetos entre si e o espaço. Meu marido comentou que eu só via as plantas e não a arquitetura tradicional do local. Me calei. Dentro de mim procurei encontrar relação entre o comentário e minha vida. Até onde não estou conseguindo levantar a cabeça, meus olhos e descobrir algo novo, ainda que velho?

Chegar foi desalento. Me desabituei das ruas sujas, dos pombos, da multidão. Estranho entrar no meu apartamento fancy em Nova Iorque. O chão preto e meus tapetes orientais me chocaram, assim como o meu fogão industrial de seis bocas, peça fundamental nas festinhas e saraus. Como acumulei tanta tralha nestes anos todos? Precisarei limpar superfícies, doar o desnecessário. Felizmente o fogão fica. Para sempre gostarei de ter gente na minha casa e de alimentar o outro, mesmo apreciando a minha privacidade.

Coloquei as malas no chão do corredor e a campainha tocou. Tocou algumas vezes. Em meia hora, havia três vizinhas e oito crianças correndo pela casa. O apartamento foi virado ao avesso em questões de segundos. Não me importei, ali nascia uma alegria. Minha ausência fora sentida e o meu retorno esperado. Gosto de gente. Penso ser este gosto um ato recíproco.

Enfim desabei de cansaço. Na cama, senti o cheiro do meu travesseiro, experimentei a sensação familiar do peso do cobertor sobre o corpo. A Ilíada lá, repousada na cabeceira, me esperando. Priam, rei de Tróia, suplicando o corpo do filho morto, Hector, a Aquilles. Este, mesmo corroído de ódio, consegue ainda se comover e devolve o corpo do inimigo. Li mais uma vez este trecho que ao longo dos anos sempre me tocou pela profunda capacidade do homem de entender a dor alheia. Apaziguar o próprio ódio nas entranhas. Do meu quarto, dos meus livros, da casa não, tive saudades. Dormi bem e em paz.

No dia seguinte, deixei o Brooklyn e fui à Manhattan. Subway lotado—gente, carrinho, barulhos, sacolas, lixo. Para qualquer um, menos para mim, é tão fácil andar pelas suas ruas planejadas em grade, como o velho conhecido jogo da velha. Já revirei os subúrbios cariocas divulgando teatro, já desvendei os mistérios dos becos e ruelas de Lisboa com êxito. Em Manhattan, eu me perco por ser tão exata. Andei muito, por ruas longas, contei quarteirões extras. Quem sabe mais do que pensei ter caminhado?

Os pés calejavam. No campo, eles são libertos de qualquer sapato. Porém, neste exato instante, é aqui onde habito. Existo.

(a palavra Imperador no título é uma referência à carta número quatro do jogo de tarô que simboliza o poder, a afirmação, a iniciação, firmeza e consistência)


terça-feira, 18 de setembro de 2007

Sobre memória, física quântica e minha cidade

Por Aline Yasmin

Acredito em algumas questões tais (que não poderia discorrer perfeitamente por ser imprecisa em dados teóricos) de que creditam a possibilidade de nossa energia ficar - impregnar-se nas coisas e nos lugares. Além disso, a física quântica pelo que sei, entende que a “noção de ordenação temporal dos acontecimentos torna-se insustentável e a não-causalidade é vista como conseqüência natural de suas teorias” (*). Ou seja, rompe o conceito linear de tempo e espaço. Acontecimento e história.

A Praia do Canto é um dos bairros mais charmosos desta cidade. Berço da tradição local, tornou-se também boêmio, fashion, asfaltado e sinalizado. Morei durante muitos anos em algumas de suas principais ruas, coincidência ou não, sempre em prédios antigos com aquele ar de nostalgia e de história. Lugares cheios de charme – pelo que entendo de charme – e intimismo, ainda que desvalorizados comercialmente. Meus amigos sempre me fizeram refletir sobre minha identidade associada à semelhança desses lugares marcados por pés direitos altíssimos, pisos de madeira, salas confortáveis e, claro, longe do comodismo dos condomínios impessoais com seus elevadores, porteiros mal humorados e vizinhança a balde.

Filhos crescendo e me rendi: condomínio, playground, seguranças e a modernidade suprimiu o romantismo. Rompi, deixei meu velho sobrado pra trás e confiei no pragmatismo de minha mãe – era melhor.

As ruas mudaram em minha cidade. Agora mudam as casas. Pode parecer conservador de minha parte, mas acho que eu mudei de cidade e ela ainda não mudou de mim. A minha inquietude é de garantir minimamente a paisagem em meu percurso rotineiro – nem que isso seja apenas pra me nortear. Acho que a paisagem traz um vínculo com o próprio ser que habita esse lugar. Paisagem enquanto arquitetura, enquanto patrimônio histórico, natural e pessoal.

Sinto que minha cidade está fugindo de mim ou daqueles que ainda moram nela - naquela. Não sei o que farão com esse sentimento – essa “apatridamento” – ou seja, estamos estrangeiros – apátridas afetivos - no lugar onde nascemos. Percebo – insisto – quase um discurso moral conservador, mas creio que devam existir sentidos.

Em nome de um crescente desenvolvimento ou de uma perversa lógica imobiliária, estão arrancando nossas almas, soterrando nossos sentimentos com enormes escavadeiras para amontoar suas paredes de papel.
A promessa é apagar o Convento da Penha, que agora pouco se vê – sufocado pelo crescimento vertical, encobrir o Monte do Mestre Álvaro e destruir as edificações históricas (que devem ser consideradas desperdícios em terrenos especulados). Contabilizo diariamente as baixas em nome do progresso no curto caminho que faço.

