quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O ato de roubar um beijo

De Bruno Vaks

Já começo esta crônica com um assunto que vai dividir, provavelmente, aqueles que se dispuseram a pensar, ler e relevar o ato em si. Afinal de contas, quase cem por cento das pessoas que poderia perguntar, levaria a palavra ao pé da letra e falaria que ela é da pior estirpe. Ou seja, todo o ato de roubar é ruim.

Não necessariamente. Estamos acostumados a ler todos os dias nos jornais e revistas, que fulano roubou sicrano, que “x” roubou um banco, que “y e z” roubaram pedestres na rua e por aí vai. Consequentemente essa palavra virou sinônimo de coisa ruim. Ora, como muitas vezes vou contra a maré, digo que roubo pode ser um ato bom.

O que? Vocês devem se perguntar. O cara enlouqueceu – dizem outros – nem vou continuar a ler....

No campo do amor há algo de se roubar que é muito bom. Os mais afoitos pensariam logo em roubar namorados. Que, grande parte das vezes é tomada à decisão pela incontrolável certeza que o outro ou a outra foi feito para você e não para aquele manezão/manezona com cara de otária(o) que anda, abraça e segura a mão da mulher/homem. Afirmo também, que por questões psíquicas e psicológicas, também não entendidas por mim, há aqueles que fazem isso somente pelo prazer de ter aquilo que o outro possui. Nem que seja por uma noite sequer. Ao passar dos anos essa questão vai se apaziguando e diminuindo, inversamente proporcional à abertura de ambientes e de mundos que o individuo descobre.

Roubar é um ato abominável e repulsivo. E roubar um beijo de alguém, o que é? Um ultraje, um insulto, uma sem-vergonhice como diria os mais velhos?

Vou dar a minha opinião sobre o assunto. Acredito que roubar um beijo é um ato de bravura, coragem e de risco, é claro. Não leve ao pé da letra achando que quem faz isso é igual ao beijoqueiro, que sai beijando todos e tudo nas ruas. Pense em você, nos momentos de tensão, do pré encontro com alguém, nos sonhos tanto sonhados dormindo e acordado sobre aquela pessoa que modificaria seu estado de espírito. Ah, a famosa ansiedade. A boca seca, o frio na barriga, o suor e, na pior das hipóteses, a gagueira ou a total falta de voz. Só pense.

OK. Quem nunca, enquanto conversava com alguém que saíra ou que estava flertando, se perdeu em pensamentos pensando em que momento ele a beijaria ou como ele iria beijá-la. Na sociedade judaico cristã ocidental que vivo, quase sempre é assim. Por isso um premio para aquelas que transgridem.

Numa roda de bebidas um dia desses, ouvi isso: “O ato de roubar um beijo” e confesso que achei sensacional.

- Quando ele ou ela menos espera - conscientemente, diga-se de passagem - você vai e smack! dizia o cara. Num primeiro instante o susto é que impera. A primeira reação será essa. Mas o que o susto libera, a sensação das bocas se tocando se sobrepõe e muitas vezes na seqüência há beijos e mais beijos. E aí meu caro, o resto é com você.

Também não posso deixar de falar, que há casos que o susto leva a uma sensação involuntária, como a repulsa imediata e se a pessoa se sentir ofendida com tamanho ato de invasão de privacidade, um tapa na cara será o que de pior acontecerá. Mas fique frio, em poucos dias o roxo se dissipa juntamente com o “não”simbólico que levou.

Já que a cabeça é um poço de idéias, ando pensando bastante em historias engraçadas de beijos roubados reais e imaginárias. Como o beijo roubado pode atenuar a ansiedade do casal ou, pelo menos de um deles. Lembrei de uma cena de um filme do Woody Allen, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, em que o protagonista busca a pretendente em casa para irem no cinema. Já sabe-se que os dois estão interessados em se beijar, mas fica aquela sensação esquisita e doutrinada de rolar o beijo somente ao entregá-la em casa. Mas a caminho do cinema, o homem vira para mulher e diz, algo como:

- “Não agüento mais. Nos dois sabemos que iremos nos beijar na porta de sua casa, para que ficar sofrendo de angustia esperando o momento do beijo se podemos fazer isso agora e curtir uma noite agradável?” Isso acontece e vemos os dois rindo adoidado numa daquelas típicas cafeterias americanas.

Então a minha opinião é a seguinte: sentindo uma possibilidade, não deixe de aproveitá-la e a surpreenda. No geral, você ganhará pontos.

3 comentários:

Simone Silveira Kaplan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Simone Silveira Kaplan disse...

Bruno, que texto leve, divertido, delicioso de se ler(como um bom beijo roubado, é claro)! Fiquei me lembrando dos meus anos de solteira. Bom trabalho. O tema foi muito feliz. Agora vou ter que escrever a crônica "beijo e a bala hauss." Vou usar o texto de gancho.

yasmin disse...

fechei os olhos e senti meu primeiro beijo de língua, aos 11. Não foi roubado, mas teve suor, dor de barriga e gagueira.

bj's