Parece ironia, mas Ouro Preto – que é historicamente muito mais jovem que Vitória – hoje é considerada patrimônio histórico. O fato é que a cidade cresceu com a exploração do ouro e pelo mesmo ouro – esgotado, foi abandonada, além da sua importância política, posteriormente perdendo o status de capital. Isso garantiu sua permanência, sua história e ainda que recente - pareça tão longínqua, o que me faz concluir que se o crescimento econômico continuasse, não teríamos suas belas ruelas e fachadas como memória.

Hoje como sempre faço, passei por um dos lugares onde morei. Desses que sempre me orgulhei, como se (mesmo rendida aos tediosos condomínios), dissesse um pouco de mim. É normal ter alguém ao meu lado e eu falar: “- Vivi x anos aí.” Adorava essa casinha velha. Na sequência, sempre um comentário de uma cena que merece ser lembrada. No sobradinho amarelo eu fiquei 06 anos. Ele tinha aqueles problemas clássicos dos apartamentos antigos, mas estava entre os meus preferidos, conquistado depois de tempos de espera.

Para minha grande surpresa o pequeno sobrado amarelo não estava mais lá. Várias máquinas removiam a terra do que um dia foi minha sala e minha cozinha. No fundo, um árvore solitária da área externa fazia companhia a pintura – ainda guardada – feita pelos meus filhos com o nome de um deles: Renzo. Confesso que me surpreendi por isso também. Seu nome foi preservado na parede por 04 anos depois de que saí de lá.
O piso, os gradis e o velho vitral da fachada se desconfiguraram – agora são peças desarmonizadas, um quebra-cabeça espatifado no ar.

Tanta incorporação talvez justifique o crescimento de várias lojas com móveis maravilhosos de madeira-de-lei-de-demolição. Penso com antipatia numa delas na mesma rua e na possibilidade de encontrar revisitadas a porta e seus vitrais transformados em cristaleira.

Fecho os olhos. Os carros buzinam. Lembro dos pezinhos balançando no pequeno muro, do vigia da rua batendo papo no portão, do pé de manjericão vizinho ao Flamboyant que florescia vermelho.

Meus filhos não mais poderão contar suas histórias, não poderão mostrar a casa onde viveram sua infância. Talvez nem se lembrem mais, perdidos na própria cidade onde estavam e o que faziam por lá.
Estrangeiros sem memória vivendo no mesmo lugar?

O caminhão parado a frente carrega a placa que sentencia:
Luxuoso, 1 por andar, com 02 vagas de garagem, financiamento direto.

Espero a placa atravessar.

Não é mais a mesma rua, as árvores também mudaram de lugar. É preciso seguir em frente: lógica do descarte (ou seria Descartes) assumindo seu lugar.

Volto às teorias quânticas: “No princípio da não-localidade, e que diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma causa local; especulam sobre viagens para trás ou para adiante no tempo; explicam a pré-cognição.” (*)

Sustentada por essas terorias, uma esperança suscita. Parada sob os motores da escavadeira - cogito: Posso ainda estar lá?


(*)citações da Dra. Cintia Xavier

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O que existe entre Eu, Epicuro e Aracru

Por Aline Yasmin

- Você conseguiria viver numa casinha fora da cidade e perto da natureza?
Acordei com essa pergunta escorrendo em meus ouvidos. Eram 8 da manhã e meus olhos não estavam totalmente abertos. Eu sentia ainda aquele torpor Alpha de quem está se religando ao mundo depois de uma deliciosa noite de sono.
Os pássaros pararam de cantar há tempos e o dia parecia noite - chovia.

Considero-me uma pessoa urbana daquelas que transitam instintivo ou racionalmente em qualquer lugar do mundo onde haja concreto, semáforos, motores e atividades afins. Risco a geografia mentalmente e vou sem o menor complexo das diferenças geoculturais, norteada pela “segurança” do mercado global: até meu Fox brasileiríssimo anda pelas ruas de sua gênese tedesca. O fato de eu fluir – no sentido fluência – em espaços urbanos tão naturalmente, também não quer dizer que seja esse meu estado natural e nisso consiste o dilema – ser-natural numa essência não-natural. Espero me fazer entender.

O mar em Caraíva é um misto de sal e doce – muito sal e muito doce: mistura do rio que desagua e divisa o pequeno vilarejo. As ruas são de areia fofa e o meio de transporte mais eficiente é o jumento – bicho trabalhador. Seu Beto tem aproximadamente 60 anos e guarda ainda uma certa urbanidade – talvez no corte de cabelo que insistiu em se moldar e nos modernos aros do óculos de grau – dando-lhe um ar de universalidade. Partiu de São Paulo antes que São Paulo o partisse no meio. Era industrial bem sucedido mas a vida já não respondia mais – os excessos o guiavam. Excesso de trânsito, agendas e problemas. Não excedia em nada o tempo a si mesmo até que tirou férias depois de 15 anos e foi para uma vila antiga guardada no meio do mundo. De lá não saiu mais. O que era uma semana, virou um mês, dois anos e hoje já comemora 10, em sua pousada de frente para o mesmo mar (que muda de cor todos os dias e nunca é o mesmo)

- Rejuvenesci 20 anos. Ou seja, hoje estou 10 anos mais novo do que quando cheguei. Diz ele (eu acredito).

Com muito custo, saí da cama e fui para a varanda espiar o horizonte. Eu sempre confio na linha do horizonte quando muda o tempo. Santa Bárbara que me guia, dizem.
Sem ainda responder a intrigante pergunta, que no máximo esbocei um sorriso, levantei-me para acordar definitivamente.
Um fio rompia a massa cinza e o facho de luz me esperançava. Não que eu despreze um dia de chuva, mas em Aracruz – no nosso cantinho – gosto de caminhar na areia rente a restinga.
- Caminhar na areia faz bem pra alma, teorizo.
E na nossa praia, tem um “quê” de Bahia – (dos ventos quentes do nordeste) e guarda um pouco da “arquitetura” nativa das pedras e das árvores que se debruçam espontâneas na praia. Gosto de sentar nas raízes generosas que me aninham.

O trânsito – no empenhado compromisso de melhorar nossas vidas – anda “complexo”. Coisa pra quem entende de geometria analítica e lógica aristotélica. Eu, pra me manter em dia, ando consultando algumas teorias. – Tempos de mundanças – creio eu. Choro atrasada e confio. O tempo nunca dá tempo. Vejo livros amontoados pedindo socorro ao lado de minha cama. Meus arquivos e esboços criativos perdem seus prazos. A cidade cresce e eu encolho – digo. Não é mais possível fazer uma caminhadinha, sair 05 minutos antes e almoçar em casa. – Os tempos são outros – agonizo.

Penso no novo amigo Beto, feliz morador de uma pousada a beira-mar e o invejo. Não a clássica inveja pobre de espírito, mas aquela inspiradora, o que me remete a alguns filósofos gregos que pregam a Ataraxia – ou seja, fugir das perturbações da alma. Os epicuristas por exemplo se guardavam em seus jardins onde tinham toda a oportunidade do mundo para exercer o logos – prazer último do homem em busca da felicidade (que ninguém sabe muito bem o que é).

A nesga se rasga e clareia o céu. Caminho em direção a areia. A bela praia quase deserta se oferece a um passeio. Penso nos gregos, nos livros esquecidos e faço planos. A apenas uma hora – onde as árvores não são de plástico, o ruído não é motorizado e vibra simbiótico com o vento. Tenho a sensação de estar em contato com o que me é mais natural – ainda que seja tão urbana.

A primeira pergunta procura seu destino e eu ainda a problematizo:
- Por que não?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Hoje tem chopada!

De Bruno Vaks


Ufa! Finalmente olho para a página em branco e começo a dissertar sobre os acasos da vida que sempre nos acontecem. Ao andar pelas ruas, você tem a possibilidade de encontrar os mais diversos tipos e as mais diversas situações podem ocorrer contigo num piscar de olhos.

E é claro que uma dessas ocorreu comigo. Na verdade ela costuma ocorrer duas vezes ao ano. Nos meses de março e agosto, dezenas de jovens aparecem pintados, sem um dos sapatos, com um copo de plástico na mão e um sorriso na boca. Vale lembrar que isso é na maioria dos casos. No vai-vem diurno da pressa das pessoas, aqueles jovens simpáticos abordam qualquer pessoa que acham que valha e pedem uma “contribuição”, já que são os famosos calouros da faculdade. Essa contribuição é para pagar o pedágio das roupas apreendidas e para financiar a chopada dos veteranos. Uma animada confraternização, que simplesmente é pura azaração.

Mas o fato não é esse. Diferente de outras abordadas, essa não me apetece muito. E não é porque sou sovina nem nada. É muito difícil para eu não dar uma contribuição. Aquelas meninas no começo da vida adulta pedindo um trocado é de matar.... (o velho). Já reparou na cara das pessoas quando não ajudam. Elas ficam sem graça e muitos inventam desculpas. “Pô hoje não vai dar”, “Cara só tenho nota de R$50”, “Vai entornar hoje hein?” são uma das respostas que ouvi. Eu mesmo, já falei isso, depois de ajudar duas pessoas no mesmo quarteirão em Ipanema. Com a proliferação de escolas e universidades, as ruas ficam infestadas deles zanzando pedindo contribuição. Um fator que acho mais absurdo ainda é que muitos viajam cerca de 30 km para pedir essa contribuição. Como sair de Niterói e pedir a caixinha no Leblon. Afinal como se estão sem um sapato, sem uma camisa, totalmente pintados e sem dinheiro? Uma pergunta que é difícil de calar.

Depois de ficar constrangido em não ajudar um calouro semana passada, vi logo a frente um menino de rua pedindo dinheiro para comer. Diferente do calouro, o garoto estava com roupa surrada, não exibia sorriso algum no rosto e olhava impávido o frenesi dos estudantes. Verifiquei que as pessoas não pediam desculpas para o menino e também não davam satisfações a ele. Simplesmente diziam não quando outras muitas ignoravam. Aí quis traçar um contraponto entre a tristeza e alegria dos jovens hoje em dia. Enquanto uma pequena parcela com poder e anseios, pede animadamente um dinheirinho para beber com os novos colegas da faculdade, uma grande parcela pede um dinheirinho para sobreviver. Não quero dizer que a culpa é nossa, ou do governo. Todos sabemos que falta política social e educacional em nossas metrópoles.

A reação das pessoas é que tornou a pobreza, uma questão secundária para nossas visões indvidualistas. Gosto de dizer que nós jovens, somos traçados pelo indivualismo unilateral. Isto é, vivemos para si e às vezes vivemos para os outros, os famosos entes queridos. O que eu notei foi a fantasiosa falsa impressão de bondade que todos nós, na intensa correria do dia-dia esquecemos de ver. Aprendemos a não ajudar aos outros pelo fato de que assim, o pedinte nunca sairá daquela situação que se encontra. Muitas vezes deixamos de ajudar uma criança, porque sabemos que a mãe irá embolsar a quantia e gastar com outras coisas, como bebida e cigarro, enquanto essa criança poderia estar na escola.

Mas a outra parcela que está ingressando na faculdade poderia fazer com esse dinheirinho, uma coisa mais nobre. Me lembro de quando entrei na faculdade e não escapei do trote,e fui parar numa das avenidas mais movimentadas do centro, pedir uma contribuição. Um conhecido meu riu ao me ver e continuou, abordei um grupo de japoneses engravatados que não ajudaram e depois de penar por horas no sol, assisti de longe a bebedeira daqueles que seriam o futuro de nosso país.

Por isso que hoje durante esses meses, evito sair cheio de trocados pelas ruas para que não possa passar pela vergonha de ajudar um jovem a beber com os amigos do que ajudar um jovem com fome. E para aqueles que não concordem comigo, ou não achem certo o ponto de vista levantado, que prestem atenção nos murais por aí, por que uma nova chopada vem chegando.

Feira

Por Simone Silveira

Feira é sempre maravilhosa, seja lá onde for, do Brasil à Turquia não há muita diferença não. São todas caóticas, são
todas criativas, são todas convidativas e a gente se perde, em meio de tralhas, comida, flores, temperos, gente, bicho. Feira de São Cristovão é forró. Mercado de Istambul é cheiro de chá de maçã seca e tapetes luxuosos. Feira de Martha's Vineyard é feira florida. Feira africana na Ilha de Maurício é labirinto de saris indianos. Feira da Praça da Gávea é pra comprar peixes pro seu gato. Feira do Campo do São Bento em Niterói é pra se perder em meio de bibelôs e artesanato. Feira do Embarcadeiro em San Francisco tem gosto de mel e tortilhas mexicanas. Mercado das Pulgas em Paris é pra achar cacaréus e quinquilharias preciosas. É na feira que eu conheço o país, a cidade, o povoado. Feira é de gente e para gente—gente pobre, gente rica, gente preta, gente branca, gente velha, sarada, todo tipo de gente. Porque eu gosto de ser gente, onde vou, onde passo, meus olhos se abrem. Em qual esquina, em qual rua, haverá uma feira?


Feira na Ilha de Martha's Vineyard, MA, USA.

sábado, 1 de setembro de 2007

Sobre alteridade e meus filhos

Aline Yasmin

Lucca chegou da escola correndo como sempre – crianças sempre correm. Renzo, mais contemplativo, somente resmunga um pouco de alguma coisa do caminho com ar de espanto, o que é totalmente diverso da expectativa que tive sobre suas personalidades quando ainda eram bebês. Minha irmã Elian admirada com a placidez de Lucca – ao contrário de Giulia, minha sobrinha – sempre me dizia: “…você tem um anjo, minha filha…” era de fato, um bonecão bolachudo e com três redemoinhos – um a cair pela testa, que lhe davam um perfil angelical, somado ao fato de estar sempre com olhos arregalados, atentos, mas completamente silencioso. Renzo, nasceu com a pá virada, embora no banho – ao contrário do irmão – sempre fazia festa. Chorava copiosamente e o peito – seu alento – tinha que estar disponível para apartar o grito desenfreado.

A bola corre lá fora na quadra descoberta. Eu na janela de meu quarto, vejo o menino suado embrenhando-se estratégia adentro com um sorriso campeão. Renzo, brinca com outra bola no canto e ajuda um bebê nos seus primeiros passos. Lucca, faz gol e comemora enérgico. Renzo sorri vitorioso e conivente com os passinhos dados pelos pés emparelhados na grade lateral. Ambos trazem ideais dentro de si.

Sou irmã gêmea univitelina. Essa não é propriamente uma escolha, mas uma grande experiência. Viver a identidade ou a falta dela é estar em contínuo contraponto, na medida em que geneticamente idênticas, escancaramos nossas vivências e a perspectiva traçada. Acabo concordando com os existencialistas de que a “existência precede a essência”, na medida em que nos fazemos, nos construímos ao longo de nossa vida. Sempre nos é cobrado um assemelhamento e acabamos por transferir para nossa relação o que gostaríamos de ver no outro. Gêmeo ou não,

Ir ao supermercado pode ser uma grande dialética: enquanto tento agradar ao Lucca – que adora Kani, desagrado Renzo que detesta. Para comprar o lanche da escola, fica ainda mais difícil: suco de uva pra Renzo, maracujá para Lucca, biscoito doce para Renzo e salgado para Lucca. Outro dia, comprei quilos de mamão despejados no carrinho, acreditando ser consenso da família e descobri que era apenas fruto da obsessão de Renzo. Comemos eu e ele por uma semana, mamão em todas as refeições. Lucca não gosta. Caminho assim, na tentativa respeitosa de estabelecer um diálogo sobre coisas mais profundas. A escola por exemplo, os amigos do condomínio e situações outras que nem sempre dá pra escolher. Entendendo que estão ali e também não podem ser removidos sob a nossa vontade.

Escolher ou não escolher. É um instante ou uma década. Não tem jeito, como diz meu amigo Sartre: “Tentar fugir é agir em má fé”. Ou como diz Heidegger: “um ser inautêntico”. De todas as formas, uma coisa é certa: estamos aqui, jogados no mundo, diante de perspectivas subjetivas ou concretas. É possível escolher um amigo? Acredito que sim, ao ser também escolhido. Mas, para tal não é necessário estabelecer uma negação sobre ele. É impositivo respeitá-lo, ainda que deixando claro os próprios limites como um código silencioso e ético de conduta.

Assim, Lucca corre sedento atrás da bola, Renzo não participa do time e escolhe brincar com uma criança menor. Ambos indiferentes ao desejo do outro, sem negá-los. Sem deixar de se amarem. Cada um no seu espaço, compreendendo ali sua missão, seu aqui e agora.

Alteridade pura. Pura ética.

sábado, 25 de agosto de 2007

Terminais e Sonhos Desativados

De Aline Yasmim

Acelero. Sempre estou com pressa. O trânsito da cidade anda infernal em meio a políticas públicas pré eleitorais – estratégia do tipo cava buracos para inaugurar no último ano de mandato. A cidade de Vitória é uma ilha – poluída – com duas pistas principais. A que margeia o mar e sua paralela. As vicinais nem se pode considerar vias de acesso, comprometidas com bifurcações incalculáveis. Estamos num beco sem saída.

O volume de estrangeiro é vigoroso e chega curioso todos os dias – migrantes e imigrantes rumo a terra do ouro negro. É certo que nossa cidadela vai tomando ares de cidade grande e com ela, o ônus e o bônus. Tenho pensado na contabilidade dessa simetria e estou convicta de que o ônus é maior e aponta seus vértices para nós residentes eufóricos por promessas e oportunidades.

Outro dia, em meio a mais uma produção pública, fui abordada por um jovem senhor com camisa estampada a passeio numa bicicleta azul. Eu falava entusiasmadamente ao celular e não pude entendê-lo até sua terceira fala, compreendida simplesmente pelo gesto certeiro da arma em punho. O tão inocente senhor vocifera: “- Passa o Celular”. Eu, imersa nos meus problemas habituais, só fui entender o tão insistente assunto quando o trabuco metálico mirou em minha direção.

– O CELULAR! dizia o tal homem apressado.

Com sorte e a bolsa no carro, acatei solícita e de cabeça baixa - entregando-lhe o objeto e salvando todo o resto, inclusive a mim mesma.

Dia semelhante há aproximadamente um ano quando saí em disparada com Caê, pra fugir de um provável sequestro relâmpago. O mesmo gesto, o mesmo olhar e o brilho metálico 38 num domingo sorridente por volta do meio-dia.

Existe ódio no olhar dessas pessoas. Confesso que sempre procuro entender o Eu que fez por merecer. O Eu – outrem. O Eu, que não sou eu. Sou a injustiça de uma vida contraponta, da qual participo e compactuo até onde não quero, mas que nem sempre posso refutar. Faço parte da minha vida e ponto. Faço parte da vida dessas pessoas também. Não tenho como negar. O ódio me entristece e desampara.

Paro e tento entender o que está acontecendo, mas preciso estar em movimento. Não tenho onde parar, nem pra apreciar o dia que está de fato bonito – visto de um mirante da nossa baia de Vitória. O mar azul (que engana) lambe as costas da cidade. A cidade é bela e seduz. Vejo claramente a metáfora da mocinha Vitória que está crescendo – bonita e perigosa, do tipo vilã das novelas globais.

O carro corre e me deparo com a estupenda igreja evangélica para 10.000 pessoas instalada em tempo recorde na via continente de um bairro privilegiado. Aliás na Avenida N. Sra. Da Penha (supeito por precaução, a conveniente abreviação do endereço para Av. Reta da Penha – outro nome possível). Parece-me pelo porte e pela velocidade da obra, que também traz sinal dos tempos. Estamos de fato crescendo – se é que isso possa parecer desenvolvimento.
"A religião é o ópio do povo", dizia Karl Marx. Seria essa lógica então?
Enquanto cresce a violência, a certeza da finitude, a falta de espaço, cresce o mercado da fé e a promessa da eternidade? Conjecturas instantâneas.

Passo pela beira-mar. Nela, dois pontos abandonados há tempos de um terminal aquaviário - ignorados. Vivemos numa ilha, logo também deveríamos usar barcos – silogizo. Não é possível ainda entender o engarrafamento que se segue, interminável. Calculo que em apenas 05 minutos percorreríamos o que de carro ainda fazemos em uma hora, e de ônibus - o dobro. Diariamente milhares de pessoas circulam enjauladas em coletivos desumanos em longos trajetos desnecessários.

A cidade é portuária e carros desembocam vertiginosamente em containers gigantescos. Não temos ciclovias, as calçadas estão depredadas e uma perspectiva vitoriosa de metrô, nem de perto parece viável.
É o caos urbano – fruto do ônus que já mencionara.
A cidade cresce - na promessa do petróleo. Os coronéis se fortalecem e a panela de pressão está em pleno vigor. Nela, todos fervem de pavor, exceto os que preparam a mesa - famintos.

Observo. Faço discursos animados. Outro dia ouvi que não deveria dizê-lo para manter minha relação política. Nem quis pensar sobre isso. Minha voz é minha soberania, afirmo.

Olho para os vizinhos de trânsito e eles estão com expressões cansadas. Eu danço solitária no banco apertado - INXS pra minimizar a exaustão. Os ônibus carregam sonhos amontoados, mexem seus corpos apenas em curvas. Passam pelo terminal desativado e não o vê, esqueceram-se das promessas do metrô, guardam suas bicicletas em casa – por segurança – reservadas àqueles que não tem medo e nem pensam em ciclovia. Também não observam o teatro em frente, prestes a ser demolido enquanto artistas suplicam agonizantes. Cultura não enche barriga – diz o velho político.

E as pessoas adormecem em pé no trajeto até suas casas ou comemoram aniversário, já que ali passam grande parte dos seus dias. No ônibus não tem música. Tem grito de menino pedindo gorjeta, tem idoso doente e gente caindo na roleta.

Fraternité, Igualité e Liberté. Tento buscar algum princípio na humanidade que tenha dado certo, nem Marxismo, nem ideal cartesiano burguês, nem suecos suicidas.

Sem utopia ou distopia, a massa apenas espera e nem sabe o quê. Eles não se lembram. Não pedem nada ou são ignorados.

Resta o ópio como solução. que cada vez mais enche igrejas (in) perfeitas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Para Não Esquecer

De Simone Silveira, Agosto de 2007

Três horas da tarde de ontem, o carteiro me entregou um papel cartão rosa choque. Era uma comunicação de comparecimento ao correio. Corri. Há um bom tempo que não recebo cartas tão importantes. Julgo-as, inocentemente por opção, de valor elevado por serem registradas.

Há de se levar em consideração o cuidado extra do remetente pois não quer que seu leitor fique a ver navios e sua obra caia em mãos desafortunadas que jamais apreciarão a dedicação de se escrever uma carta, levá-la ao correio, dá-lhe tratamento VIP, e com coragem, tirar aqueles reais extras do bolso, ignorando a insistente pulguinha atrás da orelha que sussurra— e aí, boboca, palhaço, vai pagar mais? E se a carta acabar chegando de qualquer forma? Nunca se sabe, meu chapa... Você perde, mané.

A pulguinha pára para se coçar e então aquela cena da multa presa no pára-brisas lhe vem à cabeça. Multa, eu? Falta a humildade de colocar aquela moedinha na máquina, ou pagar aquela gorjeta extra pro flanelinha. Tudo pra driblar o sistema e brincar com a sorte. Como é bom a adrenalina correndo pelas veias, meu caro. O jogo vira. Vez ou outra, mais cedo ou mais tarde, ele sempre vira. E a multa está lá, brincando contra o vento que te irrita ainda mais. Não seria melhor ter colocado a moeda, ou mesmo duas só pra garantir a paz de espírito. Há os que cumprem, não são jogadores. Melhor comprar mais selos, registrar a carta e ter a certeza que é tudo pela felicidade geral do leitor!

Ainda me lembro do tempo, há uns dez anos atrás, antes da internet e dos emails, como me extasiava com a chegada de cartas. Nunca deixei de prestar a atenção ao horário de entrega das correspondências. Hábito. Aprendi bem aquele prazer.

Digo mesmo que foram as cartas e a certeza da chegada delas que me salvaram da depressão e da falta da pátria quando aterrizei nos EUA. Estava, como se diz aqui, homesick. Fechava os olhos e sentia o gosto do sal da água do Arpoador, o gosto do milho carregado na manteiga do ambulante em frente ao Canecão, das ladeiras da Lapa, do carnaval, me via atrás do Suvaco do Cristo e do Simpatia, blocos carnavalescos inesquecíveis— o carnaval havia acabado de acabar e eu partira. As lembranças eram ainda latentes, o Baixo Gávea e seu bafo que não deixava de ouvir até quando dormia, janela virada para os braços do Cristo abertos para mim, o meu namorado de então, o Jardim Botânico e o jardim da escola de teatro da Uni-Rio, na Praia Vermelha. Saudades do palco do teatro Lucinda e de alguns malucos do grupo de teatro Os Fodidos Privilegiados, Dirigido por Antônio Abjamra e João Fonseca. Os Privilegiados foi a minha casa e minha família por um ano e meio.

1996, A companhia havia acabado de se reunificar depois de alguns anos parada. Cara nova, grupo novo, tudo muito frágil. Explico: a dedicação do grupo ao espetáculo e companhia era intensa e inevitável. Precisava de uma reestruturação. Éramos muitos, o grupo era de alguma forma "democrático." Entrava qualquer um, desde que fosse comprovado que o teatro era uma escolha profissional do artista (carteirinhas do sindicato dos artistas, ainda me lembro. Quem não tinha, acabou ganhando). O espetáculo foi O Que É Bom em Segredo É Melhor em Público, 1996.

O diretor, Antônio Abujamra, juntamente com João Fonseca, tinha tido uma idéia brilhante no início do processo, que ele mesmo não participou pois estava dirigindo novela em São Paulo e vinha a cada duas ou três semanas para dar forma à peça. O homenageado seria o Nelson Rodrigues. Montaríamos O que é Bom em três atos baseados na adaptação do folhetim O Homem Proibido e rechearíamos os entreatos com cenas baseadas nas crônicas do Nelson. O entreato era a genialidade da montagem.

Eu gostava de chamar o grupo de Fodidos, como o Abujamra. Fodidos porque até os nossos figurinos eram pagos por nós. Não se fazia dinheiro lá. Patrocínio mesmo só alimentício. A nossa fome era religiosamente saciada nos intervalos dos ensaios à base de kani, aquela carne imitação grotesca de siri parecendo cigarrilha. O kani chegava aos montes durante os ensaios e apresentação. O significado mais profundo da palavra Fodidos, era a analogia direta e intrínseca à nossa condição de artista no Brasil. Éramos todos jovens, sonhadores e estávamos fazendo arte em um país que até hoje não acredita na educação, na classe artística e seu ofício, na política limpa como forma de evolução de um país e seu povo.

O Que É Bom em Segredo É Melhor em Público, estreou aos trancos e barrancos para os atores. O ilustre Abujamra, apesar de ser um diretor excepcional, mostrou um lado anti-ético decepcionante. Cortou 2/3 do espetáculo dois dias antes da estréia, deixando assim, não mão, mais da metade do elenco, me incluo nesta leva, depois de um ano de pesquisa intensa. Aprendi ali a minha primeira grande lição de desrespeito ao artista. Talvez a mais dolorida de todas pois se deu dentro de casa.

O processo de trabalho, começou com visitas semanais à Biblioteca Nacional para fotografar páginas dos jornais onde o Nelson havia escrito suas crônicas. Naquele tempo não havia quase nada da obra jornalística dele publicada em livro. Quando vi os inúmeros livros de crônicas sendo vendidos na FLIP—Festa Literária de Paraty, quase tive um enfarto. Tudo lá, prontinho pra levar para casa. Trouxe. Progresso gigantesco na literatura brasileira. Depois das visitas à biblioteca e dinheiro suado gasto para a xerox e passagem do próprio bolso, foi a vez das leituras e mais leituras— peças, romances e textos. Palestras. Começamos aliás, no Joquey Clube, na Gávea, até conseguirmos o espaço do Lucinda, na Cinelãndia. As noites acabavam ao lado, em brahma e batata frita no Amarelinho. Mesas de discussão, dentro e fora do teatro. Entre a aparição da Camila Pitanga, dando o ar da graça e de sua presença marcante por duas semanas, provando que nem todo global é, aliás insuportável e a saída dela, muito sangue rolou naquele grupo e naquele teatro, que diz a lenda ser mal assombrado (assombrado mesmo, era para mim voltar pra casa cruzando a Cinelândia à uma da manhã em dia de semana).

Camila era, penso ainda ser, simpática. Falava com todo mundo. Dizia estar em busca de uma experiência teatral. Trocamos até telefone. Iríamos tentar trazer meu ex professor da Uni-Rio, Léo Jusi, pra falar do Nelson pro grupo. Daí veio convite melhor, e ela cheia de ginga, partiu. Não sem antes deixar para trás um rastro da sua beleza latina da mistura das raças e da sua bunda perfeita e redonda, segunda a própria Pitanga, eleita naquele ano, a melhor da rede globo de televisão (perdão Camila, prometi confidência. Mas não fiquei famosa e duvido que ainda se lembre de mim. A verdade, mais cedo ou mais tarde sempre vem à tona. E hoje, quem se importa? Queria eu ter a sua bunda. ).

Os problemas daquele ano continuaram. Talvez não tão para a parte privilegiada do grupo. Quem faria o papel principal ? Era a nova questão. Uma outra mocinha, selecionada para o papel principal, durou poucos ensaios, foi selecionada para um gig melhor, novela no SBT e partiu para Sampa. O negócio é esquecer gente famosa e lançar sangue novo e ambicioso, como foi com a Cláudia Abreu no papel de Hamlet da memorável montagem a seguir premiada de Abujanra de Um certo Hamlet, em 1991, só com mulheres. Foi nesta montagem, que decidi ser atriz profissional, estudar teatro pra valer na universidade. Ainda trabalho com este cara, pensei, então, no auge dos meus dezesseis anos.

Quem? Quem? Quem? Põe a Guta Strauss, que acaba de chegar do Sul, de Curitiba. Guta tinha alguns conhecidos que já trabalhavam com o Abu há algum tempo, foi recebida com carinho extra. E por que não? E lá entrou a Guta. Menina cheia de energia, determinação. Ambiciosa. Tinha mesmo uma fisionomia rodriguiana, misteriosa, quase macabra. Ela era despachada. Sem medo. Repito, aquela menina não tinha medo de nada, do palco, de gente, do diretor, das luzes, dos erros, nada, absolutamente nada. Era impressionante. Eu a detestava como atriz, meu santo não batia com o dela fora dos palcos, mas admirava o profissionalismo e a eficiência. Guta aprendia tudo numa rapidez, marcação, fala, tudo. Assim foi. Papel escolhido é a vez de ensaiar. Era necessário colocar o volume exacerbado de informação coletada pelo grupo numa forma simples e atingível ao público. Paralelamente começou a ser produzido um outro espetáculo de Nelson Rodrigues, a adaptação de Abujamra e João Fonseca, assinando também a direção, para o romance O Casamento, Guta assumiu aquele desafio também.

A minha casa virou um antro rodriguiano na época dos ensaios. Arrastava móvel pra cá, levava a reck da televisão para lá. O meu namorado, que odiava gente em casa, estava à beira de um ataque de nervos. E eu decorava as frases da Engraçadinha e Seus Pecados e procurava alucinadamente apagar o naturalismo da sua imagem de seriado global. Expressionismo. Era só o que ecoava naqueles dias. Precisávamos de espaço. O Dulcinda, na reta final, estava mais ocupado com os ensaios de O Homem Proibido e O casamento. As cenas rodriguianas que conectavam a trama tinham que se virar para sair do papel. A gente ensaiava em qualquer lugar. Ano louco aquele. Peça pronta, ensaio geral. Chega o diretor de Sampa. Passamos a peça. Abu só balançava a cabeça. Muito longo, três horas e meia de espetáculo, dizia ele, o público vai dormir. Medo da Bárbara Heliodora sentada na primeira fila no dia da estréia? E não é que ela malhou mesmo? Detestou tudo. Temos que enxugar, concluiu.

O Ducinda quase veio abaixo. Cabeças rolaram, obviamente. Foi um deus nos acuda nos bastidores, novatos à beira do pranto. Depois do corte, lá se foram quase todas as cenas do entreatos, dois dias antes da estréia. Depois do choro, o boato—Tudo pelo processo. Não é esta a desculpa dita preferida aos que vivem pela arte no Brasil, principalmente aos que sonham em acontecer?

Peça enxuta, o resto do povo, virou mesmo, obviamente, povo, plebe, coro, no fundo do palco, cinqüenta atores da companhia, sentados em cadeiras duras durante duas horas e meia no fundo do palco do Teatro Lucinda. Imóveis. Mão nos joelhos. Só podiam piscar. É yoga. O negócio é dar vida aos olhos. Aos olhos, pupilas e cílios. Sobrancelhas, jamais! Juro ter sido esta a mais dolorida temporada teatral de todos os tempos. Tudo pelo teatro, era assim para muita gente ali— O tempo, o dinheiro dos pais, o próprio vindo dos salgadinhos, langeries e produtos da Natura vendidos no intervalos. Eu só pensava nas três classes que havia trancado na Uni-Rio, no meu dinheirinho suado de vendas de bombons e jóias entre uma matéria e outra na faculdade. Tudo em vão. Tudo? Claro que não. Pois não estou aqui hoje recordando com saudade, e digo mais, até com um certo prazer daquela experiência? Foi uma escola. Certamente. Verdade que não esqueço o desrespeito do mestre às suas próprias crias. Abraão sacrificando seu próprio filho para adorar a seu deus.

Tudo pela arte. Abú cortou muito. Resolveu eliminar os figurinos de quem não era elenco principal, vestíamos camisolas sexy preta. Nem deu pra salvá-las porque ele as detestou. Na tentativa final, quis que fossem cobertas em renda dourada. Passei uma noite com a figurinista e uma latinha de spray nas mãos tirando o negativo da renda sobre a camisola de laicra barata. Camisola rendada, cortada da peça também. Dezenas e dezenas, lixo. Nem deu pra levar pra casa a peça que me custou, ainda me lembro trinta reais. Elenco de apoio, sim viramos apoio dois dias antes da estréia, entra em roupa cotidiana—calça jeans e camiseta, resolveu o mestre. Ponto. Do pouco que restou da extraordinária obra do Nelson baseada nas crônicas e engavetada na Biblioteca nacional, que garimpamos e adaptamos, foi a dispensável mini cena com a loirinha linda de desessete aninhos. Era ligada ao Glauber Rocha, tinha o sangue do mundo do cinema. A loura não hesitou em ter uma cena de um minuto completamente nua, à meia luz. Era a sua única e primeira aparição nos palcos brasileiros. Abu entendia, a platéia também. Era Nelson Rodrigues.

Ao imigrar para os EUA, o teatro, foi o que mais me trouxe sofrimento e gerou saudades. Traidora dele no seu conceito e princípio mais puro. Carreguei esta sensação e culpa por anos. Tudo pela arte? Tudo mesmo? Eu falhei no meu próprio país. Léo Jusi escreveu no quadro negro da Uni-Rio em uma aula de Direção Teatral —você quer o teatro, e o teatro, te quer? Ali ele deve ter tirado metade da turma do trilho. Jamais esqueci aquela colocação. Exílio para mim aos vinte e dois anos. Meu exílio foi espontâneo, necessário, para esquecer os amores deixados para trás. E as cartas, as cartas me salvaram. Telefone era muito caro, ninguém ligava mesmo e eu não ligava de volta. Não sabia dos cartões telefônicos. Nem sei se tinham. Além do mais, sempre detestei falar pelo telefone.

As Cartas eram conforto, entre elas as de Rosa, minha grande amiga, irmã de alma, chegando semanalmente e sendo respondidas prontamente. Lia uma e a saudade era saciada. Nas respostas que lhe enviava, contava sobre a América, e assim eu ia me entusiasmando com tudo que era novo, com as minhas próprias impressões da realidade observada e vivenciada. Até que fiquei, fiquei mesmo, namorei, casei, tive filhos, jurei à bandeira, virei cidadã, estou voltando às artes— ao teatro, à costura, à leitura, à escrita. Tudo sendo feito novamente. Bem feito. Com amor. Dedicação e retorno. Há coisas que não mudam. Adormecem. De tanto cansaço. Ainda bem. Alívio. Há outras que evoluem muito rápidas, como a comunicação, o surgimento dos emails, chatrooms, msn, skype, e outras maravilhas do mundo moderno, que estou aos poucos me simpatizando.

Mais cedo ou mais tarde, eu me modernizo, me atualizo, I will catch up, I will be on the ball, o leite jamais ferverá e transbordará, não perderei o trem das onze, e vou parando aqui para não perder a originalidade do texto. Longe de plagiar o mestre Joaquim Ferreira dos Santos e suas expressões ressuscitadas do limbo, da lama, do escuro amedrontador do esquecimento. Esquecimento, que um dia, mais cedo ou mais tarde, cairemos todos, a maioria. Não cairemos, despencaremos, como fruta amadurecida, amarelada, murcha, manchada, bichada, flácida, seca, sem vida, sem suco. Inevitavelmente, desprevenidamente, assim sem mais nem menos, num dia quente de verão, ou mesmo por uma chuva forte, quem sabe pela força delicada da leve brisa interrompendo a natureza caridosa que ainda permite o fruto gozar do seu último gole de seiva.

Quando eu, você e o próximo cairmos, de verdade, ou no esquecimento, não restará muito, cartas, quase impossível. Emails salvos no hard drive, talvez. Mais cedo ou mais tarde se apaga tudo para não sofrer. São elas, as cartas, objetos de afeição quase perdidas, quase esquecidas pelo desuso, pela evolução da humanidade, como o latim, que pena, como uma lembrança vaga, um beijo de outrora. Eu gosto mesmo delas, de verdade. Sou tão obsoleta, fora de moda. Então, pedi perdão ao santo padroeiro das mães, coloquei os filhos na frente da televisão, gritei pro marido trabalhando no quarto ao lado que iria dar uma saidinha por quinze minutos. Fui ao correio buscar a minha carta. Há anos não recebo uma.

Não era. De dentro do envelope, puxei o conteúdo. Li Hierosgamos—Diário de uma Sedução, de Noga Lubicz Sklar.

Minha querida amiga de Oficina Literária de Paraty colocou dedicatória no seu livro capa rosa choque. Coincidência gostosa. Tem dedicatória, pensei, pode se dizer que é carta. E assim foi para mim. Fiquei feliz, ganhei meu dia! Carta longa é este livro. Noga, vou ler sua obra como se estivesse me escrito e contado um segredo seu, sagrado. Prometo te enviar uma carta de volta com comentários ao término da leitura. O meu obrigado é esta crônica que dedico agora, neste exato momento, à você.